terça-feira, 21 de outubro de 2014

Um dia narrado em multimídia!


05:00, aqui no ponto de ônibus.
Vai demorar para o sol nascer ainda. Frio. Frio não: gelado mesmo. Um vento de cortar.

05:01.
Finalmente o ônibus veio.
Geralmente são as mesmas carinhas, as mesmas pessoas que sempre acordam nesse horário pra trabalhar.
Quando esse post for ao ar, espero poder estar acordando lá pelas onze de novo, após uma madrugada intensa de missões em um dos meus games!

Li, acho que um mês e pouco atrás, que o importante para qualquer texto feito para a internet seria o foco.

Foi numa das edições da revista Superinteressante!
Eu tava prestando serviço à Jovem Pan, e decidi ir até a banca, comprar um lanche e algo pra ler, pra fazer com que o tempo passasse mais depressa.

Qual não foi minha surpresa, a reportagem de capa tratava sobre organizar sua vida, nessa correria que se transformou o nosso dia-a-dia.

O autor dizia sobre seu bloqueio de jornalista, que tinha um prazo pra entregar o texto, sua reportagem, mas do branco que o atrapalhava terminar as últimas linhas.

"Escreva quando puder. Quando estiver inspirado. Faça anotações. Se for pra escrever uma linha por dia, o faça. Mas não deixa de traçar metas!"

E aqui estou eu. Sentado ao lado de um cara que não conheço, às 05:09 da manhã, do dia 23 de setembro de 2014. Primeiro dia da primavera desse ano.

Também passo por esse branco.
Inúmeras vezes tentei voltar ao meu blog, sem sucesso.
Comecei a reparar que sempre me frustrava. Ia lá, escrevia pros leitores que dessa vez era pra valer, caprichava no post, e já no dia seguinte... Cadê o ânimo?!

Aqui, no blog das 30 pessoas, busquei por blogueiros na minha mesma situação. Pessoas que tinham suas páginas, mas que resolveram escrever uma vez por mês. Para não deixar de redigir de vez.

E encontrei!

Tem alguns que gostei tanto que cheguei a pensar: "Que pena que ele/ela não escreve mais todos os dias.
É uma delícia de texto!"

Mas entendo bem.

Cheguei à rodoviária de minha cidade.
Tirei uma foto pra mostrar que não tem quase ninguém aqui hoje, nesse horário.



Também fiz um print da tela do meu celular pra mostrar o quão frio tá aqui.
Um vento de gelar a espinha.
15°C?!
Sensação de -5°C!!!



Acho que darei uma pausa na escrita agora.
Ficar um pouco quieto.
Seguir a recomendação do jornalista da Superinteressante. O qual, obviamente, fiz questão de agradecer e parabenizar pelo Twitter.

Escreva quando tiver vontade.
Não se sinta obrigado.
Por agora, acho que tá bom!
Bora esperar o segundo busão dessa fria manhã de setembro!

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Resolvi voltar só pra registrar que já tô dentro do ônibus que me levará até a cidade vizinha, onde tô fazendo freelance (não lembro se escreve junto ou separado).



Parando de novo!
Vou ouvir música!

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Comecei com essa: "Meu vício agora" - Kid Abelha


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Tá rendendo!
Meio-dia e nove.
Acabo de ouvir no horário eleitoral "gratuito" obrigatório algo que"tirou" a paz de um amigo meu, no Facebook, há uns dois dias: "Estão propondo acabar com a polícia?! Foi isso mesmo o quê ouvi?!"

Sim, querido. Foi.

Tem coisa que, se eu não ouvisse, eu não acreditaria.

Penso que nunca antes na história desse país, a internet tenha sido tão importante numa eleição.

Por exemplo: um ator contratado, fazendo um sotaque nordestino, acabou de dizer no programa do partido dele que a candidata dele tá liderando isoladamente em todas as pesquisas.

Não é bem assim não, meu filho.

Eu sempre disse da importância da população ter acesso à rede mundial de computadores.

Mas fiz uma "pesquisa", durante as eleições, pra saber se as pessoas buscavam informações sobre seus candidatos na internet.

O quê mais ouvi foi "não! Prefiro ver sobre novelas e afins!"

Não sou contra novela, e nem nada.
Mas eu acredito que também seria importante informação.

Aqui em São Paulo, dois candidatos que lideram nas pesquisas me fazem sentir vergonha alheia e me levam a pensar que o povo realmente não tem memória.

Um, só faz palhaçada (se bem que a grande maioria nos fazem de palhaços mesmo). Dos poucos projetos que criou (todos sobre o circo, literalmente), não defendeu nenhum na bancada.

O outro que lidera, assim que pôr um dos pezinhos lá fora, a Interpol pega.

Dá pra entender?!

Inclusive, esse candidato aí (o segundo que exemplifiquei) já está inclusive com a eleição impugnada, porque caiu na ficha limpa.

Quando esse post for publicado, vamos ver como estará o nosso país, nosso estado. Espero que aí onde você mora, tudo tenha corrido bem.
E que se você me lê fora do Brasil, torça por nós.
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Show. Ônibus superaqueceu.
E é o mesmo carro que pego de manhã. E sentei na mesma poltrona. Olha a foto aê!



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Muito bem!

Depois de ter tentado fazer o melhor possível, acho que se me estender mais, o negócio vai ficar massante! Por isso vou terminando por aqui!

Agradecendo a você que teve a paciência em ler esse meu dia aqui. Partilhando comigo essa experiência de postar pelo celular, e de uma maneira "multimídia".

Lembro que uma vez, uma das blogueiras escreveu pra mim, num comentário num dos meus posts, que seria legal, quem sabe, num futuro próximo, postar através de áudio, num dia qualquer!

Vou amadurecer a idéia!
Já imaginou? Eu ligando pra vocês, ou quem sabe via Skype (pra ficar mais barato, porque... Né?!), rolar uma entrevista com a galera que faz o blog acontecer?!

Seria demais!

Aquele abraço!


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Eu odeio política!

"O homem é por natureza um animal político"
(Aristoteles)

Aquela turma de alunos estava junta desde o início dos estudos, ainda na pré-escola, quando amarrar o próprio tênis é um desafio semelhante a uma equação de terceiro grau.

Entre uma brincadeira aqui e outra ali a turminha começava a aprender o conteúdo escolar. Corria nos bastidores da escola que o pequeno Hassan era o mais inteligente. Diziam na sala dos professores que ele já sabia matemática. Matemática! O terror dos alunos mais velhos era brincadeira para Hassan.

O pai, árabe, tinha um armazém onde o menino passava as tardes. Desde que nascera estava habituado a receber dinheiro, calcular o troco, pesar mercadorias, somar, subtrair, multiplicar, dividir, etc. Um prodígio, dizia tia Vera, professora do pré. O problema todo começava quando começavam as letras.

Avesso à escrita, o pequeno gênio decidira não aprender português. Não importava os esforços de todos na escola, a censura dos professores e os castigos dos pais. Irredutível, Hassan crescera um exímio matemático, que mal conseguia encadear as letras para formar uma palavra. O máximo que avançou nessa área foi identificar as letras que usava nas equações.

Thierry, seu amigo, também se destacava na sala por sua inteligência. Filho de pai poeta e mãe redatora, enquanto as crianças folheavam os livros para admirar as figuras, Thierry já lia as histórias para a sala, enquanto os olhos da professora brilhavam com tamanho talento.

O problema chegava com a matemática, e não era apenas um enunciado com incógnitas a serem resolvidas. O garoto escrevia os números por extenso, citava cada um nominalmente, mas se recusava terminantemente a aprender os cálculos mais simples.

Ninguém entendia como um menino tão inteligente e aplicado não conseguia aprender a calcular. Logo o encanto com o prodígio das letras foi minguando até sumir diante da inabilidade para calcular. Escrevendo cada vez melhor, chegou ao ponto de produzir textos fantásticos, que ainda devem estar empilhados em alguma gaveta.

Sem o brilhantismo de um, tão pouco o talento de outro, Fernandes seguia o curso entre os intermediários da sala. Como nunca fora um grande destaque em alguma matéria, passava despercebido ao olhar da professora, que na hora de corrigir as provas sempre custava a lembrar de quem era aquele aluno.

O tempo passou, a turma se formou e logo Fernandes ganhou um cargo de destaque na empresa de seu pai. Ninguém sabia ao certo o que ele fazia, mas pelo fato dele sempre andar de terno por aí, o comentário era que tinha vencido na vida.

Nos encontros de turma fazia questão de sempre deixar claro, com um copo de whisky em riste e ar imponente: “eu detesto política”. Em meio aos sorrisos e apoio da turma não havia espaço para a indignação com que encaravam Hassan e Thierry, mesmo depois da escola.

A turma costumava se reunir a cada dois anos, tudo organizado por Fernandes. Depois da famigerada afirmação sobre a aversão à política sobrava muito tempo para opinar sobre as eleições.

Hassan mostrava gráficos e tabelas desmentindo as informações de Fernandes, mas ninguém entendia muito de matemática, além do mais ele mal sabia ler e escrever. Thierry, especialista em história, ainda que se atrapalhasse com os números das datas, fazia longos discursos para mostrar as incoerências do discurso de Fernandes, mas ninguém lhe dava ouvidos. A maioria achava história uma matéria chata – e pouco importante.

Quanto a Fernandes, não havia indignação por ele se recusar a aprender política, havia até complacência. Seguia criticando alguns candidatos, apoiando outros e cumprindo o papel de formador de opinião da turma. Ninguém lembrava muito bem de como havia sido sua participação na escola, mas era incontestável que ele tinha o melhor emprego entre todos da turma. Isso sem dúvida deveria ser graças às boas escolhas que fez ao longo da vida.

Fernandes segue irredutível em sua aversão. Não quer nem pensar em aprender um pouco sobre política, mas está cada vez mais decidido a concorrer nas próximas eleições. Não pela política, mas para livrar o país disso tudo que está aí. Seus amigos de escola já garantiram o voto no mais bem sucedido da turma.

sábado, 18 de outubro de 2014

Privação dos Sentidos

Talvez você não tenha percebido ou até mesmo “sentido” (perdoem o meu sarcasmo), mas nós já não queremos sentir as coisas como realmente o são. Quem sabe seja por medo ou comodidade, nós seres humanos sempre interrompemos, reprimimos, ocultamos nossas percepções. O meu propósito aqui não é generalizar as coisas (mais do que já estão), porém sinto essa particularidade na maioria das pessoas, pois não estou a cá a falar de superficialidades, mas de coisas que desde sempre vem acompanhando a espécie humana. Já não nos permitimos algumas sensações, emoções e instintos.
Quem nunca notou que já não suportamos o frio? E, ironicamente, o calor também. Caso o contrário os aquecedores e ar condicionados nem existiriam. E o que falar da intolerância a escuridão? Basta olhar o mapa-múndi noturno e verá que nas grandes cidades há mais regiões iluminadas do que escuras. E opostamente as pessoas também não suportam a luz do sol, pois se essa excede um pouco, num dia de calor, nós vamos correndo passar protetor solar colocamos nossos óculos de sol, chapéus ou guarda-sol. E quando o calor intenso da areia da praia nos faz rapidamente colocar o chinelo para nos abstermos daquela sensação? Incrivelmente andar descalço nos parece uma loucura e nos dá grande agonia o simples fato de pensar em fazê-lo, imagine, não abrigar os pés no asfalto quente?! E logo nós, que nascemos descalços e que naturalmente não teríamos sandálias para acolher nossos pés. E o choro que aqui é sinônimo de fraqueza, descontrole e tristeza. A pessoa o engole e sente a amargura de uma lágrima reprimida, mas não se permite deságua-la, pois o outro não suporta saber a vulnerabilidade sem criar uma malícia.
 E o que dizer dos instintos? É tão feio sentir prazer? Quantos orgasmos reprimidos, por vergonha do outro, do que ele irá dizer?! O que irá pensar?! Quantas risadas disfarçadas literalmente ocultadas pelas mãos desesperadas a cobrir aquela inconveniência! Aquela falta de respeito!
Quantos sabores renegados pelo medo de um quilo a mais de um quilo a menos. Quantos amores perdidos, esquecidos! Pelo medo de se envolver, se apaixonar e padecer... Privamos-nos até da felicidade que tanto lutamos para alcança-la através do dinheiro, dos produtos, das viagens e blá blá...
E os odores, no entanto os odores naturais que hoje fedem, que não admitimos e com uma perseverança divina tentamos loucamente disfarça-los tomamos banhos todos os dias e nos utilizamos dos mais variados perfumes, colônias, desodorantes...
Uma dor que seja é rapidamente interrompida com a cartela de remédios, nos medicamos com aspirinas que não fomos nós que fizemos e, pior ainda, às vezes não sabemos nem o que temos.  E não é de hoje que acreditamos mais na mentira, porque não aguentamos a verdade. Mas aí eu me pergunto: Um povo que aguenta tanta coisa não consegue conviver com sua própria humanidade? Pois aguentamos a escola, a faculdade, o trabalho, o ônibus lotado, aguentamos Nagasaki, Hiroshima, aguentamos essas leis, aguentamos as prisões, aguentamos ser escravos por nossa cor de pele, aguentamos o capitalismo, o socialismo, o comunismo, o feudalismo, aguentamos campos de concentração, aguentamos os pesticidas, aguentamos o salário mínimo e o desemprego, aguentamos tantas guerras e não aguentamos a humanidade, não aguentamos algumas vontades e fazemos algumas mentiras virarem absolutas verdades.
 Nós seres humanos, membros dessa sociedade, renegamos a Terra e a usamos como não tivéssemos saído dela e como se não tivéssemos usando nós próprios para uma mentira inventada por nós, o dinheiro. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Alguns motivos para conferir a garota exemplar de David Fincher

Até poucos dias atrás tinha certeza de que este post trataria das eleições 2014, mas o senhor David Fincher fez o favor de mudar tudo e agora me sinto na obrigação de falar sobre o seu filme mais recente. Adaptação do best seller homônimo de Gillian Flynn, Garota Exemplar (Gone girl, 2014) começa nos levando ao aniversário de casamento de Amy (Rosamund Pike) e Nick (Ben Affleck), que, não por tanta coincidência assim, é no mesmo dia do desaparecimento de Amy, mulher que transmite a imagem da mais absoluta perfeição, e que inclusive inspirou a criação de uma personagem de livros infantis que parece nunca cometer erros (a Amy Exemplar); enfim, uma mulher metódica o bastante para concretizar qualquer plano e carismática o suficiente para convencer qualquer um de qualquer coisa. Amy é, definitivamente, o tipo de pessoa cujo desaparecimento causaria uma comoção nacional, o que, de fato, acaba acontecendo, levando inclusive muitas pessoas a se voluntariem para ajudar a encontrá-la. Em oposição a isso, temos Nick, um sujeito tranquilo, sossegado até demais, que não teve nenhum grande feito na vida além de ter se casado com Amy e, que por nunca saber o que dizer ou fazer em público e aparentar certa indiferença em relação à esposa, acaba sendo apontado como principal suspeito do desaparecimento. Além de não passar exatamente a imagem do marido perfeito, as evidências encontradas pela polícia passam cada vez mais a indicá-lo como culpado e, diante da necessidade de provar-se inocente, Nick começa sua própria investigação sobre o paradeiro de Amy.

A partir desse momento, começa uma série de reviravoltas sobre a qual não vou falar aqui, pois grande parte do impacto do filme se deve ao fato de o espectador não ter a menor ideia do que está acontecendo até os momentos finais da projeção. Durante todo o filme, sempre que começamos a acreditar em alguma das versões da história, somos apresentados a alguma informação que nos leva a questionar as impressões que tínhamos até então; é como se o tapete sobre o qual descansamos os nossos pés estivesse sendo puxado o tempo todo. Tal efeito se deve, em grande parte, à excelente direção de David Fincher, que já vem nos tirando da zona de conforto desde os tempos de Clube da Luta (Fight Club, 1999) e Seven (Seven, 1995), sempre mostrando o fundo do poço a que o ser humano pode chegar em situações extremas. Vale destacar também as atuações de Rosamund Pike, que provavelmente chegará como forte candidata às premiações do próximo ano, e de Ben Affleck, que, apesar de não estar tão excepcional quanto a sua esposa da ficção, mostra uma das melhores atuações de sua carreira.

Além de todas as qualidades técnicas de Garota Exemplar, o filme ainda nos brinda com uma série de discussões sobre temas como o amor, o que somos em oposição ao que aparentamos ou queremos ser, as pequenas mentiras que contamos todos os dias para manter nossos relacionamentos vivos e as enormes mentiras contadas pelos meios de comunicação para manter a audiência e os leitores. Enfim, Garota Exemplar é um filme que pode gerar assunto para várias conversas e temas para ótimas reflexões, sendo um dos grandes lançamentos de 2014, e que merece ser visto e revisto.




quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Sobre comer barriga...

A única diferença entre um nada e um quase é a expectativa.

Uma pedra a menos não dá o direito de gritar "bingo!". A proximidade entre a trave e a rede não garante o gol. O sorriso da Miss Simpatia não bate a cintura fina da primeira vencedora do concurso. A intenção da piada não garante os risos. Quem quase compra, não leva para casa. Quem quase ama não vê o charme de voltar a ser ridículo. Quem quase vai chega tão longe quanto quem nunca desejou sair do lugar.

O quase é o consolo de quem arrisca, mas tem o mesmo gosto da derrota.

Medalha de prata para o primeiro perdedor.


*Texto de 2010 retirado do meu outro blog "Não enviadas". Pois minha vida está muito cheia de quases, inclusive a quase vontade de não escrever mais.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Um silêncio se fez ouvir



O silêncio no subterrâneo da pele é o silêncio da madrugada.
Das 2:30 às 3:15 da manhã nem os pássaros cantam.
E é tão surpreendente o não buzinar dos carros que me assusto e acordo.

Os meu  ouvidos acordam primeiro, imagino. Depois quem desperta é o meu coração, batendo de uma maneira desconfortável. Logo depois meus dois olhos abrem-se de uma só vez  e, como a luz do poste nunca dorme no escuro, sempre é possível ver sombras.

Acordo e observo. Meus olhos abertos pouco enxergam, mas ajudam a escutar.
Fico imóvel escutando e logo acorda a minha memória. 

Lembro onde estou e quem eu sou (mas só o suficiente para não ter que me preocupar com isso). Escuto e gosto de pensar que estão todos dormindo. Até os pássaros.

Ainda querendo me encontrar no mundo, vejo no relógio "2:47" e penso que não  há motivo para acordar.

Quando consigo me acostumar com o silêncio, meu coração volta a bater mais leve. Meus olhos se fecham sem esforço.Então, sem querer pensar nos meus afazeres do dia que começa, sem querer pensar em mais nada, durmo como uma pedra, como mais uma pedra.

domingo, 12 de outubro de 2014

O país das crianças

Algumas coisas revelam um país. Espero que o Facebook não seja uma delas.
Mantenho minha página ligada ao meu blog e evito comentários que possam colocar fogo na minha timeline. Tenho conseguido fazer isso muito bem, pelo menos durante um tempo.

Mas agora entramos no segundo turno das eleições presidenciais e meu barco virou por lá.  Fiz um comentário sobre os candidatos e de repente algumas pessoas começaram a discutir. O que não entendo é o teor das ofensas de ambas as partes, acho justo o debate e confronto de ideias, até porque é nosso voto o que vai decidir o próximo presidente, mas ofender os candidatos e quem vota neles me parece primário e infantil.

E vi que isso se repetiu em vários perfis, quem manteve seu Facebook cheio de ursos e algodão doce conseguiu ficar longe da baixaria virtual, mas quem se posicionou acabou levando uns tapas virtuais.

Tudo isso me leva a pensar que não somos ainda um país pronto para o debate, aberto a discussão, tudo fica polarizado e apoiado em argumentos pequenos e ofensivos. Não me parece o momento certo para discutir o caráter de quem vota, mas sim de quem está concorrendo a presidência.
A nossa posição política ainda é frágil e fechada a sugestões, o comportamento infantil que tantos insistem em manter atrasa o país.

E hoje o comércio recuperou um pouco o fôlego com a venda de brinquedos para o dia das crianças, reflexo puro de quem somos, esse país que ainda age e pensa como neném e na hora de votar corre atrás de um pai ou de uma mãe. Presidente é uma coisa que ainda não conhecemos, para chegar a isso primeiro temos que aprender a dialogar, até lá vamos ter que votar na mamãe ou no papai e defender eles das ofensas, como fazíamos na escola. De longe o Brasil parece um grande país, mas não passamos de uma creche lotada.

sábado, 11 de outubro de 2014

A Fábula

Amuou. De repente parou de cantar e eu, preocupado reservei 10 minutos do meu tempo para conversar com ele.

- O que há de errado meu pequeno tesouro? Andas tão amuado que amuas também meu coração. -

Dizer-te o que há, não irá livrar-me desta tristeza, mestre. Mas se abriste mão de teu precioso tempo para aqui estar, direi-lhe então. - suspirou e continuou - Lembra-se o pássaro amarelo que pousara em minha gaiola? Livre e solto? Feliz e cantador?

Antes que eu dissesse que me lembrava, quis esquecer, quis ter certeza que poderia não ter visto, mas apenas apertei meus olhos e respondi positivamente com a cabeça

- Pois bem, - disse me o pássaro - conversamos sobre essa tal de liberdade e ele me contou tantas coisas boas que se faz lá fora, que perdi a vontade de cantar aqui dentro.

Você, leitor, que deve estar certo de ter lido isso em algum lugar, provavelmente o fez, e não diferente do que leu, atendi de pronto, embora profundamente deprimido, a abertura dos portões da liberdade. 

- Vá, pequeno tesouro. Já vi incansáveis vezes essa história e não será eu quem irá mudá-la. Vá e seja livre. Seja você em seu mundo real. Eu já não posso mais...

- Cala-te, mestre! Não partirei.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sobre o ódio aos nordestinos

Sugestão: ler ouvindo Terral


Fiquei chocada ao ver as reações xenofóbicas contra o povo nordestino após a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições para presidente do Brasil, em que os Estados do Norte e Nordeste tiveram votação maciça na Dilma.

No tumblr essesnordestinos há um compilado de declarações preconceituosas que pessoas publicaram no twitter, facebook, etc. Ganharam destaque casos como de uma auditora fiscal, que será investigada pela ouvidoria do MTE por uma declaração em que dizia que o Nordeste merecia ser atingido por uma bomba atômica, e uma comunidade médica no facebook que prega o holocausto contra os nordestinos.

Essa onda de ódio e preconceito pode ser analisada à partir de três pontos importantes: o primeiro é o desenvolvimento desigual que ocorreu no país desde sua colonização, beneficiando algumas regiões às custas da exploração de outras. Esse processo muitas vezes é ignorado e assume-se como verdade que os pobres são pobres por não se esforçarem e o mito do meritocracia, que favorecem o preconceito de classes. 
O segundo é a preferência pelo governo do PT na Região Nordeste, que está relacionada com a questão acima, uma vez que o governo petista proporcionou um desenvolvimento econômico e social importante em benefício da região nos últimos doze anos. Nada mais compreensível do que optarem pela Dilma.  
E por último, há o preconceito racial, que também está relacionado com o preconceito contra os nordestinos, uma vez que grande parte da população que se declara preta e parda no Brasil é nordestina. Fato que pode ser explicado pelas políticas imigratórias do século XIX, que trouxeram europeus para os estados do Sul e Sudeste.

O que acontece é que a falta de respeito está atingindo um nível tão grande que as pessoas não se intimidam em fazer declarações deste tipo. Pelo contrário, recebem apoio de outras tão preconceituosas quanto elas. Publicações com este teor estão caracterizadas na Lei n.º 7.716/89, que trata do crime de discriminação ou preconceito de procedência nacional. Um exemplo de condenação à este tipo de crime ocorreu em 2012, quando Mayara Petruso foi condenada a 1 ano e 5 meses de prisão (pena que foi revertida à pagamento de multa e prestação de serviços comunitários) por postar mensagens preconceituosas contra nordestinos no Twitter na época das eleições de 2010.

Esse comportamento é inaceitável, pois incentiva o ódio, a intolerância e a violência, e deve ser recriminado e denunciado. É possível fazer uma denúncia formal no site do Ministério Público Federal no endereço: http://cidadao.mpf.mp.br/formularios/formularios/formulario-eletronico 


Eu, como paulista, me sinto envergonhada por essa onda de xenofobia que vem ocorrendo, e, como neta de nordestinos, me sinto no dever de mostrar aqui toda minha indignação contra esse tipo de atitude, que retrata uma sociedade reacionária e competitiva, que encara ideais igualitários como uma afronta aos seus objetivos capitalistas mesquinhos. São os famosos "coxinhas", que não votam na Dilma porque não querem ir ao supermercado e não ter opção de iogurte pra comprar, e os integrantes da "direita pão com ovo", que defendem um sistema em que eles mesmos são injustiçados, imaginando enganosamente que um dia farão parte da elite econômicaLamentável. 


Em tempo: há movimentos nas redes sociais contra o preconceito sofrido pelos nordestinos. Procure pela hashtag #menosÓdiomaisNordeste 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

* O real *

Quando a insônia invade a madrugada de um menino de 5 anos, não há contra-indicações, necessidades terapêuticas, intervenções psiquiátricas, tampouco a obrigatoriedade de obedecer um tempo que, dizem, são ponteiros que escrevem incessantemente numa linha que nasceu e não pode mais morrer.

Não, não são sinais de desvios, nem de genialidade. Apenas simples realidade que são a mais pura Verdade. Adultos lutam contra a falta de sono, calam a voz de sua própria vontade de estarem despertos, olhando a janela semiaberta que permite desenhos na parede. Estes se irritam, tomam qualquer remédio para forçar a ilusão. Piedade à essa gente grande.

 O menino, esperto, sabe da luz engraçada. Deixa-a adentrar, brincalhona, quarto adentro. As cortinas balançam, um vento sussurra num vão esquecido assim. Os olhos cansados, pela manhã que logo vai retornar, vibram de alegria quando, no alto (lugar sem graça, quando os adultos acendem a lâmpada) do guarda-roupa escuro, um crocodilo faz um movimento de botar medo em muita gente, mesmo que ele não vá saltar da caixa, onde foi desenhado. A penumbra revela coisa aqui, acolá; uma amiga aranha parece tecer sua casinha, que cresce abrupta. A magia perdura instantes, mas há tempo, até que a gente grande apareça mais abruptos ainda, para desaparecerem com a dona aranha, sua branca e enovelada casa, talvez com quartos que nem mais se contam, tantos, tantos... e a cozinha como aquelas do sítio dos avós. 

Coelhos de três orelhas viram patos, basta saber mexer com as duas mãos e alguns dedos ágeis. Cachorrinho poderia ter até rabinho feliz, mas disseram que era difícil demais, então, ele só latia contente, e falava, como nas histórias. 

O menino, respeitando o silêncio que pertencia aos seus amigos da madrugada, sequer emitia uma palavrinha, porque sabia a linguagem dos seres em seu quarto. Silêncio, era, aliás, ordem maior. Sabia que, com o despertar da cidade, lá, depois da janela, ali mesmo, na rua, pessoas loucas voltariam sempre, barulhentas, pisando passadas nervosas, falando, sim, falando sozinhas, maldizendo o próprio existir, ou o dia que mal começava. Carros competindo corridas alucinadas, com pilotos ruins, lentos, ruins em suas profissões ao volante. Motos barulhentas como monstros, cruzando espaços pequeninos e letais.

A sorte é que as madrugadas insones sempre reapareciam! Momento da brincadeira  com os animais-sombra, o assustador crocodilo da caixa de papelão, a dona aranha e sua suntuosa casa que só crescia, com quartos infinitos, talvez iguais aos do menino, com a cozinha igual ao dos avós. A sorte, era mesmo dele. Talvez outros pequenos também tivessem suas horas de silencioso bolinar de coisas. Talvez até gentes grandes tivessem essa sortuda insônia, quem sabe?  

domingo, 5 de outubro de 2014

sábado, 4 de outubro de 2014

#100[complete com alguma coisa]days: Meus #100WitchesDays


Eu acabo de terminar um dos maiores desafios facebookísticos da minha vida virtual, e vice-versa. Eu acompanho algumas séries de amigos, vejo seus estudos, suas fotos, acho graça, compartilho, tenho horror a correntes e a coisas que do tipo "quantas curtidas essa princesa merece?". E estava acompanhando os #100alguma-coisa, sem me interessar por nada. 
Preguiça de ficar postando algo cem dias seguidos.

Mas, quando a Debora Ceccaci, uma feiticeira de respeito, posta no Solstício de Inverno a primeira imagem dos seus #100WitchesDays, eu decidi que eu também iria fazer. 
Acho que, mesmo que naquele momento eu não soubesse, eu precisava. 
Fui entendendo isso à medida em que escrevia.
Uma frase por dia. Uma vivência por dia. Não pensar muito, só escrever, a partir de um conceito, como a Arte dos Sábios, a Tradição, a Feitiçaria responderia àquilo.
Sinceramente? Nunca pensei que fosse dar conta, que não fosse enjoar no meio do caminho, achar algo melhor para fazer. Porém, dia após dia, era como se algo brilhasse mais no correr das horas para virar frase. Era como se as práticas diárias/semanais/mensais tivessem novo sentido, e esse sentido tivesse de ser compartilhado, de uma forma tal que o Mistério se mantivesse nas Sombras do Livro mas tocando a todos, com a leveza de uma melodia. Só pode ser reproduzida por quem conhece, pode ser ouvida por qualquer um, não será marcante para todos.
E agora que terminou, fico pensando no que virá em seguida, mas ainda sob influência do que acabou de passar. O quanto deixamos passar os momentos importantes e cheios de significado por não estarmos atentos a eles, pensando no passado, projetando um futuro. Mais de um, a maior parte das vezes.

Eu me descobri mais feiticeiro que acreditava ser. Como adjetivo e como coletivo. Me achei em outros, me achei em meandros, me reencontrei depois de um bom tempo passeando lá fora. E brinquei de pique-esconde, me perdendo de mim e me reencontrando na lição seguinte.
E meu convite, com esse texto é que, você, leitor, que tem exatos noventa dias até o ano novo, faça suas escolhas, dia após dia, até trinta e um de dezembro, consciente e consequentemente. Celebre o divino dever de ser protagonista da sua vida. E compartilhe conosco, comigo, aqui no blog. Talvez, apenas por hábito, você comece a enxergar-se mais pleno e enxergar cores do mundo que são tão diáfanas que passam batidas quando estamos desatentos. Vamos ver o quão melhores conseguiremos ser, a partir desse desafio tão displicente, tão despretensioso, à primeira vista. Escolha tua trilha sonora, teus filmes, tuas comidas, tuas roupas, envergue seu melhor sotaque e aproveite o seu espetáculo.

Passo a passo, e chegamos aonde sonhávamos ser impossível. Meta a meta, angariamos o nosso tesouro pessoal e tornamo-nos os melhores dentro do nosso universo de atuação.

Eu te desafio. São só noventa dias.

Vem comigo.


Não poderia, de qualquer forma, deixar de dizer algo sobre o santo do dia. Um santo tão, mas tão ecumênico que até pagãos tem afeto por ele. Um santo cuja mensagem já foi reinterpretada de tantas formas - com iconografias tão variadas quanto - que se adapta à fé de qualquer pessoa de boa vontade e empatia. Um louco, um mendigo, um xamã, um feiticeiro, um homem apaixonado, a vivência de Ágape feita carne, a paixão que [i]macula a carne com estigmas.
Salve, São Francisco. Salve-nos da ignorância das Vozes que ecoam ao nosso redor.
E que, como tu, possamos um dia chamar a criação de irmã. 

Um dia por vez. E chegaremos em algum lugar, sem pretensão alguma.

Mas chegaremos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O cantor belga que conquistou o mundo

Outro dia acabei descobrindo sem querer um compositor e cantor belga que chamou minha atenção por fazer música pop americana cantada em francês e ter cerca de 190 milhões de views no YouTube num único vídeo. Não obstante as influências de música francesa, rumba e música africana, o som dele é essencialmente pop dance, ou seja, ele está no mesmo estilo de Lady Gaga, Katy Perry, David Guetta, Avicii, Rihanna e Miley Cyrus. É com essa galera que ele divide prateleiras numa loja de discos. Ok, ele tem uma pegada forte de rap, então pode adicionar aí um Eminem, Iggy Azalea, 50 Cent, Nicki Minaj e sei lá o mais o que. Tudo isso pra dizer que o cara canta em FRANCÊS num universo totalmente cantado em inglês. E ao contrário da maioria dos artistas citados nesse texto, ele tem estilo próprio e sabe cantar de verdade. Destaque para as músicas "Papaoutai", "Tous les mêmes" e "Formidable". Se você não conhece esse cara, vale muito a pena ouvir. Já me tornei fã.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

perfume

infelizmente não disponho de tolerância suficiente para simplesmente ignorar comentários ignorantes e bestiais. confesso tenho problemas sérios com isso e para não perder o costume e personalidade porque faz parte ter uma resposta tão idiota quanto ou pouco menos ignorante aceito algumas provocações e até me permito o luxo e riqueza de rir alto com alguns comentários.


sempre gostei de perfumes, tenho uma relação íntima para não dizer quase louca com cheiros sejam dos mais estranhos e esquisitos; por exemplo cheiro de mato queimado, de banho, de chuva em terra seca, de folhas e flores molhadas com garoa, de tijolinho à vista em casa nova ou velha com chuvas torrenciais, de casa limpa ou até suja desde que seja a minha, de shampoo no cabelo seco, de esmalte, de acetona, de tintas, de gelo seco, de brisa, de mar, de cachoeiras e quedas dágua em pedras, cheiros de quase tudo me causa sensações de alquimia pura.


talvez tenha o olfato apurado ou não talvez apenas goste de apreciar os cheiros. quanto se trata de perfume isso remete diretamente para minha mãe pois não existe mulher mais cheirosa no mundo pode ter a certeza; com ela aprendi a escolher os perfumes a saber qual tem 100% de entrada e saída, qual fica melhor na pele e quais lugares devem receber várias borrifadas.


aprecio sem moderação perfumes e se pudesse teria vários com ou sem marca um para acordar outro para dormir, gosto tanto de um certo cheirinho para dormir, aninhar num peito e ficar, sentir aquele cheiro de banho no pescoço, tão bom e gostoso.


se me perfumo leio e se leio viajo. desta vez fui para áfrica e a viagem iniciou já no pegar o livro e ao sentir o cheiro. sabe cheiro de papel velho, gasto, onde traças passearam e deixaram aquele amarelado do tempo, um cheiro de ideologia do passado de esperanças passadas. 


em mayombe é quase impossível imaginar cheiros que não sejam das árvores, folhas e flores, rios e terra. como também é inconcebível imaginar homens de guerrilha com empenho total em tomadas de terras e tribos e na realização da revolução preocupados com os cheiros do sovaco a ponto de parar o conflito e pedir licença para descarregar uma borrifada de desodorante x ou z ou pingar uma gota da essência francesa. 

então imagine o operariado na metade do conflito na comuna ou o che ou hugo chavez em reunião de acusações da onu pedindo pausa para fazer o ato de se perfumar para guerra e quem sabe vencer o inimigo pelo cheiro. pior do que isso é imaginar que neste século comentários se prestam ao desfavor do conhecimento ao tentar desconstruir uma ideologia que se pauta na equidade e justiça social embora contenha todos erros históricos ainda que menores ao que está posto hoje.


em tempos eleitorais a distorção de fatos e propostas ganham proporções assustadoras em simples comentários, entrevistas e debates; chega a ser ridículo para não dizer absurdo, cansa e estarrece. e para jamais estagnar o conhecimento, a curiosidade e a esperança sigo as letras do querido pepetela com o cheiro de mayombe.


(...) quando alguém afirma que tem de acreditar no desinteresse de alguns homens, porque isso corresponde a ideia que ele tem de humanidade, mesmo que os fatos mostrem o contrário, então que é isso? tem-se uma ideia preconcebida do gênero humano, uma ideia otimista. por isso, recusa-se toda realidade que contrarie essa ideia. é o esquematismo da política. é um aspecto religioso, uma concepção religiosa da política. infelizmente é a maneira de pensar de muitos revolucionários. 

- mas, camarada comandante não achas que há camaradas que estudam desinteressadamente? 

- crês que haja alguma coisa que se faça desinteressadamente da vida?

lutamos pensou que encontrava apoio do comandante. sentiu coragem para proferir. 

- é por isso que não estou de acordo com o comissário que nos obriga a ir à escola. (...)


as pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. o homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. se não percebes as palavras que eu pronuncio, como pode saber se estou a falar bem ou não? terás de perguntar a outro. dependes sempre de outro, não és livre. por isso toda gente deve estudar, objetivo principal duma verdadeira revolução é fazer toda gente estudar. (pepetela, 1982:78-79)

domingo, 28 de setembro de 2014

Culpabilização e a Falácia do Mundo Justo

Escrever um texto, mesmo que superficial, sobre alguns dos temas em pauta nos discursos feministas, como a culpabilização da vítima, não é exatamente uma tarefa simples. Primeiro porque sinto que me falta embasamento suficiente (e, creio que sempre irá faltar), então acredito que o texto ficaria incompleto. Segundo, porque, de certa forma, enquanto branca, hétero e de classe média, pertenço a um grupo primordialmente opressor, e não passarei pelas mesmas situações que uma mulher negra ou alguém trans*. Racismo e transfobia são potencializados, quando associados à misoginia, e a luta deles é ainda mais difícil que a minha.

Entretanto, ainda sou mulher, ainda estou inserida numa sociedade que prima por um discurso machista e onde ter comportamento feminino é algo ruim. E acredito que começar a falar sobre isto abertamente é um primeiro passo.

Fomos criadas e condicionadas a uma cultura de medo revestida de “boa educação”, uma lógica de negação das coisas básicas, de "garotas não devem jogar futebol" a evitar usar uma roupa curta num dia quente, para não sofrer assédio – e ainda assim, o pior acontece: mesmo quando você toma as.... “medidas preventivas”... e sofre o assédio, há a acusação: sua roupa, seu comportamento, sua vida sexual... justificando a violência, a responsabilidade recai sobre a vítima, não no agressor. A brutalidade é minimizada a qualquer custo.

Creio que o pior disso é que, não basta você se sentir podre por ter passado por aquela situação, sofrer a tensão diariamente, ainda vem algum idiota e te culpa e, se você não tiver a cabeça no lugar, começa realmente a achar que o problema é com você. Isto é a chamada falácia do mundo justo, a crença de que sistema em que vivemos é justo e cada um tem exatamente o que merece. Como uma punição universal, só que adaptada para valores individuais.

Mas, acredite, o problema não é você.

The Victim, by KkFranca: http://kkfranca.deviantart.com/art/The-Victim-408071661

Este mês foi julgado o último envolvido no caso de estupro coletivo das mulheres de Queimadas, crime ocorrido em fevereiro de 2012, as famílias das vítimas ainda sofrem agressões por parte da população – as garotas mereciam, ora porque eram prostitutas, ora porque se faziam de difíceis.

Em outubro de 2013, em Goiânia, Fran teve vídeos íntimos vazados na internet pelo ex-namorado, e foi publicamente hostilizada por ter feito sexo e ter permitido que ele gravasse. No mesmo ano, outras garotas que sofreram com situação semelhante, optaram pelo suicídio.

Em março de 2013, Simone Lima, uma professora, foi esfaqueada por um estudante, Thomas Hiroshi Haraguti, de 34 anos; ele foi condenado a 16 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado – o advogado de defesa pretende recorrer da decisão, alegando Síndrome de Misoginia Involuntária.

Em fevereiro de 2011, na zona rural de Pindorama, um fazendeiro foi pego em flagrante com duas adolescentes, uma de treze e outra de quatorze anos, ao ser detido, alegou que havia pago pelo sexo – foi detido, acusado de favorecimento à prostituição e estupro de vulnerável, foi absolvido há dois meses atrás.

São alguns casos famosos, mas a história se repete em vários lugares e de maneiras absurdas, às vezes entre quatro paredes, às vezes a céu aberto. Existem mulheres que conseguem se erguer e dizer basta, existem outras que ajudam e as que são ajudadas, e, infelizmente, aquelas que são silenciadas.

A mulher que morre no aborto clandestino (uma a cada dois dias), a que apanhou do namorado lutador (e o título da matéria estampa que ele levou “arranhões em briga com a namorada”), a garota que sofreu abuso por não ter usado o vagão rosa, a mulher trans* que foi retirada do vagão rosa e foi destratada pelos seguranças do metrô, a mulher que deixa de conseguir emprego porque está grávida... Infinitos casos escondidos e nenhuma destas pessoas é menos importante, só porque teve menor visibilidade. São vítimas de uma sociedade doente.


Já sofri abuso sexual.

Já fui assediada ao andar na rua.

Já mudei de roupa antes de sair de casa.

Já me culparam por ter sido assediada.

Fizeram brincadeiras sobre o abuso.

Já desisti de sair, por não querer correr o risco de passar por alguma situação desconfortável.

Não garanto que tudo isto vá se repetir amanhã, mas, certamente, vai se repetir. É um fato.

É justamente por isto que é preciso falar. Cada vez mais. Cada vez mais alto.

Ser conivente não é uma opção.

sábado, 27 de setembro de 2014

Brasil, o país em que nada dá certo?

"Ouvi dizer que no Brasil todo mundo é feliz"

Desprezar a história é produzir verdades com a experiência limitada de vida de qualquer pessoa. Em tempos de eleição, a política ganha espaço no cotidiano. Mudam alguns atores, esse ou aquele candidato, mas me parece que uma coisa permanece: a baixa autoestima dos brasileiros.

É comum ouvirmos por aí “o Brasil é um lixo”, “aqui nesse país nada dá certo”, falas que carregam aquela ideia de que o problema está no outro, de que quem fala não é responsável também, não é sujeito, mas vítima, objeto. A síntese genial é “você não está no trânsito; você é o trânsito”.

Há pouco mais de um mês terminou um festival que gosto bastante, o “Anima Mundi”. Trata-se de uma importunidade rara de ser apreciar toda sorte de técnicas de animação, curtas e longas metragens, de toda parte do mundo. No último dia do festival, há a premiação dos melhores filmes, em diversas categorias. Durante o anúncio de um dos ganhadores, pude ouvir “ah... é brasileiro? Deve ser uma merda!” 

Durante a última Bienal do Livro o consagrado fotógrafo mineiro, Sebastião Salgado, foi convidado para um bate-papo com o público. Em dado momento, ele chamou a atenção para o fato de que, em geral, nós brasileiros tentamos esconder nosso passado indígena. Ele até brincou dizendo que em São Paulo todo mundo era descendente de italiano! Somado a esse exemplo, basta observar a tentativa do Brasil de querer diferenciar-se do restante da América Latina, como se não compartilhássemos nada. “A Bolívia é indígena, nós não”, só pra ficar entre vizinhos.

Com o livro “O povo brasileiro”, temos uma ótima oportunidade de ser menos ignorantes com relação ao nosso passado. Nele, Darcy Ribeiro discute a criação da colônia, desde a invasão (e não descobrimento) dos portugueses até o século XX. Não podemos nos esquecer de que quando os portugueses invadiram, não trouxeram consigo as portuguesas; logo, as índias foram as mães dos chamados brasilíndios. Interessante notar é que esse sujeito ficou perdido, sem identidade. Por um lado, ele era desprezado pelo pai, que não o reconhecia como europeu, branco; por outro, desprezava a mãe indígena, considerando sua cultura subalterna. A introdução da cultura negra é igualmente considerada menor, sob essa perspectiva.

Séculos se passaram desde então. Muitas mudanças, mas essa percepção de hierarquia, ao que parece, permanece intacta. É claro que não podemos nos esquecer de que com o fim da Segunda Guerra, a cultura produzida nos EUA foi elevada ao mesmo patamar da cultura europeia (talvez num status até maior) e continua a ideia “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Qual é? Não se trata de nacionalismo irracional, mas já está mais do que na hora de melhorarmos a nossa autoestima!

Eu não acredito em nacionalismo porque é fácil cair no fanatismo e se esquecer da solidariedade entre os povos, já que o resto do mundo não presta, entre muitas outras coisas, mas é importante desenvolver um olhar mais generoso para conosco. É óbvio que temos um montão de problemas, que tem gente corrupta, oportunistas de toda ordem, injustiças, violências, mas isso não significa que seja próprio do nosso DNA. Quanto mais nos livrarmos da ideia de que as coisas sociais são naturais, melhor. Nascemos assim ou fomos levados a agir desta ou daquela forma?

Particularmente acho triste esse ódio ao Brasil quando ele vem da boca de jovens. Muitos deles sequer cruzaram a fronteira. As notícias que chegam do estrangeiro são da internet, filmes, séries televisivas, boatos e etc. Para alguns, pode ser chocante imaginar que nos EUA há pobres ou que só se tem atendimento médico quem tem um seguro saúde (algo como nossos convênios particulares). Veja, não estamos falando em atendimento de má qualidade, não existe atendimento médico para quem não pode pagar, simples assim. Vale a pena lembrar que muitos brasileiros contribuem para o desenvolvimento da ciência e das artes no exterior, por exemplo, mas o que se sobressai é o país que financia.

Acredito que enquanto seres humanos podemos  –e devemos!- nos inspirar nas boas ações de outros povos, buscando viver num país melhor. A troca é saudável, inteligente. Minha avó dizia que só não tem solução para a morte. E quais alternativas estão sendo pensadas por você? Não dá para ter resultados diferentes com as mesmas ações.  


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Carta a Alguém

Os diálogos que tive contigo desde que decidir virar as costas e ir embora, foram inúmeros. Ainda rio de algum comentário sarcástico que você faria, do jeito empolgado que cantaria músicas antigas ou a utilização do pretérito perfeito em qualquer frase.
Demorei a entender que a verdade estava escancarada enquanto o irracional acobertava. Era nítido que o encontro de nossos caminhos seria breve e é por este motivo que escrevo a carta de despedida à você,  Alguém.
Sou muito grata por ter me tirado do lixo que me escondi com o meu último pseudo relacionamento, proporcionando o que tinha esquecido: a reciprocidade de afeto, mesmo que por um curto período. Nossas afinidades imediatas carregaram as baterias de possibilidade da paixão. A paixão veio e com ela, seu tempo limitado. Como a maioria dos encontros na vida adulta, há sempre três na relação a dois. Seja um fantasma, um amor mal resolvido, uma porta aberta. Não foi diferente contigo que entre duas pessoas, acabou arrastando uma terceira pessoa: eu.
Na falta do amor próprio e com as migalhas alimentando as poucas borboletas que ocupavam o estômago, segui esta dieta por um ano. As borboletas acostumaram e não havia fome ou gula, apesar de vez ou outra, o estômago embrulhar pedindo novos alimentos, como no dia que eu vi vocês dois atravessando a rua sem querer,  ou passando por mim na tarde que deveria ser apenas minha. Antes, enxergava como coincidência e hoje, percebo o quanto fui teimosa em não olhar os sinais que o universo me enviou sobre a brevidade da sua vida na minha.
Fui tão culpada quanto você neste relacionamento velado. Era cômodo para ambos, compartilhávamos nossas angústias, desejos, ríamos de besteiras no período de segunda a sexta. Não tinha cobranças e por qual motivo, teria de existir algum se não tínhamos nada? A parte boa, você guardava para ela. Os beijos, o sexo e os carinhos trocados. Os problemas e o ombro, poderiam esperar até segunda, quando eu estava de volta à sua rotina.
Adorava não precisar arriscar nada além de algumas noites com qualquer outro homem. Tinha você e eles supriam algumas carências físicas. Nas comparações, você sempre ganhava. A zona de conforto era meu espaço conquistado. Vez ou outra, recordava de como por um triz, quase fui a escolhida. Diversos dias, revirei na minha mente o que foi que eu fiz de errado para ser a segunda e não, a primeira.
Mas, como todo relacionamento a três, depois de muito treinar e ensaiar, percebi que poderia escolher e deixar de ser a escolhida. Um dia, a gente cansa da segunda opção e percebe que isto e nada são a mesma coisa no ponto de partida, do nada a qualquer lugar que ainda não conhecemos. Foi assim que virei as costas e fui embora sem ao menos te dizer tchau, Alguém.
Doeu você não vir atrás, dizer que sentia minha falta e que gostaria de me ter de volta. Tempos depois, senti alívio por isto não ter acontecido. Diante das minhas fraquezas, era capaz de puxar a cadeira na zona confortável e continuar assistindo ao teu relacionamento, me sentindo um lixo por não ter o meu contigo ou com outro alguém. Os meses passaram e o tempo ajudou a amenizar a saudade e abastecer a confiança de tentar novamente. Ainda não encontrei o que procuro, mas mantenho firme que olhar para trás não é opção.
Espero que você esteja feliz, Alguém. De maneira ingênua, acho que não fez por mal. Que talvez tenha se embolado tanto quanto eu dentro deste novelo. Do lado de cá, quase caí em outra armadilha parecida com a tua. Obrigada por me ensinar que este não é o caminho.
Hoje, minha fome não se contenta com migalhas e as borboletas, esperam mais.
Um beijo,
Ninguém.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Férias!

Passei uma semana em Gramado/RS e o que mais me chamou a atenção na cidade foi o chocolate a falta de semáforos. 
O pedestre coloca o pé na rua e o carro para. Simples assim. 
Acho que nem se passasse um ano lá me acostumaria. 
Nas primeiras vezes não acreditei. Achei que fosse pegadinha do Mallandro. Comecei a reparar nos outros pedestres e todos faziam o mesmo: atravessavam a rua. E os carros paravam. Incrível!
Tive vontade de abraçar os motoristas. Foi emocionante. E no meu país!
Não sei se foi isso ou a overdose de chocolate, mas restaurei minha fé na humanidade..


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

40 pequenos prazeres da vida

Felicidade se acha é em horinhas de descuido...
(Guimarães Rosa)

01. Cheirar página de livro novo.
02. Arrancar casquinha de ferida.
03. Estalar os dedos, um por um, enquanto se ouve aquele barulhinho.
04. Fazer bolas de sabão bem sucedidas.
05. Estourar plástico bolha.
06. Comer a cabeça de uma Tortuguita.
07. Raspar com uma moeda uma raspadinha.
08. Colar figurinhas num álbum.
09. Encontrar uma peça difícil num quebra-cabeças.
10. Soprar no canudinho e ver a água borbulhar no copo.
11. Acertar uma bolinha de papel em cheio no alvo.
12. Bocejar.
14. Surpreender alguém falando bem de você pelas costas.
15. Conseguir lembrar o nome de todos os 7 anões.
16. Descobrir que alguém gosta da mesma coisa estranha que você.
17. Receber o primeiro jato de água de um banho quente.
18. Arrotar depois de beber refrigerante.
19. Descobrir catupiri no meio da coxinha que você achava que era só de frango.
20. Completar uma página de cruzadinhas.
21. Fazer um trocadilho perfeito.
22. Achar dinheiro na rua.
23. Brincar com a vela quando falta luz.
24. Conseguir puxar uma salva de palmas.
25. Encontrar uma casinha de João de Barro.
26. Pisar descalço na areia.
27. Apertar massa de pão.
28. Ganhar alguma coisa num sorteio (qualquer coisa).
29. Cantar no chuveiro.
30. Encontrar lugar vazio no ônibus (ou isso deveria estar na lista dos "grandes prazeres"?).
31. Fazer bigode em fotos de revista.
32. Cantar "Faroeste Caboclo" inteira e sem errar (e aumentando a voz no "tem baguio bom aí").
33. Abrir presente.
34. Descer pela frente no busão porque o cobrador estava sem troco.
35. Dar-se conta de que é sábado e que o despertador está tocando por engano.
36. Fazer um strike.
37. Dormir com barulho de chuva.
38. Conseguir acertar qual vai ser o final de um filme.
39. Atirar pedra na água.
40. Ler listas alheias.

E você? Com quais itens desta lista você se identifica? Qual a sua lista de "pequenos prazeres da vida"? Compartilhe-a conosco nos comentários!

domingo, 21 de setembro de 2014

A loirinha do ponto

Àquela hora da tarde, o sol já estava estalando no céu.

Graças às pessoas que iam embora no coletivo, todas ao mesmo tempo, era corriqueiro o fato de ele ter de ir a pé.

Mas eis que uma visão do céu o animou!
Uma linda loira estava parada no ponto central.
Ela não ia tomar o ônibus no qual ele estava, mas o fato de poder ver tal anjo o animou e tirou dele um sorriso!

Seus pensamentos foram longe!
Já imaginou a jovem moça dentro de um vestido de noiva!
Quem sabe o destino não faria algo no mínimo sobrenatural para que se conhecessem uma hora dessas! 


Pedia à Deus que tivesse a oportunidade de poder saber qual seria a linha que ela utilizaria.
Geralmente, no ponto onde se encontrava, as pessoas tinham a tendência de serem mais lerdas mesmo. Quando o coletivo parava ali... Podia esperar que ia demorar uma eternidade para dali sair.

Mas naquele dia ele não se importava nem um pouco.
De repente, surge no horizonte o ônibus pelo qual a moça estava aguardando.

"Aaaaah, então ela é de lá!" - pensou, quase que em voz alta.

Fitava aqueles fios loiros esvoaçantes do cabelo da princesa que ensaiava adentrar ao veículo, quando nota que ela faz uma cara de espanto, e tira do seu delicado bolso um iPhone 5S branquinho como algodão.

O semblante da jovem moçoila então se transforma. 
Exibe um belo sorriso, desiste de entrar no ônibus, e volta para a proteção contra o sol, do ponto onde estava.

Olhava ao longe, como quem procura alguém.

E foi assim que ele começou a aceitar que aquela talvez não seria um dia a mãe de seus filhos. Não seria ela a menina que se apaixonaria pelo seu lado romântico. Nem seria com ela o jantar de aniversário de três anos juntos, numa bela união, dali a três anos.

Sentiu então um forte chute no seu calcanhar.
A dor foi intensa. Quem causou aquilo estava munido de uma bota com bico de aço ou titânio, não saberia dizer.

O "agressor" pediu desculpas, e ele, com aquela cara de sofrimento, gemeu um "não tem problema" e decidiu voltar-se para a cena que há pouco tomava toda a sua atenção.

Mas espera aí... Cadê a moça?

O ônibus que ela quase utilizou há muito saíra dali. 
No ponto, ela não estava.
"Será que ela entrou nesse?" - Devaneou ele, num súbito lampejo de esperança!

Mas que nada.

Viu, um pouco mais atrás, que ela estava envolta nos braços de um moleque que faria jus à promoção "Colírios" da Capricho.

Mais uma que não seria dele.
Mais uma que alimentou seus sonhos, em aproximadamente cinco minutos de pessoas vagarosas adentrando o busão no qual estava.

O namoro, o noivado, o casamento, os filhos e os netos teriam de esperar um pouco mais.
Não seria a loirinha do ponto sua namorada, sua noiva, sua esposa.

Não quis continuar olhando para o jovem casal que desfrutava de um bonito momento de afeto, abaixo daquela palmeira, que ficava pertinho da Igreja Matriz.

Nem teve muita chance mesmo.
O coletivo arrancou, e ele deu sequência para mais uma tarde de descanso.
Ainda solteiro.
E pensando, quem sabe, numa possibilidade de num desses ônibus da vida, encontrar alguém que topasse viajar com ele.
Rumo ao desconhecido que a vida é.