E o bar será sua segunda casa, seu “Bar, doce lar” como seus amigos dirão – os que ainda restarem, se é que restará algum, já que o Divórcio não costuma tolerar concorrentes. E quando você estiver no bar, tarde da noite, só mais dois ou três velhos palitando dentes ou cantarolando boleros, quando as portas já estiverem baixadas e o dono bigodudo começar a te olhar de modo insinuante, como quem diz ou fode ou sai de cima, o Divórcio sentará ao seu lado e pedirá uma cerveja e encherá o seu copo e o dele. Gentil como ele só, encherá o seu primeiro. Entre uma bebericada e outra, Ele lhe dirá coisas, lhe aconselhará a ficar o máximo tempo possível naquele bar, porque absolutamente qualquer outro lugar do mundo (e o Divórcio até deixará escapar um pouco de saliva ao lhe lembrar disso) será melhor do que aquele seu quarto alugado, de paredes mal pintadas, mobiliado apenas com aquela sua patética cama-box de solteiro, do guarda-roupa meio mofado de duas portas e de uma reprodução já meio amarelada de um dos quadros mais amarelados de Van Gogh. E você virará aquele copo e o próximo e pedirá outra garrafa (porque o Divórcio lhe ensinará muitas e impensáveis coisas, entre elas beber, mas beber mesmo, quantas garrafas for preciso, e sem fazer aquela sua tradicional cara de bebê tomando remédio) e beberá até a companhia do Divórcio lhe parecer aceitável, tolerável, por que não dizer desejável? Mas você precisará tomar cuidado, bastante cuidado, porque depois da sétima ou oitava garrafa, é bem capaz de você não conseguir mais enxergar os contornos do Divórcio e achar que Ele nem existe mais. Depois da sétima ou oitava garrafa, será você quem vai cantarolar o bolero e pedirá uma garrafa para cada um dos velhos, beijará na boca o dono bigodudo do bar e chorará em seus ombros assim que ouvir as primeiras notas do tema de abertura do filme noir que nesse momento vai começar (na TV que nunca é desligada, logo acima da geladeira de refrigerantes), lhe lembrando que é noite, que você está num bar sujo e que ninguém, absolutamente ninguém, te espera em casa.
segunda-feira, 22 de julho de 2019
sábado, 20 de julho de 2019
Chernobyl à brasileira
Membros do alto escalão do governo se unindo para omitir da população um mal invisível e letal, que ao longo dos anos faz com que a quantidade de pessoas com câncer aumente drasticamente. A série Chernobyl trouxe esse cenário macabro à tona e muitas vezes não percebemos o quanto essa realidade está próxima dos brasileiros.
Isso nada tem a ver com as duas usinas nucleares de Angra. O problema aqui são os agrotóxicos, que os ruralistas querem chamar de defensivos agrícolas ou produtos fitossanitários. Eufemismos para veneno.
Não é de hoje que o Brasil utiliza agrotóxicos proibidos em outros países. Também não é de hoje a pressão da bancada ruralista para que agrotóxicos ainda mais nocivos sejam liberados, com o pretexto de aumentar a produção e reduzir o preço final.
A novidade é que com o novo governo a liberação de novos agrotóxicos tem acontecido com uma rapidez nunca antes vista. Só neste ano, até o fim de junho, foram liberados 239 novos agrotóxicos. Um recorde inglório para um país que já não tinha bom retrospecto em relação aos venenos utilizados na lavoura.
Alegar que menos agrotóxicos traria prejuízo econômico é ignorar o custo incalculável do impacto que o veneno traz ao meio ambiente. A água contaminada desde o campo até a cidade, por produtos que não são eliminados após o tratamento, será consumida pela população, com efeitos diretos sobre o sistema de saúde.
É impossível estabelecer uma relação de causa e efeito inquestionável entre um problema de saúde e o uso intensivo de agrotóxicos, porém os danos à saúde da população é o que faz qualquer país, capitalista, que visa o lucro, vetar produtos que vêm sendo liberados amplamente no Brasil.
Oficialmente o desastre de Chernobyl teve 31 mortes confirmadas. Um número patético para uma tragédia daquela magnitude. Não é possível calcular o número exato. O perigo era invisível e a relação de causa e efeito com as mortes sempre foram questionadas pelo governo. Destino triste para uma população negligenciada pelo governo.
sexta-feira, 12 de julho de 2019
Voando
Já estamos no começo do segundo semestre, metade do ano. E passou voando. Digo, lento, mas voando. Tem sido um ano duro, cheio de surpresas ruins, mas resistimos, porque somos bons nisso, na resistência.
Mas sempre fica aquela pergunta, até quando poderemos resistir a tantas barbaridades? Que tão longe podemos ir debaixo de todas as pancadas sociais possíveis e impossíveis?
É difícil se concentrar na própria vida quando vivemos em um país cheio de incertezas e governado pelos piores tipos de pessoas. É tenso pensar em sobreviver quando todos os dias mudam o jogo.
Mas temos que seguir. Os livros de história nos apoiam e garantem: já enfrentamos touros mais ferozes, podemos enfrentar mais um, apesar do cansaço que sentimos.
Dizem que tempos melhores vão chegar. Estamos ansiosos. Esperamos que cheguem logo. Até lá só nos resta resistir.
Iara De Dupont
sábado, 22 de junho de 2019
Silance
silance.
Silvana
já tinha saído e levara Cecília com ela. silance.
Uma para o trabalho, a outra para a creche e a merda toda era que eu
sabia. silance.
Sil de Silvana, An, de Antônio e Ce, de Cecília. silance
a dela, ancesil
a minha, eis as senhas de e-mail e de tudo, do casalzinho perfeito
que compartilha senhas, cafonices do tempo em que ainda não sabiam
que haveria o Divórcio. siltice,
seria a senha de Silvana quando assumisse tudo com Tião? Sim, só
podia ser o Tião. E decerto estava sendo incentivado pelo casalzinho
zoroastra. Aquela disciplina inédita de Silvana na academia não
podia ter outro motivo. Na academia frequentada pelos quatro.
silance,
e a merda toda era que eu sabia. Eu estava sozinho e o computador bem
ali na frente. silance.
Bastava alguns cliques e as trocas de confidências, os planos para
foder (na sua casa ou na minha? O Antônio está num congresso no
interior hoje, ele nunca vai saber) estariam todos ali. Eu
aguentaria? silance.
A nossa cama. Foderiam na nossa cama assim que eu botasse os pés
pra fora?
silance
e tudo estaria ali. Revelado. silance.
A tela do computador levantada. silance.
A tecla de ligar acionada. silance.
O endereço de e-mail acessado. Silêncio.
quinta-feira, 20 de junho de 2019
Cometer ou combater
Foi no curso pré-vestibular que o professor de história, daqueles raros apaixonados pela profissão, disse com brilho nos olhos que a conquista de leis escritas havia sido um grande marco na história da humanidade.
Eu, inocente, para não dizer outra coisa, fiquei pensando em tantas outras conquistas e invenções que poderiam, na minha cabeça, ser mais relevantes que pegar um papel e escrever um conjunto de leis.
A experiência do velho professor parece ter lido em meus olhos, e quem sabe essa não teria sido uma dúvida geral da classe de jovens inexperientes, que um papel escrito não parecia lá grandes coisas.
E lá foi a sala toda ouvir o óbvio. Se as leis não estão escritas qualquer um – sobretudo figura ligada ao judiciário – pode inventar que determinado comportamento é crime, só para punir um suposto réu com o qual tem algum tipo de desavença.
Não sei, naquela época, se ao saber que acusação e juiz estavam mancomunados contra o réu, minha reação seria de indiferença, mas são absurdos equivalentes, tanto a hipótese de inventar uma lei para punir uma pessoa específica quanto forjar um julgamento por baixo dos panos virtuais do Telegram.
Dizer que estando certo ou errado o importante é ter barrado o maior escândalo de corrupção da história da humanidade, que rendeu um ap no Guarujá, é um atestado de culpa. Se o escândalo era tão grande e notório, não precisaria de conluio, bastariam as provas.
E assim seguimos com mais um capítulo baseado em cometer um absurdo para supostamente combater um absurdo. Assim toleramos uma ditadura para combater a ditadura, toleramos armas para combater a violência, toleramos perder direitos trabalhistas para combater a precarização do trabalho. Haja tolerância.
quinta-feira, 13 de junho de 2019
não confundam as bolas - parte 1
NÃO CONFUNDAM AS BOLAS!!!
É GREVE GERAL!!!!
É APOIO IRRESTRITO
AS TRABALHADORAS
AOS TRABALHADORES
AINDA QUE A GREVE FOSSE DE UMA FÁBRICA FUNDO DE QUINTAL
COM 2/3 TRABALHADORES
SE O TRABALHADOR REIVINDICA GREVE
EXISTEM MOTIVOS!
AINDA QUE NO GOVERNO TIVESSE UM PRESIDENTE CONSIDERADO DE ESQUERDA
GREVE É GREVE
GREVE GERAL É GREVE GERAL!
"...Ontem o mundo me expulsou da vida. Hoje a vida nasceu.
Ventania, muita ventania. Que instabilidade. Me muero.
Vivo no futuro da ventania.
Por que é que tudo se diz: fica para a semana que vem?
Eu estou aqui, aqui à espera.
Vivo agora e o resto que vá para a puta que o pariu...." (Clarice Lispector)
quarta-feira, 12 de junho de 2019
Caos
Já estamos no meio do ano. E tudo continua em uma frequência estranha, como que suspenso no ar, esperando algo mudar, uma coisa melhorar, mas as nuvens permanecem no mesmo lugar, não se mexem.
E por que isso? Não sei. Muitos dizem que é culpa de uma política estagnada, que deixou todos sem saber o que fazer, é preciso esperar que o tempo passe para desenhar o panorama. Mas somos um país enorme, temos esse tempo para esperar?
E quanto mais podemos esperar que as coisas melhorem? Quantos anos mais podemos aguardar deixar de ser o país do futuro e virar o país do presente?
O ar que se respira é de desânimo, o pior de todos.
O caos é ético, moral. A bagunça é de falta de caráter. A confusão vem da violência.
Meu Deus, hoje é o dia dos namorados! Esqueci! No meio das cores da bandeira, tão suja, esqueci disso! O amarelo, verde e azul viraram cores desbotadas, sem vontade de reagir. E quem está com energia para reagir? Até a bandeira parece se arrastar nos dias longos de uma pátria que lentamente perde seu brilho, que afunda seu nome.
Hoje é dia dos namorados. Feliz dia dos namorados a todos, feliz dia nesta pátria que um dia já foi dourada, hoje ninguém reconhece suas cores.
Iara De Dupont
quarta-feira, 22 de maio de 2019
Matilda e o filme que já foi visto
Estou lendo Matilda pra Júlia, minha filha de 6 anos. Ele foi escrito por Roald Dahl, no País de Gales, em 1988. Eu o li pela primeira vez no fim dos anos 90 e, apesar de ter adorado o livro, achava os pais de Matilda caricatos demais, não achava que aquilo podia existir de verdade, que ninguém precisava ter que explicar para alguém o que a Srta. Mel, a professora de Matilda, explica para eles. Até que, relendo o livro agora, dou de cara com um diálogo que acompanhamos todos os dias no sombrio Brasil de 2019. Como é triste perceber o quanto retrocedemos. Reproduzo as páginas abaixo.
De todo modo, apesar desse triste reconhecimento num livro caricato escrito há 3 décadas, recomendo muito a leitura de Matilda e de toda a obra de Roald Dahl (A fantástica fábrica de chocolate, por exemplo). Ele escreve respeitando a inteligência das crianças e permite discussões importantes, como essa trazida nas páginas a seguir.


terça-feira, 21 de maio de 2019
LDL, séries e música
Olá queridos e queridas aqui do Blog das 30 Pessoas!
Mês passado tive um lapso e acabei esquecendo da postagem. Quando fui lembrar, já era pra lá do dia 25, e por isso, deixei pra estar aqui no dia certo, que cabe a mim há alguns anos.
Como novidade tenho que minha alimentação mudou 100% (pra melhor). No finalzinho de março, senti uma fadigação, fui aferir minha pressão e estava 13/8. Minha pressão nunca havia saído dos tradicionais 12/8, a não ser quando era criança/adolescente, e por causa de um problema no sangue (o qual já não tenho mais, obrigado por perguntar), ela caía quase sempre. Fiz exames de sangue durante muitos meses seguidos. Mas isso é passado.
Trocando em miúdos, fui ao cardiologista, fiz os exames que ele pediu. Tudo bem comigo, a não ser pelo detalhe de o meu colesterol ruim (LDL) estar alto demais para minha idade. Nem tão aaaaalto assim, mas acima do normal. Eu nunca fui de exagerar em frituras e gorduras (nem curto mesmo). Meu triglicérides está excelente, até abaixo do que deveria estar. E por isso o médico acreditou quando eu disse não comer bobeiras.
Mas receitou um remédio, que ainda estou tomando, caminhar, e cuidado na alimentação.
Para isso, conto com uma nutricionista.
![]() |
| Imagem aleatória só pra ilustrar o post. |
E foi por isso que minha alimentação mudou 100%. Confesso que estou amando, pois poder fechar o cadarço de meus tênis, sem quase morrer quando me abaixo, é uma recompensa maravilhosa, depois de ter me acostumado à dieta e caminhadas.
Na realidade, precisei intercalar minhas caminhadas com ergométrica. Como saí do total sedentarismo para 6 km diários de caminhadas, começando às 05h30 da manhã, óbvio que meu corpo não suportou. Meu tornozelo esquerdo foi vítima de uma luxação, quando tinha 11 anos de idade. E esse mesmo pé apresentou uma dor muito forte nessas últimas semanas, segundo minha nutricionista, por causa da minha caminhada diária. Atualmente tenho feito então meia hora de ergométrica todos os dias, deixando assim meu pé curar em sua totalidade.
Queria comentar sobre Game of Thrones, que acabou no último domingo, dia 19 (eu curti o final) e também falar da série que elegi para começar a assistir após o término da produção da HBO. Trata-se de "The Umbrella Academy", disponível na Netflix. No momento em que escrevo esse post, acabei de terminar de ver o terceiro episódio. Como são episódios com 50 minutos em média de duração, não consigo ver dois seguidos, agora na hora do almoço. Eu vejo sempre 2 por dia das séries que acompanho (disponíveis em streaming, claro) porque assim não enrola tanto para acabar. 10 episódios vão em 5 dias fáceis!
Como no mês passado não estive aqui, resolvi usar esses minutos que antecedem meu retorno ao trabalho para postar pra vocês.
É isso, minha gente.
Espero que todos(as) tenham um excelente final de dia 21! Mês que vem, temos um encontro marcado aqui! E espero que eu esteja ainda mais em forma do que já estou! Emagrecer é uma dádiva quando se está perto dos quarenta, pois sabemos que nosso metabolismo fica mais devagar com o passar dos anos.
Como de costume, deixo aqui uma música para vocês curtirem comigo. E vou deixar também o trailer de "The Umbrella Academy", caso tenha se interessado em ver comigo!
Até mais, minha gente! Aquele abraço!
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segunda-feira, 20 de maio de 2019
Mega-Sena acumulada
Otávio nunca imaginou que uma Mega-Sena acumulada poderia causar tantos problemas. Tudo começou naquele fim de tarde monótono, quando a secretária do escritório levantou a bola. “Eu, se ganhasse, ia viajar o mundo.”
A sequência de sonhos foi rápida e extensa. Não faltaram Ferraris, iates, mansões, viagens e até ações gratuitas, ao alcance de todos, mas que precisavam de um suporte milionário por trás, como mandar o chefe à merda.
Otávio matutava em seu cantinho quando baixou o silêncio e alguém notara que ele não havia dito nada. “E você, Otávio?” Foi objetivo, logo no maior desejo: “Eu ia comprar uma bicicleta.”
Ficou meio perdido entre os risos que seguiram. Será que deveria ter detalhado melhor? Era uma bicicleta de 21 marchas, profissional, inteirinha vermelha. Achou melhor deixar o assunto morrer e perguntar para a secretária, em quem confiava, qual o problema com a bicicleta.
“Não tem problema nenhum, Otávio. Mas o prêmio está acumulado, são mais de 200 milhões, dá para comprar uma fábrica de bicicletas!”
Agora sim o caldo entornou. Muita gente estava dizendo que só ia apostar porque o prêmio estava acumulado. Mas por que esperar acumular tanto dinheiro? O fato é que precisava encontrar novas formas de gastar o prêmio, para o qual ainda nem havia jogado.
A noite foi de angústia. Rolava de um lado para o outro da cama. Poderia comprar uma televisão maior ou trocar a tela do celular, que há tempos estava trincada. De repente esnobar e passar uma semana inteira em Caldas Novas! Mas talvez ainda sobrasse dinheiro.
Se pelo menos soubesse dirigir poderia dizer que compraria a tal da Ferrari. Um iate não ia dar certo, pois mal sabia nadar. Uma mansão seria trabalhoso demais! Se manter o cafofo limpo e arrumado já era cansativo! Lembrou de alguém dizendo que ia comprar uma fazenda. Se esse sujeito soubesse o trabalho que dá carpinar um lote, jamais diria uma bobagem dessas.
No dia seguinte, exausto pela noite em claro, já chegava no escritório quando viu um morador de rua. É isso! Ali estava a solução. Não abriria mão da bicicleta, nem da semana em Caldas Novas, mas poderia usar o dinheiro para ajudar os pobres! Já tinha uma resposta e um motivo pelo qual jogar.
Era o último dia de apostas e Otávio levava a resposta na ponta da língua. Desta vez a rodada de sonhos começou logo de manhã. Não variou muito, as mesmas Ferraris, os mesmos iates, as mesmas mansões, etc. Na vez de Otávio a expectativa aumentou. Como já havia falado da bicicleta, resolveu pular essa parte. “Eu ia viajar... e ajudar quem precisa.” “Ô, madre Tereza, ficou louco?”
Era só o que faltava. Ainda não estava bom! Perdeu a última cartada e não fazia ideia de como iria gastar o dinheiro do prêmio. Seria um dia longo, pensando e repensando. Dificilmente encontraria algo que já não tenha cogitado durante a noite que passou em claro.
Não tocou mais no assunto. Ficou, como de costume, quieto em seu canto. A Mega-Sena foi assunto do dia, mas desistiram de perguntar a ele o que faria com o prêmio. Perdeu toda a hora de almoço na fila imensa da lotérica, mas voltou para o escritório com o maldito papel nas mãos, o comprovante da aposta, que lhe tirara, literalmente, o sono.
À noite segurou o papel nas mãos, enrolou tudo com um terço e sentou na frente da tevê, para assistir ao vivo ao sorteio. Assim que começou a transmissão começou a rezar, com uma fé que nem sabia que tinha. Suava a ponto de borrar todo o papel da aposta.
Em poucos minutos estava tudo resolvido. Brilhava na tela a materialização de seu maior sonho. As preces haviam sido atendidas e seu maior desejo havia se realizado. Não acertou um único número entre os seis sorteados.
domingo, 12 de maio de 2019
Previsões
A meteorologia disse que estes últimos dias seriam os mais frios de maio, um frio não visto desde 1940.
Quando saí de casa lembrei disso e coloquei uma blusa de lã. O dia inteiro passei mal pelo calor, coisas de São Paulo, o clima sempre vira, nunca é o que dizem que vai ser.
Todas as previsões erram.
Mas será que não é assim na nossa vida também? Erramos todas previsões! Tantas coisas pensamos que vão por um caminho e vão por outras. Tantas vezes entramos em um relacionamento quente que termina frio ou um frio que começa quente. Nunca se sabe.
A meteorologia é o reflexo de nossa existência, poucas certezas, muitas suposições. Só sabemos quando o dia vai ser quente quando estamos debaixo do sol, da certeza da luz. Só sabemos que o dia vai ser frio quando sentimos o gelo cruzando nossa pele. A vida é assim, só sabemos o que acontece enquanto está acontecendo, nem antes, nem depois. Não serve carregar o casaco, o guarda-chuva, a blusa mais leve. Na hora que saímos de casa não sabemos que ventos nos esperam nem aonde vão nos levar.
Parece que a meteorologia falhou, mas é apenas a vida sendo o que é.
Iara De Dupont
quarta-feira, 8 de maio de 2019
Sinais de que a idade está chegando (além das rugas):
Você reavalia a possibilidade de viajar pelo trânsito, malas, se tem alguém para regar as plantas ou cuidar dos bichinhos.
Sair sem arrumar/pentear o cabelo não é mais uma opção.
Percebe que tem que aprender a se maquiar sozinha e fica parecendo a mãe Dináh.
Lugares que te aceitam de chinelo ganham um quê especial.
Visita parentes por que "eles podem não estar aqui ano que vem".
A farmacinha tem mais remédios e você os sabe de cor.
Crianças de qualquer idade começam a te irritar, inclusive as de vinte.
Fast food, achocolatado, balas e outras guloseimas ficam raros na dieta.
Fritura dá asia, pinga, whisky ,vodca barata e vinho de 5 litros te dão asia.
Ressacas perdem o glamour.
Você acha que são três da manhã na balada, mas são onze e meia.
Ir embora para de precisar de muitos motivos além do "pra mim já deu" "tô cansado" ou "acordo cedo amanhã".
Ninguém é mais tão incrível ou horrível, todo mundo é mero mas ou menos.
Não dá pra saber mais a idade dos outros só olhando pra eles.
Você começa a usar a expressão "ainda sou jovem".
Se pega entregando seu celular com problemas para uma criança resolver.
Manda e-mail ou telefona do fixo.
Tem dúvidas se aquele pelo ou aquela pinta estavam ali antes.
Quando quer postar uma foto antiga sua, tem que escanear primeiro; dá preguiça e tira uma foto da foto com uma mancha de flash no canto.
Observa que seu set list só tem músicas gravadas há mais de quinze anos.
Sol e chuva são diretamente ligados a roupas no varal.
Insiste em acentuar "ideia" e colocar trema aonde tinha.
Planeja dormir até as onze, desperta às oito e cochila às três da tarde.
terça-feira, 30 de abril de 2019
a velha está a todo vapor
Alguém fez um comentário um tempo atrás sobre o governo miliciano e sobre
a forma política como o presidente e os filhos milicianos conduzem a g-jestão governamental.
Segundo o comentário do político com muita experiência em São Paulo e candidato
à presidência algumas vezes, a política (das milícias) do atual governo não
tinha nada de parecido com a “ velha política “.
A justificativa dada foi de que não se tratava de "velha política" porque simplesmente não havia troca e, portanto, não
tinha característica de "velha política".
A partir deste comentário foi possível deduzir o quanto os políticos
carreiristas mantem o hábito de subestimar a análise e/ou leitura popular da
realidade na qual estão inseridos.
A velha política e/ou balcão de negócios destina-se a negociar as emendas,
orçamento público, estatais e recursos naturais em troca de financiamento de
seus partidos políticos e aliados, empresas privadas normalmente familiares e
apoio para aprovar projetos de leis dos quais o mantenham no poder.
A leitura de todos os projetos de lei e ações do governo miliciano
nestes quatro meses que se passaram foram basicamente ações de cunho
alicerçados na velha política.
A ida do presidente aos states demonstra perfeitamente a forma
miliciana com viés ultraconservador, militar e de velha política baseada no
balcão de negócios em nível internacional.
A intenção de privatizar a principal empresa estatal e referência
mundial de extração de petróleo com anúncios constantes de que o país está aberto
ao capital de investidores estrangeiros demonstra não só a velha política, mas
uma disposição enorme de manutenção de velhos acordos.
A privatização de aeroportos e pouco que resta de empresas estatais e
recursos naturais demonstram a indisposição para não citar a incapacidade de
gerir algo que não se pode controlar ao assumir cargos políticos seja como presidente, governador e/ou prefeito.
A proposta de reforma trabalhista já aprovada e das quais já
sentimos os efeitos e atual reforma da previdenciária com mais de 100 milhões de pessoas
inseridas sendo contribuintes e/ou beneficiárias demonstram a vazão de velhos
conceitos políticos e ações baseadas em trocas. Daí cabe aos experientes no exercício do ato explicar a população o que é de fato a política e de como ela serve mais aos ricos do que aos pobres (aqui nos pobres está inserida a classe média em todos os níveis).
A menor manifestação e reivindicação de direitos é justificada por
todos os níveis da esfera governamental naquela frase – depende do orçamento/da
verba pública – o que talvez seja a premissa mais do que constatada de que quem
controla o estado e as decisões econômicas são de fato aqueles poucos que detém o dinheiro.
Assim, então para que serve-nos o estado? Não é através do estado que as
relações de poder e relações econômicas são mediadas?
A quem diga com registro de historiadores, filósofos, sociólogos de
que se não fossem as parcas mediações com advento democrático através de políticas
sociais e públicas que caem em gotas para a redução das desigualdades de que os pobres
travariam constantes guerras civis em praça pública a ponto de aniquilar governadores
e quaisquer “ senhores” com poder e dinheiro. A guerra nos serve? Não, mas se o povo for duramente açoitado com a pobreza se está suscetível ao enfrentamento.
A perguntar que não cala é o que impede nós os pobres de rebelar-se
contra decisões arbitrarias, injustas, desiguais e impopulares?
A formação do estado moderno e/ou democrático está estritamente
alinhado a mediação das políticas econômicas e segurança pública em caso de
falha está o exército para manutenção da ordem ainda que provenha a época colonial. Tanto na segurança e exército diga-se é de conhecimento desde a função, articulação e
tramitação em muitas esferas do atual presidente.
A educação militar nas instituições e quarteis quiçá fora dela serve
de manutenção da ordem inclusive em locais dos quais a violência ocorre por
variações complexas, motivações econômicas e fatores sociais, sendo uma justificativa maior a presença militar em escolas, universidades e instituições de serviços básicos para disciplina de questionamentos e mobilizações. Militarizar a vida
não é uma reivindicação recente, mas usual da velha política.
As políticas sociais e públicas baseadas no conta gotas, que funciona
perfeitamente no balcão de negócios até os dias atuais e neste governo está na
formula de retirar o que tínhamos para indicar como éramos felizes e não sabíamos
ao retirar direitos básicos e participação social são ações genuinamente da velha política.
A outra forma da velha política em nível internacional é fazer
declarações ofensivas de cunho moral, religioso, preconceituoso e escandaloso
ao mesmo instante em que promove o erámos felizes e não sabíamos com redução gradativa de
direitos enquanto negocia emendas, estatais e recursos naturais com promessa de
países desenvolvidos acima de todos, afinal quem é muito rico precisa
sobreviver as consequências de reestruturação do capital e mudanças climáticas
em níveis estratosféricos dos quais estamos à mercê.
"...Ontem o mundo me expulsou da vida. Hoje a vida nasceu.
Ventania, muita ventania. Que instabilidade. Me muero.
Vivo no futuro da ventania.
Por que é que tudo se diz: fica para a semana que vem?
Eu estou aqui, aqui à espera.
Vivo agora e o resto que vá para a puta que o pariu...." (Clarice Lispector)
segunda-feira, 22 de abril de 2019
41. Quais são os seus hobbies? (*)
Cronometrar o
tempo que gasto pra completar as palavras cruzadas e decorar as
capitais dos países da América Central não são nem a ponta do
iceberg das coisas que me dão prazer nesta vida. Até agora eu só
te disse os meus passatempos mais inocentes, os que a gente pode
contar pra qualquer um, mas acho que agora, na altura da conversa em
que estamos, já é hora de te contar sobre aquilo que me dá prazer
de verdade, um prazer físico, sobre aquilo que me faz esticar o
corpo todo de tanto deleite, que me faz querer parar o tempo naquele
momento único, que faz
meu coração querer bater fora do corpo… Sim, sim, senhora… não
existe nada mais prazeroso nesta vida do que enfiar um cotonete
fresquinho, recém-tirado da embalagem, bem lá no fundo do
buraquinho do ouvido! Ah, que delicia… quando aquela pontinha
branca entra bem devagarinho e a gente vai fazendo umas voltinhas com
ela bem devagar e vai enfiando cada vez mais, sempre aos pouquinhos,
até ficar bem lá no fundo e a gente sentir uma coceirinha gostosa
lá dentro, que às vezes até dói um pouco, é verdade, mas é uma
dorzinha gostosa, uma dorzinha na medida certa, que a gente reluta
até o final pra parar de ter. Isso é realmente muito bom, bastante
deleitoso, e dá vontade de fazer todo dia, toda hora… O melhor é
com cotonete mesmo, que tem aquela rigidez natural na haste, sabe, e
também aquela maciez que afaga na ponta. Mas na hora do desespero,
quando o cotonete acaba e a gente não tem outra coisa, ou quando a
gente está num lugar como esse daqui, longe de um cotonete, daí
pode ser qualquer coisa pontiaguda mesmo, de preferência uma boa
tampa de Bic como aquela. As de Bic são as melhores porque têm esse
formatinho arredondado na ponta, perfeitamente anatômico, parece que
fizeram pensando nisso, pensando na coceirinha gostosa que isso é
capaz de fazer no ouvido de alguém. Não faz a massagenzinha que os
cotonetes são capazes de fazer, ah, isso nada consegue igualar, mas
cumprem bem o seu papel e não machucam tanto quanto as pontas de
lápis, os grampos de cabelo ou os clipes desmontados… que cara é
essa, senhora?
(…)
E tem hora, minha amiga, que pra coisa
ficar ainda mais gostosa, eu fico alguns dias sem cutucar. Sim, uns
quatro ou cinco já está ótimo, pra coceirinha ir só aumentando e
a cera ir acumulando. Daí quando enfim a gente enfia o cotonete de
novo lá dentro, a pontinha entra deslizando porque está tudo mais
lubrificado pelo tempo sem mexer. Isso é prazer que não tem igual,
é mais prazer do que prometem os anúncios de acompanhantes no
jornal, tenho certeza disso. O problema é quando dá errado ou
quando a gente exagera um pouco, sabe… porque daí é sofrido.
(…)
Sim, eu já sofri um bocado com esse meu
hobby e posso te contar em detalhes…
(…)
Como não precisa de detalhes? Isso aqui
é uma entrevista de emprego ou o quê?! Sim, tive muitos sofrimentos
com esses azuizinhos e o mais leve deles aconteceu logo que descobri
esse prazer maravilhoso no banheiro da farmácia. Isso mesmo, naquela
época, eu ia escondido no banheiro muitas, muitas vezes por dia
mesmo – tudo por causa dessa brincadeirinha gostosa – e minha
chefe devia achar que eu sofria de uma disenteria violenta, mas o
caso é que eu ainda era bastante inexperiente nisso e girei tantas
vezes e com tanta vontade o cotonete dentro lá do canalzinho, que
quando fui tirar, só veio o palito. Sim, eu estava lá escondido no
banheiro, completamente surdo de um ouvido e com um algodão xuxado
lá dentro. E nada que eu fizesse conseguia tirar aquele algodão
dali. Eu tive que passar o dia todo sem entender o que os clientes
falavam, pedindo pra que repetissem tudo e, claro, andando meio de
lado pra ninguém reparar que eu tinha um algodão no ouvido e que
devia parecer muito com um cadáver recém-promovido ao mundo dos
mortos.
(…)
Ai, ai, senhora… aquilo só foi sair
em minha casa, mas pra isso tive que contar pra minha avó, que já
estava achando muito estranho eu estar mais surdo do que ela. Daí
ela me ajudou com uma pinça e me fez prometer que nunca mais eu ia
usar cotonetes e que ia limpar os ouvidos apenas com a ponta úmida
das toalhas, que estava mais do que suficiente e blá, blá, blá,
que um dia eu ainda ia furar o tímpano e pegar uma infecção
lascada e be be bé e essas coisas todas que falam todas as avós que
querem nos privar dos verdadeiros prazeres da vida. Mas o pior é que
a velhinha estava certa, desgraçadamente certa. É incrível isso,
mas tudo o que eu gosto nesta vida é ilegal, é imoral ou me dá
infecção no ouvido.
(…)
Daí
que ter infecção no ouvido virou uma rotina em minha vida, já
foram três nos últimos cinco, seis anos. E não queira a senhora
ter uma infecção de ouvido, ainda mais depois de perder a linha e
machucar tanto o buraquinho com as coisas pontudas e não
necessariamente limpas que há nesta vida. É uma dor de outro mundo,
uma dor que faz a gente repensar se tanto prazer vale a pena. É uma
dor que faz a gente prometer sempre que nunca mais vai usar cotonete
e que vai seguir todas as recomendações higiênicas que sua
prudente avó já lhe ensinou. Até que um dia a dor passa, até que
um dia depois de tomar uma cartela inteira de antibióticos e todos
os analgésicos diferentes que encontra pela frente, a dor passa.
Sim, e também você para de vazar pelo ouvido e de sujar todas as
fronhas da casa com aquele líquido amarelo avermelhado que nunca
imaginou que seu corpo produzia. E quando até mesmo essa sensação
de mijar pelo ouvido passa, quando tudo volta ao normal, a gente
imediatamente esquece tudo e começa a desejar por aquelas
hastezinhas novamente. E mesmo que você resolva se boicotar e não
comprar mais cotonetes, pra não ter que ter isso tão à disposição,
seus olhos te traem e começam a detectar todos os objetos minimante
pontiagudos e finos o suficiente pra que caibam em seu ouvido. Sim,
todo objeto pontiagudo começa a ficar bem interessante e daí começa
tudo de novo, até a próxima infecção dos infernos. Porque sim,
senhora, ela certamente virá…
*Trecho de "Curriculum Vitae", meu próximo livro, a ser lançado em breve pela Editora Patuá.
sábado, 20 de abril de 2019
Deformas
Precisava tirar a Dilma. Só assim o país cresceria, voltaríamos a ter emprego e a economia iria deslanchar. Não importava que não houvesse um motivo juridicamente viável. Era necessário pelo bem do país e isso bastava.
Mas daí também precisava da reforma trabalhista. É que o empregado tinha muita mordomia, muito benefício, vivia na vida mansa, ganhando muito sem trabalhar. O jeito era uma reforma trabalhista que seria boa para todo mundo. Empregadores e empregados seriam praticamente da família, podendo negociar diretamente entre si, sem essas frescuras de leis atrapalhando tudo.
Nada disso deu resultado, mas é porque precisava congelar os gastos públicos pelos próximos 20 anos. Sem isso não tinha como a economia crescer. Se o Estado gasta dinheiro com coisas inúteis como saúde, educação e segurança, não sobra nada para investir no que realmente importa.
Também não funcionou, mas era por causa do medo da volta do petê. Nada desse esforço daria resultado com a volta do petê, portanto o que importava mesmo era garantir outro presidente. Qualquer um. Poderia por um boneco de massa de modelar, desde que não fosse do petê.
Agora chegamos ao ponto chave. A reforma da previdência! Todo o resto não importava. É a reforma da previdência a única saída para a economia voltar a crescer e o desemprego diminuir. As empresas se esforçam, muitas recolhem a contribuição do trabalhador e não depositam, mas ainda assim não dá para a economia crescer com aposentados ganhando um salário mínimo. O esforço é contínuo, já suspenderam o aumento real do salário mínimo, mas sem a reforma a coisa não anda.
Bem provável que depois da tal reforma da previdência, seja a hora da reforma tributária. Quem nunca ouviu que é difícil ser empregador no Brasil, que empresário paga muito imposto, que a carga tributária das empresas é muito alta? Não demora para algum gênio chegar à conclusão de que é necessário jogar a carga tributária um pouco mais para o lado do trabalhador. Quem já ganha um salário mínimo tem todas as condições de pagar mais impostos. Daí sim! Cresceremos! O emprego vai aumentar!
sexta-feira, 12 de abril de 2019
Não vai virar
Alguém me disse ''É o caos''.
Me pergunto o que seria o caos. Desde que nasci o Brasil tem esse movimento interno, é como um Titanic, sempre a um passo de afundar. Parece que o barco vai virar, mas não vira, apenas as cordas apertam.
Vivi tantas vezes essa situação de gritos e desesperos, de videntes garantindo, sim, agora afunda, que me cansei. Me cansei. Estou exausta. Tudo isso que vejo, a falta de empatia, a indiferença, a loucura, já vi antes, e não apenas em filmes, mas em novelas e séries.
A vitória do brasileiro é essa, aguentar viver debaixo dos berros e avisos de perigo. Estamos acostumados. Ou talvez não, talvez seja a primeira vez na história em que estamos vendo de perto a loucura coletiva, uma maioria que perdeu a noção da realidade, talvez sejamos no momento o país com o maior número de doentes mentais. Mas tudo isso cansa demais, ou talvez sou eu que não aguento tanto barulho. Preciso desligar a televisão e me afastar de conversas diária. Você viu tal coisa? Não, não vi.
A pessoa me conta. Outro vício do brasileiro, espalhar as notícias ruins com uma fome desesperada.
Cansei de tanto barulho e já sei por experiência que este barco não vira. Mesmo que a batida com o iceberg seja forte, não vira. Não precisamos nos preocupar, os músicos vão seguir tocando os violinos, mesmo que esse som nunca chegue a nós, abafado pelos gritos.
Não vamos afundar.
Iara De Dupont
quinta-feira, 4 de abril de 2019
Infravermelho
Agora, só. Encaro a luz vermelha do mouse.
Ela reflete na parede do meu quarto.
Lembro vinho do mais simples
Com ideia abstrata.
Boca cheia de intenções
Mulher de ouro, eu prata.
O meu suave com gelo
Exala o cheiro da uva.
Me acompanha no pelo
Esquece o medo da chuva.
Largo essa taça no chão
Enquanto escuto partindo.
Vejo o perigo nos cacos
Sinto meu sangue fluindo.
Fumaca nos denuncia
Corpos se pegam no fogo.
Ebulição de prazeres
Térmica, mente o dobro.
Magicamente me cura
Enquanto leva minha dor.
Tinta que vai embora
Quadro perdendo cor.
Um cumprimento de onda
Muda meu curso, o plano.
Passagem das estações
Destino, deus, desengano.
Agora só encaro a luz vermelha do mouse.
Ela reflete na parede do meu quarto.
sexta-feira, 29 de março de 2019
as cortinas de ferro
Usar esse termo "cortina de ferro" é fazer uso da ironia a quem se referia a antiga União Soviética
no combate ao suposto comunismo que não existiu mas fracassou e uma rememoração mais precisa sobre a queda do Muro de Berlim.
Rememorar
é manter a história viva e constatar o quanto aqueles que foram e são contrários ao capitalismo
instituído e legitimado até hoje nesta sociedade são por completo desdenhados.
Mais
irônico é falar da cortina de ferro e da queda dos muros no passado e constatar de que nesta época comemorou-se a derrocada dos muros em Berlim e queda do bloco Soviético sob argumento de
suposta liberdade, economia globalizada e sociedade de-mo-crá-ti-ca, e hoje em
pleno século 21 termos milhares de dólares liberados para a construção de muros
entre as divisas dos EUA e México em plena de-mo-cra-cia.
Tão
semelhante e mais atual é aquele “por que não te calas” proferido por uma autoridade
parlamentar ao presidente na época Hugo Chaves da Venezuela ao rebater pessoalmente em
debate acirrado as investidas contra seu país, hoje atualmente governado por Nicolas
Maduro.
Já
me questionei algumas vezes porque ainda não ocorreu uma investida militar estadunidense
na Venezuela, uma vez que estão sobre essa constante e responder sobre é remeter-se as declarações do “estamos em
guerra” durante alguns governos.
Obama
quando optou pela guerra na Síria decidiu também por enfrentar as reações da
população americana e demais países contrários ao confronto armamentista e
militar. Declarar guerra a outro país significa enfrentar uma enxurrada de
manifestações pelas redes sociais e atos pelas ruas, além da histeria na bolsa
de valores e nos investimentos econômicos.
A população compreendeu de que a vantagem no confronto armamentista e militar é
para os acionistas das empresas bélicas que prestam serviço para países com poder
de compra e que estão propensos a massacrar o rival sejam soldados ou quem
aceite enfrenta-los e na grande maioria a população que acaba por sofrer os danos das
decisões alheias.
Neste
meio encontra-se a reação das pessoas que são contrárias as guerras mesmo imersas a uma série de
contradições do capital entre desempregos, baixo rendimento econômico, aumento
da pobreza também em países desenvolvidos, aquecimento global, risco em
produção alimentar, necessidade dos ricos de reinventar o processo de
acumulação dos meios de produção e Fake News.
Percebe-se
que as notícias Fakes colaboram tanto para implantação de “guerras frias” tomarem
de assalto democracias uma vez que declarar guerra armamentista é intensamente
repudiado pela população como de paralisar articulações em massa.
As notícias Fakes são prejudiciais em todos os aspectos porque minimizam e/ou atrasam a atenção ao que deveria ser prioridade, perde-se muito tempo para constatar a informação noutros veículos de comunicação.
As notícias Fakes são prejudiciais em todos os aspectos porque minimizam e/ou atrasam a atenção ao que deveria ser prioridade, perde-se muito tempo para constatar a informação noutros veículos de comunicação.
Na
Venezuela demorou-se semanas para identificar de que a oposição ao governo
ateou fogo na “ajuda humanitária”. Mais recente li nota de que ocorreu
protestos em massa nos EUA pelo desarmamento da população. Num desatino de ler
outra matéria perdi de ler a matéria e em buscas não encontrei mais a
informação.
Desarmar
a população e/ou questionar o poder bélico e militarista é audacioso, mas também
perigoso, uma vez que pretender alterá-las remete em mexer nas estruturas
essenciais do estado que reverbera diretamente na organização de sociedade.
O
Brasil caminha na direção contrária, enquanto noutros países o poder militar e bélico
está sendo questionado, vivemos dias em que provavelmente todo e qualquer
cidadão que queira poderá andar armado e/ou ter uma arma dentro de casa.
É
importante notar a perspectiva sobre a terceirização da segurança ao cidadão
comum colocando-o sujeito a mais riscos, e também ao processo de intensificação
militar do qual temos de uns anos para cá, servindo o RJ como laboratório.
Neste
domingo registra-se os 21 anos de ditadura civil militar, período em que os
militares assumiram o poder institucional e político no país do qual ocorreu
censuras, desaparecimentos forçados, torturas, assassinatos, exílios e
intensificação do poder bélico/armamentista coincidente vindos da indústria
bélica americana.
1964
é uma data para ser esquecida? Jamais. Então para ser comemorada? Nunca.
Trata-se
apenas de uma data que deve ser lembrada para nunca mais ocorrer,
principalmente por quê milhares de pessoas foram assassinados e simplesmente morreram por
acreditar em algo contrário ao que foi instituído – militarismo – e ser lembrada por servir
de depósito de rejeitos econômico e militar ao comprar os armamentos e produção bélica
estadunidense das quais não lhes servia durante 21 anos. Que rasguem-se as cortinas da censura, opressão e medo. Mas também da hipocrisia, da ironia e do sarcasmo pois nunca foi tão necessário.
"...Ontem o mundo me expulsou da vida. Hoje a vida nasceu.
Ventania, muita ventania. Que instabilidade. Me muero.
Vivo no futuro da ventania.
Por que é que tudo se diz: fica para a semana que vem?
Eu estou aqui, aqui à espera.
Vivo agora e o resto que vá para a puta que o pariu...." (Clarice Lispector)
sexta-feira, 22 de março de 2019
Não adianta
Não adianta a cara sem pelo
o tênis colorido
a camisa estampada
Não adianta a bermuda de sempre.
De nada valem as piadas que faço
os rocks que cantarolo
as redes sociais as quais me associo
De nada valem as opiniões progressistas que defendo
Não adiantam as gírias que cuido evitar
os lugares que busco frequentar
a comida gordurosa que como
Ou mesmo a companhia que escolho ter comigo.
Não adianta
Não tem mais volta
Não sei porquê
Mas não adianta
Porque a grande moda agora
Na padaria
Na confeitaria
No açougue
Na bilheteria
Na danceteria
Na internet
No cemitério
Na academia
É me chamarem de SENHOR!
quinta-feira, 21 de março de 2019
Um novo podcast!
Olá turma do blog das 30 pessoas!
Estava eu subindo meu podcast pro ar, quando resolvi passar aqui e já deixar meu salve desse dia 21, pois me conheço: se deixar para amanhã de manhã, acabo não tendo tempo e lá vai mais um mês sem post.
Hoje, trago o meu mais novo "filho": O Fim de Noite! Que já existia, mas em outro formato.
Agora, está um pouquinho mais de "podcast" mesmo.
Clique aqui para ouvir o episódio desta quinta!
Espero que curtam!
Abraço, e obrigado pelo carinho de sempre!
A gente se fala!
Agora, está um pouquinho mais de "podcast" mesmo.
Clique aqui para ouvir o episódio desta quinta!
Espero que curtam!
Abraço, e obrigado pelo carinho de sempre!
A gente se fala!
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