sábado, 20 de abril de 2019

Deformas

Precisava tirar a Dilma. Só assim o país cresceria, voltaríamos a ter emprego e a economia iria deslanchar. Não importava que não houvesse um motivo juridicamente viável. Era necessário pelo bem do país e isso bastava.

Mas daí também precisava da reforma trabalhista. É que o empregado tinha muita mordomia, muito benefício, vivia na vida mansa, ganhando muito sem trabalhar. O jeito era uma reforma trabalhista que seria boa para todo mundo. Empregadores e empregados seriam praticamente da família, podendo negociar diretamente entre si, sem essas frescuras de leis atrapalhando tudo.

Nada disso deu resultado, mas é porque precisava congelar os gastos públicos pelos próximos 20 anos. Sem isso não tinha como a economia crescer. Se o Estado gasta dinheiro com coisas inúteis como saúde, educação e segurança, não sobra nada para investir no que realmente importa.

Também não funcionou, mas era por causa do medo da volta do petê. Nada desse esforço daria resultado com a volta do petê, portanto o que importava mesmo era garantir outro presidente. Qualquer um. Poderia por um boneco de massa de modelar, desde que não fosse do petê.

Agora chegamos ao ponto chave. A reforma da previdência! Todo o resto não importava. É a reforma da previdência a única saída para a economia voltar a crescer e o desemprego diminuir. As empresas se esforçam, muitas recolhem a contribuição do trabalhador e não depositam, mas ainda assim não dá para a economia crescer com aposentados ganhando um salário mínimo. O esforço é contínuo, já suspenderam o aumento real do salário mínimo, mas sem a reforma a coisa não anda.

Bem provável que depois da tal reforma da previdência, seja a hora da reforma tributária. Quem nunca ouviu que é difícil ser empregador no Brasil, que empresário paga muito imposto, que a carga tributária das empresas é muito alta? Não demora para algum gênio chegar à conclusão de que é necessário jogar a carga tributária um pouco mais para o lado do trabalhador. Quem já ganha um salário mínimo tem todas as condições de pagar mais impostos. Daí sim! Cresceremos! O emprego vai aumentar!

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Não vai virar

Alguém me disse ''É o caos''.

Me pergunto o que seria o caos. Desde que nasci o Brasil tem esse movimento interno, é como um Titanic, sempre a um passo de afundar. Parece que o barco vai virar, mas não vira, apenas as cordas apertam.

Vivi tantas vezes essa situação de gritos e desesperos, de videntes garantindo, sim, agora afunda, que me cansei. Me cansei. Estou exausta. Tudo isso que vejo, a falta de empatia, a indiferença, a loucura, já vi antes, e não apenas em filmes, mas em novelas e séries.

A vitória do brasileiro é essa, aguentar viver debaixo dos berros e avisos de perigo. Estamos acostumados. Ou talvez não, talvez seja a primeira vez na história em que estamos vendo de perto a loucura coletiva, uma maioria que perdeu a noção da realidade, talvez sejamos no momento o país com o maior número de doentes mentais. Mas tudo isso cansa demais, ou talvez sou eu que não aguento tanto barulho. Preciso desligar a televisão e me afastar de conversas diária. Você viu tal coisa? Não, não vi.
A pessoa me conta. Outro vício do brasileiro, espalhar as notícias ruins com uma fome desesperada.

Cansei de tanto barulho e já sei por experiência que este barco não vira. Mesmo que a batida com o iceberg seja forte, não vira. Não precisamos nos preocupar, os músicos vão seguir tocando os violinos, mesmo que esse som nunca chegue a nós, abafado pelos gritos. 

Não vamos afundar.

Iara De Dupont

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Infravermelho

Agora, só. Encaro a luz vermelha do mouse.
Ela reflete na parede do meu quarto. 

Lembro vinho do mais simples
Com ideia abstrata.
Boca cheia de intenções 
Mulher de ouro, eu prata.

O meu suave com gelo
Exala o cheiro da uva.
Me acompanha no pelo
Esquece o medo da chuva.

Largo essa taça no chão 
Enquanto escuto partindo.
Vejo o perigo nos cacos
Sinto meu sangue fluindo.

Fumaca nos denuncia 
Corpos se pegam no fogo.
Ebulição de prazeres 
Térmica, mente o dobro.

Magicamente me cura
Enquanto leva minha dor.
Tinta que vai embora
Quadro perdendo cor. 

Um cumprimento de onda
Muda meu curso, o plano. 
Passagem das estações
Destino, deus, desengano.

Agora só encaro a luz vermelha do mouse.
Ela reflete na parede do meu quarto.

sexta-feira, 29 de março de 2019

as cortinas de ferro

Usar esse termo "cortina de ferro" é fazer uso da ironia a quem se referia a antiga União Soviética no combate ao suposto comunismo que não existiu mas fracassou e uma rememoração mais precisa sobre a queda do Muro de Berlim.

Rememorar é manter a história viva e constatar o quanto aqueles que foram e são contrários ao capitalismo instituído e legitimado até hoje nesta sociedade são por completo desdenhados.

Mais irônico é falar da cortina de ferro e da queda dos muros no passado e constatar de que nesta época comemorou-se a derrocada dos muros em Berlim e queda do bloco Soviético sob argumento de suposta liberdade, economia globalizada e sociedade de-mo-crá-ti-ca,  e hoje em pleno século 21 termos milhares de dólares liberados para a construção de muros entre as divisas dos EUA e México em plena de-mo-cra-cia.

Tão semelhante e mais atual é aquele “por que não te calas” proferido por uma autoridade parlamentar ao presidente na época Hugo Chaves da Venezuela ao rebater pessoalmente em debate acirrado as investidas contra seu país, hoje atualmente governado por Nicolas Maduro.

Já me questionei algumas vezes porque ainda não ocorreu uma investida militar estadunidense na Venezuela, uma vez que estão sobre essa constante e responder sobre é remeter-se as declarações do “estamos em guerra” durante alguns governos.

Obama quando optou pela guerra na Síria decidiu também por enfrentar as reações da população americana e demais países contrários ao confronto armamentista e militar. Declarar guerra a outro país significa enfrentar uma enxurrada de manifestações pelas redes sociais e atos pelas ruas, além da histeria na bolsa de valores e nos investimentos econômicos.

A população compreendeu de que a vantagem no confronto armamentista e militar é para os acionistas das empresas bélicas que prestam serviço para países com poder de compra e que estão propensos a massacrar o rival sejam soldados ou quem aceite enfrenta-los e na grande maioria a população que acaba por sofrer os danos das decisões alheias.

Neste meio encontra-se a reação das pessoas que são contrárias as guerras mesmo imersas a uma série de contradições do capital entre desempregos, baixo rendimento econômico, aumento da pobreza também em países desenvolvidos, aquecimento global, risco em produção alimentar, necessidade dos ricos de reinventar o processo de acumulação dos meios de produção e Fake News.

Percebe-se que as notícias Fakes colaboram tanto para implantação de “guerras frias” tomarem de assalto democracias uma vez que declarar guerra armamentista é intensamente repudiado pela população como de paralisar articulações em massa.

As notícias Fakes são prejudiciais em todos os aspectos porque minimizam e/ou atrasam a atenção ao que deveria ser prioridade, perde-se muito tempo para constatar a informação noutros veículos de comunicação.

Na Venezuela demorou-se semanas para identificar de que a oposição ao governo ateou fogo na “ajuda humanitária”. Mais recente li nota de que ocorreu protestos em massa nos EUA pelo desarmamento da população. Num desatino de ler outra matéria perdi de ler a matéria e em buscas não encontrei mais a informação.

Desarmar a população e/ou questionar o poder bélico e militarista é audacioso, mas também perigoso, uma vez que pretender alterá-las remete em mexer nas estruturas essenciais do estado que reverbera diretamente na organização de sociedade.

O Brasil caminha na direção contrária, enquanto noutros países o poder militar e bélico está sendo questionado, vivemos dias em que provavelmente todo e qualquer cidadão que queira poderá andar armado e/ou ter uma arma dentro de casa.

É importante notar a perspectiva sobre a terceirização da segurança ao cidadão comum colocando-o sujeito a mais riscos, e também ao processo de intensificação militar do qual temos de uns anos para cá, servindo o RJ como laboratório.

Neste domingo registra-se os 21 anos de ditadura civil militar, período em que os militares assumiram o poder institucional e político no país do qual ocorreu censuras, desaparecimentos forçados, torturas, assassinatos, exílios e intensificação do poder bélico/armamentista coincidente vindos da indústria bélica americana.

1964 é uma data para ser esquecida? Jamais. Então para ser comemorada? Nunca.
Trata-se apenas de uma data que deve ser lembrada para nunca mais ocorrer, principalmente por quê milhares de pessoas foram assassinados e simplesmente morreram por acreditar em algo contrário ao que foi instituído – militarismo – e ser lembrada por servir de depósito de rejeitos econômico e militar ao comprar os armamentos e produção bélica estadunidense das quais não lhes servia durante 21 anos.  Que rasguem-se as cortinas da censura, opressão e medo. Mas também da hipocrisia, da ironia e do sarcasmo pois nunca foi tão necessário.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Não adianta

Não adianta a cara sem pelo
o tênis colorido
a camisa estampada
Não adianta a bermuda de sempre.

De nada valem as piadas que faço 
os rocks que cantarolo
as redes sociais as quais me associo
De nada valem as opiniões progressistas que defendo

Não adiantam as gírias que cuido evitar
os lugares que busco frequentar
a comida gordurosa que como
Ou mesmo a companhia que escolho ter comigo.

Não adianta
Não tem mais volta
Não sei porquê
Mas não adianta
Porque a grande moda agora

Na padaria
Na confeitaria
No açougue
Na bilheteria
Na danceteria
Na internet
No cemitério
Na academia

É me chamarem de SENHOR!




quinta-feira, 21 de março de 2019

Um novo podcast!

Olá turma do blog das 30 pessoas!

Estava eu subindo meu podcast pro ar, quando resolvi passar aqui e já deixar meu salve desse dia 21, pois me conheço: se deixar para amanhã de manhã, acabo não tendo tempo e lá vai mais um mês sem post.

Hoje, trago o meu mais novo "filho": O Fim de Noite! Que já existia, mas em outro formato.
Agora, está um pouquinho mais de "podcast" mesmo.

Clique aqui para ouvir o episódio desta quinta!
Espero que curtam!
Abraço, e obrigado pelo carinho de sempre!
A gente se fala! 


quarta-feira, 20 de março de 2019

De Suzano a Christchurch

Jota passou a acordar com mais facilidade depois da cafeteira. Tinha um botão mágico e com um simples toque dava para ouvir o café moído, as batidas para compactar o pó e em poucos segundos a felicidade escorria para o copo.

O café era tão sem açúcar quanto a vida. Sentava diante do computador e começava a navegar pelos sites de notícia, ávido pelas tragédias do dia. A qualidade variava, mas a quantidade de notícias era grande.

A economia prendia pouco a atenção. Talvez pelas tragédias terem consequências muito difusas e indiretas, Jota passava um olhar desatento para a quebradeira econômica. O resultado de todas aquelas crises apareceria à conta-gotas.

A política era mais interessante. Mesmo repetitivas, aquelas tragédias tinham ações. As ações econômicas ficavam restritas aos papéis na Bolsa. Na política as discussões mal encenadas e os ânimos exaltados lembravam um dramalhão mexicano, menos amoroso.

Essas tragédias difusas pareciam convergir para as tragédias do cotidiano. Muitas já eram vistas com um ar blasé. De tão recorrentes haviam perdido a capacidade de impacto. Mesmo assim, algumas pessoas caprichavam e conseguiam destaque.

Tragédias econômicas eram mais frequentes no noticiário internacional, com cifras maiores e consequências mais catastróficas. As políticas eram generalizadas; ultimamente o difícil era encontrar um lugarzinho sem escândalos. O interessante é que o destaque para as tragédias políticas estava diretamente vinculado com a economia. O povo pobre tinha muito destaque, desde que tivesse muito petróleo e pouca comida.

Nas semanas mais recentes Jota acompanhava com empolgação o ápice das tragédias. O big bang que se forma quando o buraco negro da sociedade não consegue absorver tanto absurdo e explode, incontrolável, pelo mundo.

De Suzano a Christchurch, não há cristo que detenha a explosão de fúria represada. Com um copo de café em uma das mãos e o mouse na outra, Jota expressava um leve sorriso no canto da boca ao ver as notícias.

O sorriso não era de satisfação nem de sadismo. Só não conseguia conter a reação diante de tanta análise cretina que lia a respeito das tragédias. Era como se as pessoas soltassem um copo de vidro e ficassem indignadas ao vê-lo se estilhaçar.

A cada manhã Jota repetia o ritual. Um copo de café e um passeio pelos sites, vendo os copos de vidro caindo lentamente, até se chocarem contra o chão e deixarem as pessoas embasbacadas, buscando estofados para o chão, proteção para os copos, um chão mais macio.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Outro aniversário, outro dia das mulheres.

  Não gosto mais de fazer aniversário já faz algum tempo.

  "Parabéns!" Parabéns pelo o quê? Eu como qualquer adolescente mal-humorado não pedi para nascer, não quis, não planejei, e nem escolhi o dia.

  Pelo mesmo motivo me irrito com o dia das mulheres, não pelo significado, as causas, a importância do dia socialmente, mas o "parabéns!" em si.

  Parabéns pelo quê, meu amigo? Não escolhi ser mulher, aconteceu biologicamente e imposto socialmente, certamente não seria minha primeira opção. Também uso calças e calcinhas e não gosto que fiquem insinuando o pré-conhecimento de minha genitália abertamente.

  Parabenize-me pelas coisas que tive opção, êxito, pelas que tive mérito.

  Dê-me no aniversário parabéns por ter aguentado mais um ano inteiro sem ter me matado ou matado alguém, por exemplo.

  Dê-me no dia das mulheres, parabéns por ter aguentado mais um ano aqui na segunda divisão.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Estações

BUTANTÃ

Geladão de coco com leite
Salgado seco no Charme de Paris
Um minuto para salvar as crianças da Unicef
Quando menina eu fui atropelada em frente à Padaria Estrela
A gente se encontra ali perto do elevador
Te trouxe coxinha, querido, você precisa comer alguma coisa
Tec Tec Tec Tec Tec
Não aguento mais essa bengala.

PINHEIROS

Tia Elza falou
Tia Elza pediu
Tia Elza rezou
Tia Elza sorriu
Tia Elza
Tia Elza
Tia Elza
Tia Elza foi minha madrinha de crisma

Tchelza, irmã da Tcholanda
O nome das duas sempre esteve na letra T da agenda telefônica

Tia Elza. Rua Atuaú, 107
E eu nunca soube, afinal, o quer dizer Atuaú.
(o Google está logo ali mas tem coisas que a gente não precisa saber)

- Mãe, eu tô cansado
- Mãe, eu quero água
- Mãe, eu tô com fome
- Calma, menino, a gente toma um lanche no final

(mas só no final, senão todo mundo fica triste
e não quer mais passear)

Barracão
Cunha Gago
Antônio Bicudo
Pedroso de Moraes
João Moura
E as pernas passam
Enormes
apressadas
convulsas
pelas calçadas infinitas da Teodoro Sampaio

- mas eu tô com fome, mãe!


FARIA LIMA

Bim Bão
Bim Bão
Bim Bão
Que bonito faz o sino
Da igreja que seu irmão casou
Abençoado padre Alberto
Que morreu lá na Itália
Bim Bão
Bim Bão
Bim Bão

Por que não tem batatas no Largo da Batata?


FRADIQUE COUTINHO

- Fradique é um frade bem pequenininho?


OSCAR FREIRE

- Isso é coisa de gente rica igual sua tia Vera, menino! 
Vamos, 
vamos tomar um lanche 
e voltar pra casa
que daqui a pouco vai chover.


PAULISTA

Entrei na rua Augusta a 120 por hora
Botei a turma toda do passeio pra fora
Laralaralararalaralará
Hay Hay Johnny
Hay Hay Alfredo

Ajuda sua mãe com louça, menino

Quando mocinha, eu era tirada pra dançar em todas as músicas

Mariana, depois vai com a mãe lá pra cima

Do Carmo
Ifigênia
Kimie
Dona Matilde
Cícero
Anas todas
Cidas todas
Marias todas
Goreth

(Orlando)

E a tarde cai
devagar
preguiçosa
sonolenta
levando com ela
a senhora da sacola verde
e os dois pequenos
gêmeos
que lhe seguem
gêmeos
pelas ruas
gêmeas
do Jardim Arpoador

HIGIENÓPOLIS - MACKENZIE

- Eu estudei até a quinta série
Mas tenho um filho que fez USP
O que mesmo você fez lá, querido?


REPÚBLICA

Não posso deixar de amar
alguém
que é mãe
de minha neta

Ricardo
        Lívia
             Flávia
                   Catarina
                              Júlia
                                    Bianca


LUZ

Até na Linha Amarela existe luz no fim do túnel.

A piada é boba
velha
sem graça
infame
igualzinho
à esperança.


SÃO BENTO

São Bento, águas claras
Jesus Cristo no alto
O que tiver de mal no meu caminho
Afaste para mim passar

- Mim não faz nada, mãe...
- Ê menino que não para de me corrigir! Oração não se corrige!




Quando menina eu namorei um menino chamado Jesus


LIBERDADE

A

m
a
ç
ã

sempre 
repartida
dividida
retalhada
uma 
fatia 
pra 
cada 
um
como
nosso 
senhor
fazia

até 
dia
em 
que 
escondi 
uma 
maçã 
na 
calcinha
saí 
pela 
rua

escondida            escondida
              livre  livre
           plena     plena
          só                    só

não 
sabia
o prazer
           que era ter
                            uma maçã inteirinha, vermelha, perfumada, brilhante, só pra mim.

SÃO JOAQUIM

Que bonita pode ser uma vida, 
meu Deus, 
entre a bolsa amniótica 
       e a bolsa de sangue.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Eita que quase que esqueço!

Valei-me, rapaziada!
Só agora me dei conta de que já são onze e onze da noite. 
Liguei meu PlayStation 4 para jogar ou assistir algo enquanto espero a liberação de Anthem (jogo da EA com a Bioware que será liberado pra quem comprou em pré-venda logo mais às duas da manhã), e lembrei de que hoje é 21, meu dia de postar pra vocês!

No mês passado, lembro que postei de dentro do ônibus, e por isso, uma postagem super simples e crua, direto do meu app no Android.

Hoje, entrei rapidinho aqui, pois queremos trazer conteúdo a quem espera tão carinhosamente!
fato é que a vida anda corrida por demais, e que sabemos que por isso, muitos não postaram/postam mais. De minha parte, peço desculpas. Ontem, eu havia lembrado da data, mas hoje, foi só por Deus... Cheguei há pouco do trampo (tenho dois empregos, e por isso, trabalho literalmente o dia todo).

Queria MUITO trazer algo com mais qualidade pra vocês, por isso, tomo a liberdade de recomendar a última postagem (a mais recente) que fiz no meu blog, falando um pouco sobre minhas impressões de um filme que pra mim já é um clássico, "As vantagens de ser invisível"!

Para me dar a honra de sua visita, basta clicar aqui nesse link!

Tenham todos um ótimo final de dia!

Mês que vem, espero trazer novidades! 
Grande abraço!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Ayahuasca - primeira tentativa

São Paulo começava a entrar no ritmo do carnaval, mesmo estando há dois fins de semana da festa. No metrô, próximo à última estação e já quase vazio, uma moça fantasiada usava o vidro do vagão como espelho para beliscar os mamilos e deixá-los salientes sob a blusa sem sutiã, rendendo piadas de seus dois amigos que formavam um casal.

Na contramão desse clima de prazeres carnais eu chegava para minha primeira experiência com o chá de ayahuasca, a bebida indígena conhecida por aguçar os sentidos e facilitar a busca pelo autoconhecimento daqueles que a provam.

Era um ritual urbano, bem diferente de toda a conexão com a natureza condizente com o histórico da bebida. Meu maior contato com a natureza naquele dia foi através do temporal que caía sobre os 400 metros que separam a casa, onde se realiza o ritual, da estação de metrô.

Conforme os participantes chegavam, preenchiam uma anamnese básica e assinavam o termo de participação, enquanto Rose, a coordenadora, falava um pouco sobre o Universo Místico – a associação com valores espirituais, que congrega religiões para, segundo Rose, evoluirmos como seres humanos. O chá, ou vegetal, como dizem os associados, é uma ferramenta a ser usada nessa evolução.

Uma das observações feitas por Rose é que não deveríamos criar expectativas sobre como será a experiência com a ayahuasca. Justo eu, que não consigo ir à padaria sem a expectativa de que algo surpreendente aconteça no caminho? Eu já tinha ouvido relatos suficientes para que a falta expectativas estivesse fora de questão.

Preferia não ter diarreia. Eu sempre prefiro não ter diarreia. Se desse para não vomitar, também seria bom; ainda mais sozinho entre duas dezenas de desconhecidos. Já eventuais alucinações seriam bem-vindas, mesmo que desnecessárias quando o objetivo é o autoconhecimento, eu ficaria bem satisfeito em me sentir dentro de uma pintura de Salvador Dalí.

O fato é que as expectativas são ruins porque aos que bebem o chá pode acontecer de tudo, inclusive nada. Adoraria seguir com estórias extraordinárias, mas bebi a primeira dose e fiquei sentado na sala levemente iluminada por uma luz azul, ouvindo mantras orientais intercalados por músicas com referências ao cristianismo. Nada mais.

Bebi a segunda dose. O chá é levemente adocicado, um pouco amargo da fermentação. Desanimado com a falta de reação comecei a sentir um leve enjoo acompanhado de queda de pressão. Os organizadores haviam dito que isso poderia acontecer, e foi o que me salvou de não ter nenhuma reação para contar.

Levantei e saí da sala. Seguia determinado a não vomitar (nem desmaiar) entre desconhecidos. Sobretudo agora, quando estavam concentrados, muitos curtindo o transe em que não entrei. Mas não cheguei ao extremo. Lavar o rosto e esperar um pouco, olhando a chuva que insistia em cair do lado de fora, foi suficiente para que eu me recuperasse e voltasse ao ritual.

A ayahuasca é imprevisível. Mesmo os adeptos mais antigos não sabem qual será a reação do corpo. Entre tudo o que poderia ter me acontecido, não me aconteceu nada. Talvez pela falta de um rito mais elaborado, quem sabe as músicas voltadas ao cristianismo que tanto me incomodaram, mas não consegui um transe ou uma reflexão mais ampla do que estou habituado.

Não desisti. Acredito que apenas após essa experiência conseguirei seguir a recomendação que me foi dada. Da próxima vez, não terei expectativas.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Não acredito que disse isso

É fevereiro, véspera de carnaval.
Sei disso porque moro perto de umas ruas que recebem multidões, escuto o barulho.

O carnaval é imparável, tatuado na alma do brasileiro. Nem no meio do pior fevereiro da história do país, ele para.

Se passaram apenas quarenta dias desde o começo do ano e já sentimos o peso, como se fossem cinco anos. Tudo parece desmoronar, explodir, arrebentar, sair voando.

Dá a impressão de que março não vai chegar à tempo, tudo vai sumir antes.
Mas brasileiro resiste, ainda mais se a data estiver perto do carnaval. Nele ninguém encosta, o país pode virar pó, mas o carnaval fica inteiro.

E apesar de não ser fã do carnaval, fico feliz este ano, sei que pelo menos vai trazer um pouco de alegria, aliviar o ar, tirar a melancolia do nosso cotidiano.

Nunca pensei que iria dizer algo assim, mas é verdade, a chegada do carnaval pode melhorar os ânimos e fazer as pessoas esquecerem durante uns dias que o país navega no meio de uma tempestade.

Abençoado carnaval. Até pessoas que não gostam da data, como eu, estão ansiosas por um pouco de felicidade no ar.

Bem vindo. 

Iara De Dupont 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Sobre a vida

1-
A vida é uma merda.
a gente enrola, coloca granulado e fala que é brigadeiro.
Mas é uma bosta.

2-
A vida é como sair de casa e achar uma nota de dois reais:
você fica feliz, compra um picolé, senta na praça, se sente feliz e com sorte.
Quando chega em casa percebe que perdeu a nota de cinquenta reais que tinha no bolso.

Moral da história: aproveite as pequenas alegrias, pois são elas que fazem a vida ser boa, entre pequenas alegrias terão grandes tristezas e você terá que lidar com tudo da melhor maneira possível.
Moral da história: a vida é uma bosta.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Histórias a dois.


Já pensou em ser vento? Uma espécie de super-heróina, só que invisível? Não, só o vento mesmo, sem super poderes. Não se é o vento, o vento é só ar em movimento. Quer ser ar? Não, quero ser eu mesma mas, às vezes, penso que seria bom ser vento. Sabe o que te falta? Imaginação? Loucura!
Na cama, adormeceram de frente um para o outro. Apenas as mãos e o ar que expiravam era toque.
Ele acordou primeiro, na verdade tem dúvidas até se chegou a dormir, a cabeça ficou às voltas, maquinando. De frente ao espelho do banheiro, só lhe sobrou uma dúvida: batom vermelho ou lápis de olho preto. Os olhos ardendo e o sorriso na boca emoldurando o fundo, das letras gigantes, no vidro: “Em tempos sombrios se manter lúcido é loucura”.
Quando ela viu, o sorriso escapou da boca instantaneamente, foi engraçado acordar.
Ao voltarem para cama, na noite seguinte, os olhos dele ainda ardiam.
Tudo isso é alegria, ainda? Fiquei pintando espelhos o dia todo. Mentira! Foi loucura! E o que escreveu? “Lula Livre”


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

2019

Hoje,
Era para ter um texto aqui.
Daqueles imensos, 
A perder de vista 
E de rolar o dedo várias vezes no mouse.
Mas não foi desta vez.
Também não foi a falta de tempo
Tempo até teve, meio que apertado
Assunto não faltava
Minha nossa na verdade os temas sobram: 
é da reforma da previdência, 
a reforma do trabalho, 
da extinção no futuro do trabalho 
e atual políticas sociais, 
a posse de armas ao porte de armas, 
violências e suas variadas e infinitas gêneses.
Ainda etc, mais eteceteras
Temas é igual etc, não acaba.
Ao chegar foi do pão e kiwi.
Porque nas férias ócio é vício.
E cozinhar é a última coisa a fazer.
Arrumar e ajeitar também
Mas houve meia exceção, na casa.
Entre notícias variadas
A que deixa consternada ao re-ler.
Brumadinho.
Assassinatos mais de 200 pessoas desaparecidas
Motivos: irresponsabilidades, crimes
Da única reincidente: Vale.
Justificativa: ganância, poder 
Várias pessoas desabrigadas.
Rios e matas destruídos,
Animais sacrificados 
Ecossistema perdido e desfeito.
Sem valor em notas que os mereça.
Tristeza.
Até para falar dela é preciso ter jeito
É necessário refletir
Dizem que quando o ano começa difícil
É porque vai terminar bem
Não sei se é assim
E no quanto acredito nisso
O que posso dizer:
Quando o ano começar:
Seja em fevereiro ou em março
É que alguma palavra terá.
No concreto é vai ter ou terá?
Como se isso importasse,
Foda, 
Isso às vezes importa 
Mais que o(s) texto(s).
Pra mim, no momento não.
É pra mim ou p-a-r-a mim. 
?
Mesmo com extrema dificuldade
No quase extrair água da pedra.
Por que escrever é sentir
E se não sentir
As palavras são vazias
Ocas
Iguais o que a gente lê por aí
Lê não
Na verdade a gente passo os olhos
Sem sentir.
A gente passa os olhos.
Qualquer dia desses escrevo por aqui a fina flor da caneta bic
Vou descer e subir montanhas e morros
Como feito em alguns processos fakes.
Porque assim dá para ser igual
Aos que querem escrever mais não deixam.
Especialmente adolescentes, 
pessoas consideradas de idade avançada para retomar os estudos.
Justificado nos: 
A sua letra é feia, 
A você erra a gramática, acaba com o português
Hater é mato.
E escrever é exercício
Além de sentir e sentir.
Escrever só parece fácil 
Mas não é
Nisso ela, C.L estava certa:
Escrever é mesmo perigoso.
Por ora
Em janeiro
Que haja
Paciência
Em abundância 
E em demasia
Com as palavras.
Porque neste mês jurava que fosse escrever
Escrever parece fácil
Só parece, 
Até tentar,
Não deu.
Acabei de comprovar 
Porque em casa de ferreiro o espeto é de pau.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Poeminha coisado

Tinha uma pedra no meio do caminho.
Tinha uma coisa no meio do caminho.
Tinha uma coisa no meio do coiso.
Tinha uma coisa no coiso do coiso.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Muros novos para ideias velhas


Os muros são a nova tendência. Nunca chegam a sair de moda, mas às vezes são deixados um pouco de lado, como depois que derrubaram o de Berlim. Agora é diferente. Resgataram a ideia de que um muro pode resolver problemas e começam a aparecer todos os problemas que essa ideia maluca acarreta.

Um muro nem é o mais grave. São de tijolos e cimento, destrutíveis com relativa facilidade. O pior é que quando chegam ao extremo de construir um muro, não se faz nada além de tornar visível e palpável um muro que já existe.

Alguns tijolos de medo são sempre o alicerce. À partir dessa base fica mais fácil colocar mais tijolos de preconceitos, mentiras, arrogância e tantos outros que tentam justificar absurdos.

Com isso o muro fica pronto, só não está visível ainda. É a parte mais difícil de ser demolida. Não tem dinamite que consiga derrubar o muro psicológico que se ergue com base em ideias, normalmente sem nenhum sentido.

O muro físico é um alvo, uma meta, um desafio a ser transposto. Construído, o muro canaliza as críticas dos que são contrários às barreiras. Antes da construção o muro já existe, mas é capilarizado, interiorizado em seus alvos.

Aqueles que querem construí-lo têm certeza quanto suas justificativas e necessidades, os que estão do outro lado não enxergam as barreiras, mas sentem na pele a existência invisível de um muro que os separa dos demais.

Demora um pouco, mas a moda dos muros passa, até que alguém acredita ter uma brilhante e inovadora ideia. Construir. Novamente construir um muro, que nos obriga a regredir à fase de explicações e desconstruções de ideias malucas. Justo quando achávamos que a preocupação era demolir o muro ainda não construído fisicamente.


sábado, 12 de janeiro de 2019

O caos

Uma amiga norueguesa me disse ''parece que vocês brasileiros gostam do caos''.

Eu não diria que gostamos do caos, mas sim, estamos tão acostumados ao caos que nem prestamos mais atenção em nada.

É terrível viver assim, porque o caos acontece ao nosso redor e não mudamos nada, parece que faz parte da paisagem. Entra governo, sai governo e o caos continua o mesmo, e nem reparamos nisso.

Somos o país do caos, do calor, do barulho. O problema é que não agimos como cidadãos, mas como  baratas tontas indo de um lado ao outro e pagando impostos. Nossa qualidade de vida é ruim, mas o que não é ruim no meio do caos?

Os números de violência urbana superam os números de uma guerra, a falta de serviços públicos está no mesmo patamar de países que vivem no limite.

Mas nós estamos acostumados com o caos, nem o questionamos mais.

Agora temos um governo caótico, sem ideia do que estão fazendo e depois de dez dias de caos, já nos acostumamos a ouvir barbaridades sobre os nossos direitos e nem reagimos mais.

O caos não é maneira de viver, nem de estar. Nem deveria ser um ''sistema'' em nenhum lugar. Mas é tanto caos que nem sabemos mais, porque tudo é um caos. É o caos.

Iara De Dupont

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Tequila


 Tudo corria dentro do planejado.
  Eu adoro o planejado e planejar, cronogramas, esquemas...

  Dia oito de outubro começou com um gosto amargo, como se acordássemos em um Universo paralelo, um episódio de "Além da Imaginação"; seriamos governados pelo tiozão do pavê, e reelegemos o  moço que era motivo do meu atual desemprego.
  Azia mental.

  Á noite, chegou molhada, enrolada em uma toalha, com os olhinhos furados, gritando a bons pulmões, 250 gramas de bebê de gato.
  Desde aquele dia não dormi uma noite inteira mais, não tive mais nenhum dos meus dias previsíveis.
  Desmarquei minhas viagens e compliquei minhas saídas, como um efeito dominó entre melhoras e recaídas do serzinho, quase perdi minha idosinha, me contaminei com ela, filho doente, cansaço.
  
  Ontem, ela retirou um dos olhos, ainda me dando mais trabalho do podia imaginar, agora com quase dois quilos é uma das coisas mais fofas que tenho o prazer de conhecer.

  Espero a médio prazo recuperar minha vidinha previsível.
  Começo 2019 cansada, ainda mais pobre, sem nenhum controle do dia seguinte, de cabelos grisalhos e sem corte, unhas desfeitas, olheiras e nem consegui lavar a louça ainda.
  Ao menos estou em boa companhia.