sexta-feira, 29 de março de 2019

as cortinas de ferro

Usar esse termo "cortina de ferro" é fazer uso da ironia a quem se referia a antiga União Soviética no combate ao suposto comunismo que não existiu mas fracassou e uma rememoração mais precisa sobre a queda do Muro de Berlim.

Rememorar é manter a história viva e constatar o quanto aqueles que foram e são contrários ao capitalismo instituído e legitimado até hoje nesta sociedade são por completo desdenhados.

Mais irônico é falar da cortina de ferro e da queda dos muros no passado e constatar de que nesta época comemorou-se a derrocada dos muros em Berlim e queda do bloco Soviético sob argumento de suposta liberdade, economia globalizada e sociedade de-mo-crá-ti-ca,  e hoje em pleno século 21 termos milhares de dólares liberados para a construção de muros entre as divisas dos EUA e México em plena de-mo-cra-cia.

Tão semelhante e mais atual é aquele “por que não te calas” proferido por uma autoridade parlamentar ao presidente na época Hugo Chaves da Venezuela ao rebater pessoalmente em debate acirrado as investidas contra seu país, hoje atualmente governado por Nicolas Maduro.

Já me questionei algumas vezes porque ainda não ocorreu uma investida militar estadunidense na Venezuela, uma vez que estão sobre essa constante e responder sobre é remeter-se as declarações do “estamos em guerra” durante alguns governos.

Obama quando optou pela guerra na Síria decidiu também por enfrentar as reações da população americana e demais países contrários ao confronto armamentista e militar. Declarar guerra a outro país significa enfrentar uma enxurrada de manifestações pelas redes sociais e atos pelas ruas, além da histeria na bolsa de valores e nos investimentos econômicos.

A população compreendeu de que a vantagem no confronto armamentista e militar é para os acionistas das empresas bélicas que prestam serviço para países com poder de compra e que estão propensos a massacrar o rival sejam soldados ou quem aceite enfrenta-los e na grande maioria a população que acaba por sofrer os danos das decisões alheias.

Neste meio encontra-se a reação das pessoas que são contrárias as guerras mesmo imersas a uma série de contradições do capital entre desempregos, baixo rendimento econômico, aumento da pobreza também em países desenvolvidos, aquecimento global, risco em produção alimentar, necessidade dos ricos de reinventar o processo de acumulação dos meios de produção e Fake News.

Percebe-se que as notícias Fakes colaboram tanto para implantação de “guerras frias” tomarem de assalto democracias uma vez que declarar guerra armamentista é intensamente repudiado pela população como de paralisar articulações em massa.

As notícias Fakes são prejudiciais em todos os aspectos porque minimizam e/ou atrasam a atenção ao que deveria ser prioridade, perde-se muito tempo para constatar a informação noutros veículos de comunicação.

Na Venezuela demorou-se semanas para identificar de que a oposição ao governo ateou fogo na “ajuda humanitária”. Mais recente li nota de que ocorreu protestos em massa nos EUA pelo desarmamento da população. Num desatino de ler outra matéria perdi de ler a matéria e em buscas não encontrei mais a informação.

Desarmar a população e/ou questionar o poder bélico e militarista é audacioso, mas também perigoso, uma vez que pretender alterá-las remete em mexer nas estruturas essenciais do estado que reverbera diretamente na organização de sociedade.

O Brasil caminha na direção contrária, enquanto noutros países o poder militar e bélico está sendo questionado, vivemos dias em que provavelmente todo e qualquer cidadão que queira poderá andar armado e/ou ter uma arma dentro de casa.

É importante notar a perspectiva sobre a terceirização da segurança ao cidadão comum colocando-o sujeito a mais riscos, e também ao processo de intensificação militar do qual temos de uns anos para cá, servindo o RJ como laboratório.

Neste domingo registra-se os 21 anos de ditadura civil militar, período em que os militares assumiram o poder institucional e político no país do qual ocorreu censuras, desaparecimentos forçados, torturas, assassinatos, exílios e intensificação do poder bélico/armamentista coincidente vindos da indústria bélica americana.

1964 é uma data para ser esquecida? Jamais. Então para ser comemorada? Nunca.
Trata-se apenas de uma data que deve ser lembrada para nunca mais ocorrer, principalmente por quê milhares de pessoas foram assassinados e simplesmente morreram por acreditar em algo contrário ao que foi instituído – militarismo – e ser lembrada por servir de depósito de rejeitos econômico e militar ao comprar os armamentos e produção bélica estadunidense das quais não lhes servia durante 21 anos.  Que rasguem-se as cortinas da censura, opressão e medo. Mas também da hipocrisia, da ironia e do sarcasmo pois nunca foi tão necessário.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Não adianta

Não adianta a cara sem pelo
o tênis colorido
a camisa estampada
Não adianta a bermuda de sempre.

De nada valem as piadas que faço 
os rocks que cantarolo
as redes sociais as quais me associo
De nada valem as opiniões progressistas que defendo

Não adiantam as gírias que cuido evitar
os lugares que busco frequentar
a comida gordurosa que como
Ou mesmo a companhia que escolho ter comigo.

Não adianta
Não tem mais volta
Não sei porquê
Mas não adianta
Porque a grande moda agora

Na padaria
Na confeitaria
No açougue
Na bilheteria
Na danceteria
Na internet
No cemitério
Na academia

É me chamarem de SENHOR!




quinta-feira, 21 de março de 2019

Um novo podcast!

Olá turma do blog das 30 pessoas!

Estava eu subindo meu podcast pro ar, quando resolvi passar aqui e já deixar meu salve desse dia 21, pois me conheço: se deixar para amanhã de manhã, acabo não tendo tempo e lá vai mais um mês sem post.

Hoje, trago o meu mais novo "filho": O Fim de Noite! Que já existia, mas em outro formato.
Agora, está um pouquinho mais de "podcast" mesmo.

Clique aqui para ouvir o episódio desta quinta!
Espero que curtam!
Abraço, e obrigado pelo carinho de sempre!
A gente se fala! 


quarta-feira, 20 de março de 2019

De Suzano a Christchurch

Jota passou a acordar com mais facilidade depois da cafeteira. Tinha um botão mágico e com um simples toque dava para ouvir o café moído, as batidas para compactar o pó e em poucos segundos a felicidade escorria para o copo.

O café era tão sem açúcar quanto a vida. Sentava diante do computador e começava a navegar pelos sites de notícia, ávido pelas tragédias do dia. A qualidade variava, mas a quantidade de notícias era grande.

A economia prendia pouco a atenção. Talvez pelas tragédias terem consequências muito difusas e indiretas, Jota passava um olhar desatento para a quebradeira econômica. O resultado de todas aquelas crises apareceria à conta-gotas.

A política era mais interessante. Mesmo repetitivas, aquelas tragédias tinham ações. As ações econômicas ficavam restritas aos papéis na Bolsa. Na política as discussões mal encenadas e os ânimos exaltados lembravam um dramalhão mexicano, menos amoroso.

Essas tragédias difusas pareciam convergir para as tragédias do cotidiano. Muitas já eram vistas com um ar blasé. De tão recorrentes haviam perdido a capacidade de impacto. Mesmo assim, algumas pessoas caprichavam e conseguiam destaque.

Tragédias econômicas eram mais frequentes no noticiário internacional, com cifras maiores e consequências mais catastróficas. As políticas eram generalizadas; ultimamente o difícil era encontrar um lugarzinho sem escândalos. O interessante é que o destaque para as tragédias políticas estava diretamente vinculado com a economia. O povo pobre tinha muito destaque, desde que tivesse muito petróleo e pouca comida.

Nas semanas mais recentes Jota acompanhava com empolgação o ápice das tragédias. O big bang que se forma quando o buraco negro da sociedade não consegue absorver tanto absurdo e explode, incontrolável, pelo mundo.

De Suzano a Christchurch, não há cristo que detenha a explosão de fúria represada. Com um copo de café em uma das mãos e o mouse na outra, Jota expressava um leve sorriso no canto da boca ao ver as notícias.

O sorriso não era de satisfação nem de sadismo. Só não conseguia conter a reação diante de tanta análise cretina que lia a respeito das tragédias. Era como se as pessoas soltassem um copo de vidro e ficassem indignadas ao vê-lo se estilhaçar.

A cada manhã Jota repetia o ritual. Um copo de café e um passeio pelos sites, vendo os copos de vidro caindo lentamente, até se chocarem contra o chão e deixarem as pessoas embasbacadas, buscando estofados para o chão, proteção para os copos, um chão mais macio.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Outro aniversário, outro dia das mulheres.

  Não gosto mais de fazer aniversário já faz algum tempo.

  "Parabéns!" Parabéns pelo o quê? Eu como qualquer adolescente mal-humorado não pedi para nascer, não quis, não planejei, e nem escolhi o dia.

  Pelo mesmo motivo me irrito com o dia das mulheres, não pelo significado, as causas, a importância do dia socialmente, mas o "parabéns!" em si.

  Parabéns pelo quê, meu amigo? Não escolhi ser mulher, aconteceu biologicamente e imposto socialmente, certamente não seria minha primeira opção. Também uso calças e calcinhas e não gosto que fiquem insinuando o pré-conhecimento de minha genitália abertamente.

  Parabenize-me pelas coisas que tive opção, êxito, pelas que tive mérito.

  Dê-me no aniversário parabéns por ter aguentado mais um ano inteiro sem ter me matado ou matado alguém, por exemplo.

  Dê-me no dia das mulheres, parabéns por ter aguentado mais um ano aqui na segunda divisão.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Estações

BUTANTÃ

Geladão de coco com leite
Salgado seco no Charme de Paris
Um minuto para salvar as crianças da Unicef
Quando menina eu fui atropelada em frente à Padaria Estrela
A gente se encontra ali perto do elevador
Te trouxe coxinha, querido, você precisa comer alguma coisa
Tec Tec Tec Tec Tec
Não aguento mais essa bengala.

PINHEIROS

Tia Elza falou
Tia Elza pediu
Tia Elza rezou
Tia Elza sorriu
Tia Elza
Tia Elza
Tia Elza
Tia Elza foi minha madrinha de crisma

Tchelza, irmã da Tcholanda
O nome das duas sempre esteve na letra T da agenda telefônica

Tia Elza. Rua Atuaú, 107
E eu nunca soube, afinal, o quer dizer Atuaú.
(o Google está logo ali mas tem coisas que a gente não precisa saber)

- Mãe, eu tô cansado
- Mãe, eu quero água
- Mãe, eu tô com fome
- Calma, menino, a gente toma um lanche no final

(mas só no final, senão todo mundo fica triste
e não quer mais passear)

Barracão
Cunha Gago
Antônio Bicudo
Pedroso de Moraes
João Moura
E as pernas passam
Enormes
apressadas
convulsas
pelas calçadas infinitas da Teodoro Sampaio

- mas eu tô com fome, mãe!


FARIA LIMA

Bim Bão
Bim Bão
Bim Bão
Que bonito faz o sino
Da igreja que seu irmão casou
Abençoado padre Alberto
Que morreu lá na Itália
Bim Bão
Bim Bão
Bim Bão

Por que não tem batatas no Largo da Batata?


FRADIQUE COUTINHO

- Fradique é um frade bem pequenininho?


OSCAR FREIRE

- Isso é coisa de gente rica igual sua tia Vera, menino! 
Vamos, 
vamos tomar um lanche 
e voltar pra casa
que daqui a pouco vai chover.


PAULISTA

Entrei na rua Augusta a 120 por hora
Botei a turma toda do passeio pra fora
Laralaralararalaralará
Hay Hay Johnny
Hay Hay Alfredo

Ajuda sua mãe com louça, menino

Quando mocinha, eu era tirada pra dançar em todas as músicas

Mariana, depois vai com a mãe lá pra cima

Do Carmo
Ifigênia
Kimie
Dona Matilde
Cícero
Anas todas
Cidas todas
Marias todas
Goreth

(Orlando)

E a tarde cai
devagar
preguiçosa
sonolenta
levando com ela
a senhora da sacola verde
e os dois pequenos
gêmeos
que lhe seguem
gêmeos
pelas ruas
gêmeas
do Jardim Arpoador

HIGIENÓPOLIS - MACKENZIE

- Eu estudei até a quinta série
Mas tenho um filho que fez USP
O que mesmo você fez lá, querido?


REPÚBLICA

Não posso deixar de amar
alguém
que é mãe
de minha neta

Ricardo
        Lívia
             Flávia
                   Catarina
                              Júlia
                                    Bianca


LUZ

Até na Linha Amarela existe luz no fim do túnel.

A piada é boba
velha
sem graça
infame
igualzinho
à esperança.


SÃO BENTO

São Bento, águas claras
Jesus Cristo no alto
O que tiver de mal no meu caminho
Afaste para mim passar

- Mim não faz nada, mãe...
- Ê menino que não para de me corrigir! Oração não se corrige!




Quando menina eu namorei um menino chamado Jesus


LIBERDADE

A

m
a
ç
ã

sempre 
repartida
dividida
retalhada
uma 
fatia 
pra 
cada 
um
como
nosso 
senhor
fazia

até 
dia
em 
que 
escondi 
uma 
maçã 
na 
calcinha
saí 
pela 
rua

escondida            escondida
              livre  livre
           plena     plena
          só                    só

não 
sabia
o prazer
           que era ter
                            uma maçã inteirinha, vermelha, perfumada, brilhante, só pra mim.

SÃO JOAQUIM

Que bonita pode ser uma vida, 
meu Deus, 
entre a bolsa amniótica 
       e a bolsa de sangue.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Eita que quase que esqueço!

Valei-me, rapaziada!
Só agora me dei conta de que já são onze e onze da noite. 
Liguei meu PlayStation 4 para jogar ou assistir algo enquanto espero a liberação de Anthem (jogo da EA com a Bioware que será liberado pra quem comprou em pré-venda logo mais às duas da manhã), e lembrei de que hoje é 21, meu dia de postar pra vocês!

No mês passado, lembro que postei de dentro do ônibus, e por isso, uma postagem super simples e crua, direto do meu app no Android.

Hoje, entrei rapidinho aqui, pois queremos trazer conteúdo a quem espera tão carinhosamente!
fato é que a vida anda corrida por demais, e que sabemos que por isso, muitos não postaram/postam mais. De minha parte, peço desculpas. Ontem, eu havia lembrado da data, mas hoje, foi só por Deus... Cheguei há pouco do trampo (tenho dois empregos, e por isso, trabalho literalmente o dia todo).

Queria MUITO trazer algo com mais qualidade pra vocês, por isso, tomo a liberdade de recomendar a última postagem (a mais recente) que fiz no meu blog, falando um pouco sobre minhas impressões de um filme que pra mim já é um clássico, "As vantagens de ser invisível"!

Para me dar a honra de sua visita, basta clicar aqui nesse link!

Tenham todos um ótimo final de dia!

Mês que vem, espero trazer novidades! 
Grande abraço!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Ayahuasca - primeira tentativa

São Paulo começava a entrar no ritmo do carnaval, mesmo estando há dois fins de semana da festa. No metrô, próximo à última estação e já quase vazio, uma moça fantasiada usava o vidro do vagão como espelho para beliscar os mamilos e deixá-los salientes sob a blusa sem sutiã, rendendo piadas de seus dois amigos que formavam um casal.

Na contramão desse clima de prazeres carnais eu chegava para minha primeira experiência com o chá de ayahuasca, a bebida indígena conhecida por aguçar os sentidos e facilitar a busca pelo autoconhecimento daqueles que a provam.

Era um ritual urbano, bem diferente de toda a conexão com a natureza condizente com o histórico da bebida. Meu maior contato com a natureza naquele dia foi através do temporal que caía sobre os 400 metros que separam a casa, onde se realiza o ritual, da estação de metrô.

Conforme os participantes chegavam, preenchiam uma anamnese básica e assinavam o termo de participação, enquanto Rose, a coordenadora, falava um pouco sobre o Universo Místico – a associação com valores espirituais, que congrega religiões para, segundo Rose, evoluirmos como seres humanos. O chá, ou vegetal, como dizem os associados, é uma ferramenta a ser usada nessa evolução.

Uma das observações feitas por Rose é que não deveríamos criar expectativas sobre como será a experiência com a ayahuasca. Justo eu, que não consigo ir à padaria sem a expectativa de que algo surpreendente aconteça no caminho? Eu já tinha ouvido relatos suficientes para que a falta expectativas estivesse fora de questão.

Preferia não ter diarreia. Eu sempre prefiro não ter diarreia. Se desse para não vomitar, também seria bom; ainda mais sozinho entre duas dezenas de desconhecidos. Já eventuais alucinações seriam bem-vindas, mesmo que desnecessárias quando o objetivo é o autoconhecimento, eu ficaria bem satisfeito em me sentir dentro de uma pintura de Salvador Dalí.

O fato é que as expectativas são ruins porque aos que bebem o chá pode acontecer de tudo, inclusive nada. Adoraria seguir com estórias extraordinárias, mas bebi a primeira dose e fiquei sentado na sala levemente iluminada por uma luz azul, ouvindo mantras orientais intercalados por músicas com referências ao cristianismo. Nada mais.

Bebi a segunda dose. O chá é levemente adocicado, um pouco amargo da fermentação. Desanimado com a falta de reação comecei a sentir um leve enjoo acompanhado de queda de pressão. Os organizadores haviam dito que isso poderia acontecer, e foi o que me salvou de não ter nenhuma reação para contar.

Levantei e saí da sala. Seguia determinado a não vomitar (nem desmaiar) entre desconhecidos. Sobretudo agora, quando estavam concentrados, muitos curtindo o transe em que não entrei. Mas não cheguei ao extremo. Lavar o rosto e esperar um pouco, olhando a chuva que insistia em cair do lado de fora, foi suficiente para que eu me recuperasse e voltasse ao ritual.

A ayahuasca é imprevisível. Mesmo os adeptos mais antigos não sabem qual será a reação do corpo. Entre tudo o que poderia ter me acontecido, não me aconteceu nada. Talvez pela falta de um rito mais elaborado, quem sabe as músicas voltadas ao cristianismo que tanto me incomodaram, mas não consegui um transe ou uma reflexão mais ampla do que estou habituado.

Não desisti. Acredito que apenas após essa experiência conseguirei seguir a recomendação que me foi dada. Da próxima vez, não terei expectativas.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Não acredito que disse isso

É fevereiro, véspera de carnaval.
Sei disso porque moro perto de umas ruas que recebem multidões, escuto o barulho.

O carnaval é imparável, tatuado na alma do brasileiro. Nem no meio do pior fevereiro da história do país, ele para.

Se passaram apenas quarenta dias desde o começo do ano e já sentimos o peso, como se fossem cinco anos. Tudo parece desmoronar, explodir, arrebentar, sair voando.

Dá a impressão de que março não vai chegar à tempo, tudo vai sumir antes.
Mas brasileiro resiste, ainda mais se a data estiver perto do carnaval. Nele ninguém encosta, o país pode virar pó, mas o carnaval fica inteiro.

E apesar de não ser fã do carnaval, fico feliz este ano, sei que pelo menos vai trazer um pouco de alegria, aliviar o ar, tirar a melancolia do nosso cotidiano.

Nunca pensei que iria dizer algo assim, mas é verdade, a chegada do carnaval pode melhorar os ânimos e fazer as pessoas esquecerem durante uns dias que o país navega no meio de uma tempestade.

Abençoado carnaval. Até pessoas que não gostam da data, como eu, estão ansiosas por um pouco de felicidade no ar.

Bem vindo. 

Iara De Dupont 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Sobre a vida

1-
A vida é uma merda.
a gente enrola, coloca granulado e fala que é brigadeiro.
Mas é uma bosta.

2-
A vida é como sair de casa e achar uma nota de dois reais:
você fica feliz, compra um picolé, senta na praça, se sente feliz e com sorte.
Quando chega em casa percebe que perdeu a nota de cinquenta reais que tinha no bolso.

Moral da história: aproveite as pequenas alegrias, pois são elas que fazem a vida ser boa, entre pequenas alegrias terão grandes tristezas e você terá que lidar com tudo da melhor maneira possível.
Moral da história: a vida é uma bosta.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Histórias a dois.


Já pensou em ser vento? Uma espécie de super-heróina, só que invisível? Não, só o vento mesmo, sem super poderes. Não se é o vento, o vento é só ar em movimento. Quer ser ar? Não, quero ser eu mesma mas, às vezes, penso que seria bom ser vento. Sabe o que te falta? Imaginação? Loucura!
Na cama, adormeceram de frente um para o outro. Apenas as mãos e o ar que expiravam era toque.
Ele acordou primeiro, na verdade tem dúvidas até se chegou a dormir, a cabeça ficou às voltas, maquinando. De frente ao espelho do banheiro, só lhe sobrou uma dúvida: batom vermelho ou lápis de olho preto. Os olhos ardendo e o sorriso na boca emoldurando o fundo, das letras gigantes, no vidro: “Em tempos sombrios se manter lúcido é loucura”.
Quando ela viu, o sorriso escapou da boca instantaneamente, foi engraçado acordar.
Ao voltarem para cama, na noite seguinte, os olhos dele ainda ardiam.
Tudo isso é alegria, ainda? Fiquei pintando espelhos o dia todo. Mentira! Foi loucura! E o que escreveu? “Lula Livre”


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

2019

Hoje,
Era para ter um texto aqui.
Daqueles imensos, 
A perder de vista 
E de rolar o dedo várias vezes no mouse.
Mas não foi desta vez.
Também não foi a falta de tempo
Tempo até teve, meio que apertado
Assunto não faltava
Minha nossa na verdade os temas sobram: 
é da reforma da previdência, 
a reforma do trabalho, 
da extinção no futuro do trabalho 
e atual políticas sociais, 
a posse de armas ao porte de armas, 
violências e suas variadas e infinitas gêneses.
Ainda etc, mais eteceteras
Temas é igual etc, não acaba.
Ao chegar foi do pão e kiwi.
Porque nas férias ócio é vício.
E cozinhar é a última coisa a fazer.
Arrumar e ajeitar também
Mas houve meia exceção, na casa.
Entre notícias variadas
A que deixa consternada ao re-ler.
Brumadinho.
Assassinatos mais de 200 pessoas desaparecidas
Motivos: irresponsabilidades, crimes
Da única reincidente: Vale.
Justificativa: ganância, poder 
Várias pessoas desabrigadas.
Rios e matas destruídos,
Animais sacrificados 
Ecossistema perdido e desfeito.
Sem valor em notas que os mereça.
Tristeza.
Até para falar dela é preciso ter jeito
É necessário refletir
Dizem que quando o ano começa difícil
É porque vai terminar bem
Não sei se é assim
E no quanto acredito nisso
O que posso dizer:
Quando o ano começar:
Seja em fevereiro ou em março
É que alguma palavra terá.
No concreto é vai ter ou terá?
Como se isso importasse,
Foda, 
Isso às vezes importa 
Mais que o(s) texto(s).
Pra mim, no momento não.
É pra mim ou p-a-r-a mim. 
?
Mesmo com extrema dificuldade
No quase extrair água da pedra.
Por que escrever é sentir
E se não sentir
As palavras são vazias
Ocas
Iguais o que a gente lê por aí
Lê não
Na verdade a gente passo os olhos
Sem sentir.
A gente passa os olhos.
Qualquer dia desses escrevo por aqui a fina flor da caneta bic
Vou descer e subir montanhas e morros
Como feito em alguns processos fakes.
Porque assim dá para ser igual
Aos que querem escrever mais não deixam.
Especialmente adolescentes, 
pessoas consideradas de idade avançada para retomar os estudos.
Justificado nos: 
A sua letra é feia, 
A você erra a gramática, acaba com o português
Hater é mato.
E escrever é exercício
Além de sentir e sentir.
Escrever só parece fácil 
Mas não é
Nisso ela, C.L estava certa:
Escrever é mesmo perigoso.
Por ora
Em janeiro
Que haja
Paciência
Em abundância 
E em demasia
Com as palavras.
Porque neste mês jurava que fosse escrever
Escrever parece fácil
Só parece, 
Até tentar,
Não deu.
Acabei de comprovar 
Porque em casa de ferreiro o espeto é de pau.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Poeminha coisado

Tinha uma pedra no meio do caminho.
Tinha uma coisa no meio do caminho.
Tinha uma coisa no meio do coiso.
Tinha uma coisa no coiso do coiso.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Muros novos para ideias velhas


Os muros são a nova tendência. Nunca chegam a sair de moda, mas às vezes são deixados um pouco de lado, como depois que derrubaram o de Berlim. Agora é diferente. Resgataram a ideia de que um muro pode resolver problemas e começam a aparecer todos os problemas que essa ideia maluca acarreta.

Um muro nem é o mais grave. São de tijolos e cimento, destrutíveis com relativa facilidade. O pior é que quando chegam ao extremo de construir um muro, não se faz nada além de tornar visível e palpável um muro que já existe.

Alguns tijolos de medo são sempre o alicerce. À partir dessa base fica mais fácil colocar mais tijolos de preconceitos, mentiras, arrogância e tantos outros que tentam justificar absurdos.

Com isso o muro fica pronto, só não está visível ainda. É a parte mais difícil de ser demolida. Não tem dinamite que consiga derrubar o muro psicológico que se ergue com base em ideias, normalmente sem nenhum sentido.

O muro físico é um alvo, uma meta, um desafio a ser transposto. Construído, o muro canaliza as críticas dos que são contrários às barreiras. Antes da construção o muro já existe, mas é capilarizado, interiorizado em seus alvos.

Aqueles que querem construí-lo têm certeza quanto suas justificativas e necessidades, os que estão do outro lado não enxergam as barreiras, mas sentem na pele a existência invisível de um muro que os separa dos demais.

Demora um pouco, mas a moda dos muros passa, até que alguém acredita ter uma brilhante e inovadora ideia. Construir. Novamente construir um muro, que nos obriga a regredir à fase de explicações e desconstruções de ideias malucas. Justo quando achávamos que a preocupação era demolir o muro ainda não construído fisicamente.


sábado, 12 de janeiro de 2019

O caos

Uma amiga norueguesa me disse ''parece que vocês brasileiros gostam do caos''.

Eu não diria que gostamos do caos, mas sim, estamos tão acostumados ao caos que nem prestamos mais atenção em nada.

É terrível viver assim, porque o caos acontece ao nosso redor e não mudamos nada, parece que faz parte da paisagem. Entra governo, sai governo e o caos continua o mesmo, e nem reparamos nisso.

Somos o país do caos, do calor, do barulho. O problema é que não agimos como cidadãos, mas como  baratas tontas indo de um lado ao outro e pagando impostos. Nossa qualidade de vida é ruim, mas o que não é ruim no meio do caos?

Os números de violência urbana superam os números de uma guerra, a falta de serviços públicos está no mesmo patamar de países que vivem no limite.

Mas nós estamos acostumados com o caos, nem o questionamos mais.

Agora temos um governo caótico, sem ideia do que estão fazendo e depois de dez dias de caos, já nos acostumamos a ouvir barbaridades sobre os nossos direitos e nem reagimos mais.

O caos não é maneira de viver, nem de estar. Nem deveria ser um ''sistema'' em nenhum lugar. Mas é tanto caos que nem sabemos mais, porque tudo é um caos. É o caos.

Iara De Dupont

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Tequila


 Tudo corria dentro do planejado.
  Eu adoro o planejado e planejar, cronogramas, esquemas...

  Dia oito de outubro começou com um gosto amargo, como se acordássemos em um Universo paralelo, um episódio de "Além da Imaginação"; seriamos governados pelo tiozão do pavê, e reelegemos o  moço que era motivo do meu atual desemprego.
  Azia mental.

  Á noite, chegou molhada, enrolada em uma toalha, com os olhinhos furados, gritando a bons pulmões, 250 gramas de bebê de gato.
  Desde aquele dia não dormi uma noite inteira mais, não tive mais nenhum dos meus dias previsíveis.
  Desmarquei minhas viagens e compliquei minhas saídas, como um efeito dominó entre melhoras e recaídas do serzinho, quase perdi minha idosinha, me contaminei com ela, filho doente, cansaço.
  
  Ontem, ela retirou um dos olhos, ainda me dando mais trabalho do podia imaginar, agora com quase dois quilos é uma das coisas mais fofas que tenho o prazer de conhecer.

  Espero a médio prazo recuperar minha vidinha previsível.
  Começo 2019 cansada, ainda mais pobre, sem nenhum controle do dia seguinte, de cabelos grisalhos e sem corte, unhas desfeitas, olheiras e nem consegui lavar a louça ainda.
  Ao menos estou em boa companhia.
  
  

sábado, 22 de dezembro de 2018

Melhores livros lidos em 2018

Eis minha lista de 10 melhores livros lidos (e não necessariamente escritos) em 2018, com toda a injustiça que uma lista como essa pode gerar. Reparo que não consigo disfarçar minha tietagem aos autores latino-americanos contemporâneos. A ordem em que eles aparecem representa a ordem em que foram lidos e só. Podem ler sem medo cada um deles. Eu garanto! (aos mais chegados, tenho quase todos para empréstimo :))

Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos (México) – um romance muito breve, de linguagem leve, narrado sob o ponto de vista de um garoto curioso, que é filho de um poderoso narcotraficante, e que vive este mundo sombrio de uma maneira muito sua, tentando entender o misterioso mundo em que vive o pai, com toda imaginação que só uma mente infantil pode ter. 

Deixa comigo, de Mário Levrero (Uruguai) - Um livro sobre um escritor em apuros financeiros (que familiar...) que recebe a missão de viajar pelo interior do Uruguai em busca de um tal de Juan Pérez, que enviara dias antes, sem endereço de remetente, o manuscrito de um romance genial a uma editora. Delicioso!

Como me tornei freira e La mendiga, de César Aira (Argentina) – César Aira não tem compromisso algum com o verossímil, com a realidade. Você pode esperar tudo deste que é um dos autores mais inventivos da literatura argentina contemporânea (cuja vastíssima obra está, pouco a pouco, chegando no Brasil). 

Poemas, de Wislawa Szymborska (Polônia) – Poesia pra ser boa não precisa ser hermética. Passando por temas pesados como a guerra, a vencedora do Nobel consegue nos atingir fundo, com temas pesados como a guerra e o exílio, mas de forma leve, que consegue sensibilizar até mesmo os leitores menos familiarizados com a linguagem poética.

Garotas Mortas, de Selva Almada (Argentina) – Um livro necessário sobre o feminicídio na Argentina. Um belo exemplo de jornalismo literário que busca investigar a morte de 3 mulheres argentinas durante os anos 80.

Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra (Chile) - Um romance todo construído em forma de uma prova de múltipla escolha (baseada na Prova de aptidão Verbal, aplicada no Chile entre 1966 e 2002) e que consegue, nas entrelinhas, fazer uma crítica ácida ao horror da ditadura chilena. Estranho, sim. Incrível, também sim. 

Pássaros na boca, de Samantha Schweblin (Argentina) – São dezoito contos (absurdamente bem construídos) que começam com situações corriqueiras e que acabam ganhando ares de fantástico, na melhor tradição de Júlio Cortázar. Por mais absurdas que pareçam as situações narradas (uma menina que come pássaros, por exemplo) a gente lamentavelmente se reconhece em cada um deles. 

O pai da menina morta, de Tiago Ferro (Brasil) – Um pai que perde uma filha de 8 anos em decorrência das complicações de uma gripe. Este é o mote (tristemente real) deste livro em que Tiago Ferro torna seu luto público. Não se trata de uma narrativa tradicional, linear, mas uma coleção de fragmentos, que vão desde mensagens no Whattsapp até mergulhos na cabeça do médico que tentou salvar a menina em seus últimos momentos, o que torna tudo mais potente, mais real. Fazia muito tempo que eu não chorava lendo um livro.

O peso do pássaro morto, de Aline Bei (Brasil) – Parece poesia, tanto pelo lirismo, tanto pela disposição das
palavras
no papel
assim
bastante
experimental, 
como 
se 
as 


palavras


vo


       as


              s     e                    m


mas a autora diz que é romance. Suas escolhas narrativas tornam tudo bastante sutil, apesar do peso da história da protagonista, desde os 8 anos até sua morte, um romance de formação de uma mulher, mãe, sonhadora, humana.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Mito

Já faz trinta anos, mas lembro como se fosse ontem. Meu primo havia dito que Papai Noel não existe e eu fui contar isso para minha mãe, certo de que ela daria risada dele. “É verdade” ela respondeu, “não existe mesmo”. Estávamos perto do Natal, além de lidar com a inexistência do velhinho eu ainda tinha a sensação de ter sido tapeado.

Decidido a não perpetuar as frustrações familiares, parti logo para a verdade com meu filho. De forma lúdica, em meio aos brinquedos e tentando tomar todo o cuidado, cheguei ao ponto fatídico: “Filho, o Papai Noel não existe. Ele é só um mito. ”

Para minha surpresa o garoto abriu um sorriso e perguntou: “Então ele vai salvar o Brasil?”. Era só o que me faltava! Já era a segunda vez que essa revelação me desconcertava.

Ele havia ouvido, na casa de um amiguinho, que o mito ia salvar o Brasil e por isso a confusão. Dessas amizades de qualidade duvidosa a gente trata depois. Era hora de desconstruir o mito do mito.

Tentei ser o mais didático e ilustrativo possível para fazer com que uma criança de seis anos entendesse que um mito não existe no mundo real. É uma história inventada e, justamente por não existir, o personagem faz coisas grandiosas e fora da realidade.

Pensei que sendo racional e explicando porque o mito não pode ser transferido do imaginário para o real aquela criança de olhos esperançosos ia se convencer. Depois de muitos exemplos e fatos achei que tivesse dado certo. Ele fez cara de pensativo e começou: “Então... agora o jeito é torcer para dar certo e o Papai Noel cumprir a promessa de trazer um presente.”

Desisto. Por enquanto não vai dar para convencer o garotinho. Falta experiência prática e talvez daqui a um ano a realidade se sobreponha ao sonho. Não dá para negar que é tentadora a ilusão de personificar um mito que realize um desejo.

É tão tentador que meu primo, tão racional no auge de seus seis anos, esfregando na minha cara a dura realidade da inexistência do Papai Noel, esse ano tem se mostrado bastante seduzido por alguns outros mitos.

Encarei a crença dele como minha chance de revanche. Era minha vez de revelar a verdade. Expliquei porque um mito não existe no mundo real e suas promessas de façanhas são restritas ao mundo da ficção. Finalizei dizendo ser necessária a inocência de uma criança de seis anos para acreditar nesses mitos.

Nesse ano o Natal em família será tenso. 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O último mês

Dezembro é o último mês do ano. E a sensação que paira no ar é bem estranha, é o último mês do ano, mas será o último mês democrático que vivemos?

No dia primeiro de janeiro, de 2019, o presidente eleito vai tomar posse, um candidato polêmico que desenha um futuro sinistro.

E qual serão os rumos que este país vai tomar? Não sei, mas parecem assustadores.

Ah, mas talvez estou errada! Pode ser, mas no último mês do ano tudo parece fora do lugar, não temos ideia do que nos aguarda, por isso este dezembro está sendo tão longo e lento, como se o relógio segurasse cada segundo.

Não somos os únicos que estamos passando por mudanças, muitos países também vivem seus enigmas políticos e quem paga a conta é a população.

Janeiro não parece atraente, pelo contrário, sabemos que vai trazer notícias mais quentes do que o verão. Mas seguimos aqui, esperando dezembro acabar. Esse dezembro quente, sufocante, lento e devagar. Talvez seja o último dezembro democrático. Talvez.


Iara De Dupont