segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Rotina

"Não haviam becos sem saída que não fossem magnéticos. Tudo naquela cidade parecia caótico e surreal. A. contemplava da janela do bonde a multidão que ressoava em ritmo frenético e silencioso. Desceu um ponto antes, queria o sol na cara e que o suor do corpo se espalhasse por inteiro.

Não há melhor companhia, pela manhã, do que um cigarro. Chegara a esta conclusão, um pouco antes de olhar pela enésima vez o relógio. Nunca reparara como 5 minutos, ou trezentos segundos, podem demorar a passar. O tempo sempre lhe escorreu pelas mãos. De modo que nunca soube lhe dar valor. Imaginava sua juventude como algo inesgotável. Dessa forma, jamais temeu a velhice. 

Chegara como de costume e não precisava mais dizer seu nome, nem a que viera. Subindo as escadas, ia desenrolando o lenço preso ao pescoço, deixando o cabelo cair de lado, onde se podia ver marcas deixadas pelos colares pesados. Carregava-os ora por querer sentir-se vista, ora por castigo.

Pela fresta da porta, apenas a luz fraca do corredor, cortando a atmosfera esfumaçada. Nada mais. Os ponteiros do relógio lhe torturavam com sua passada imutável. Não conseguia se concentrar. Abrira um livro, cantarolara uma música. Abriu a garrafa de black label, já perto do fim; desistiu. Acendeu mais um cigarro. A única coisa que lhe dava algum conforto.

Empurrando a porta entreaberta, flagrou cena que imediatamente soube que não era por acaso e que nem se esqueceria. T. estava sentado na poltrona, com as pernas afastadas como os homens fazem, lendo um exemplar de Factotum. Assim que percebeu sua chegada, levantou o olho e A. sentiu uma leve pontada, um golpe, uma ferida que não cicatriza. Sabia que seu tempo seria indeterminado para entender porque esta cena é daquelas que ficam.

A lufada de ar trazida pela abertura da porta lhe empurrou para fora das entrelinhas de um ensaio que analisava as decisões dos personagens de Tarantino, à luz da deontologia kantiana. Qualquer cigarro seria desnecessário. Gostava tanto de ser com A., que mesmo o simples ato de fumar um cigarro passara a ser muito melhor, se feito com ela. Um dia se perguntaria se a melhor companhia pela manhã seria um cigarro ou o colo dela. Mas só depois, talvez.

Seus pelos gritavam ao quererem sair do botão entreaberto da camisa. Nenhuma palavra quase nunca é dita. Ataque bruto e inocente, selvagem e harmonioso, incólume e perdido. A., quando pensa em seus momentos de delírio e prazer extremo ao lado de T., entende o verdadeiro sentido de seu âmago. Sabe que ele é um lobo. Mas o que seria um lobo? No alemão, é wer=ser e wolf=lobo. Não haveria de ser meia-noite e nem lua cheia para tal metamorfose".

Não esperou virar a página, ou mesmo o último trago. Sequer esperaram estarem totalmente nus. Amaram-se no sofá, envolvidos na atmosfera pesada, de fumaça e de saudade. O suor que tomava todo o corpo de A. deixou T. ensopado, sua camisa já  transparente grudada em seu corpo, e seus pelos já sentiam o roçar dos seios dela, macios, mornos e entumecidos. Sentiu seu mamilo salgado de suor ao levá-los à boca. Os mesmo cinco minutos, ou trezentos segundos, que tanto se estenderam antes da chegada dela, se desfizeram em suor, salivas e semên. Passaram rápido, na enternidade vivida na junção daqueles corpos que pareciam se encaixar em cada curva possível. 


Não se viam há apenas dois dias. Mas esse intervalo de tempo parecia ser mais do que o suficiente para arar, semear, germinar e colher o desejo que alimentavam um pelo outro desde o primeiro dia em que se viram. Fumaram o mesmo cigarro, já no chão, mas ainda com alguma roupa no corpo, uma calça pelo joelho e uma calcinha posta para o lado. Fumaram o mesmo cigarro, após fazerem amor, talvez o único momento de rotina possível em seus encontros”. 


domingo, 24 de janeiro de 2021

Crônica da vida real


Faz muito tempo que deixei de escrever e tomar a escrita como minha mais sincera expressão. Não sei dizer exatamente qual foi minha última criação. Entretanto, esse era um dos maiores prazeres que eu tinha, passava horas escrevendo em cadernos, antes mesmo dos computadores de mesa serem itens comuns nas casas das pessoas, e ficava ansiosa para a cada término de capítulo de um novo livro, ou mesmo da ideia do tal livro, ler para todos da minha família. Talvez tenha deixado de lado esse prazer quando comecei a ser consumida pela urgência das obrigações do “ser adulta”, seja lá o que isso quer dizer; mas o fato é que o desenrolar da vida foi ficando cada vez mais urgente e foi ocupando quase que a totalidade das minhas preocupações diárias e eu fui perdendo o encanto em criar novas histórias.

Claro que não me distanciei em absoluto disso, pois o trabalho que escolhi, cientista política e pesquisadora, oferece oportunidades ímpares para momentos de reflexão e posterior escrita, o que acaba por me aproximar muito de mim mesma. E foi num destes momentos, como tantos outros na vida, em que somos surpreendidos por insights que trazem em si o poder de gerar sementes a serem cultivadas (ou não) que a ideia central deste texto surgiu. A princípio como um pensamento que me rondou por dias, depois como um texto corrido no celular, daqueles que a gente escreve no momento que vem a inspiração. Sinta-se livre para entender como achar melhor, mas me deixa muito confortável interpretar este ocorrido como uma crônica da vida real.

Um dia, discutindo com meu antigo grupo de trabalho, em uma pesquisa sobre a saúde de adolescentes e jovens, acabamos nos deparando com algumas questões surgidas de uma discussão com os jovens, em que foram abordados, entre outras questões, os incômodos da famigerada pergunta “O que você vai ser quando crescer”, ao que um/a deles/as pontuou algo do tipo “Como assim o que eu quero ser? Eu JÁ não sou alguém?”. Essa observação tão profunda da existência (embora ele ou ela não tenha classificado sua frase como uma) foi suficiente para levantarmos, em um grupo de profissionais tão sensíveis ao impacto dessa colocação, questões muito mais abstratas sobre “ser” que fogem completamente do nosso raciocínio usual, e no meu caso em particular, de alguém que busca o melhor desenho para políticas públicas. Lembrei imediatamente do conto “O Espelho” de Machado de Assis, que havia lido na minha adolescência, embora naquele momento eu sequer lembrasse o título para dizer, pois ele havia ficado entre aquelas memórias de escritora que foram se apagando ao longo do tempo.

O meu comentário, naquele momento do calor da discussão, parecia fazer todo o sentido, pois lembrava com toda a clareza do mundo que o tal conto tratava da história de um “não me lembro qual patente” (hoje sei que era alferes da Guarda Nacional) que não podia mais se reconhecer sem a farda quando se olhava no espelho. O momento passou, a ideia desapareceu na pressa da vida e não muito tempo depois, na frenética e superficial visualização de posts da timeline do Facebook, eis que surge o título do conto, que havia sido adaptado a uma peça de teatro que fazia ali sua divulgação, e eu com tempo para sanar as dúvidas, corri até a estante da sala para buscar na coleção de livros do Machado - que meu pai com tanto orgulho fez para mim e minhas irmãs - o livro Papéis Avulsos II, em que se encontra o tal conto.

Confesso que reli muito mais pra afagar meu ego - pois havia ficado maravilhada por ter tão oportunamente ressuscitado o Jacobina (esse é o nome do personagem), naquele momento da discussão e precisava ter certeza de que não havia dito nenhuma bobagem - do que propriamente pelo prazer de reler Machado depois de tantos anos esquecido naquela prateleira. Ingenuidade! Não porque a história não se trata do que eu achava que fosse, de fato é, mas porque não foi eu que reli o conto, e sim ele que me releu. Parei para pensar naquele diálogo mudo que se dava na transcendência dos séculos entre o Machado e aquele/a jovem da pesquisa e percebi a quantidade de papéis e títulos que fui adquirindo ao longo da vida e que, de alguma forma, foram obscurecendo minha imagem sem a “farda”. Mas então, o que sou?

Qualquer apresentação que eu faça de mim mesma vem sempre iniciada com as minhas funções sociais, seja em que dimensão elas se encontrem mas, sobretudo, aquelas que pertencem ao mundo do trabalho: meus títulos e onde foram conseguidos, o que faço, desde quando, o que já publiquei. Mas é isso mesmo o que me define? O mais complexo quando se atenta a isso é continuar e tocar em frente sem a devida reflexão de sua totalidade depois de um mea culpa, pois ficou evidente que em um dado momento eu deixei de ser o que sou para me tornar o que estou.

Indo mais a fundo, percebo que isso realmente está impregnado em todos os setores da vida: a gente se torna o romance que fracassou, o montante de dinheiro que temos no banco, o carro que dirigimos, os ambientes que frequentamos, etc, etc, etc. Obviamente que acredito que nossa compreensão e interpretação da vida, do que é bom e o que não é, por exemplo, são moldadas de acordo com nossas experiências, sem o que seríamos incapazes de nos posicionar e nos mostrarmos ao mundo, ou mesmo tomar decisões futuras e nos auto preservar. Mas, para além disso, quando nos despimos de tudo, muitas vezes fica a sensação de que não sobrou nada, já que nos acostumamos a viver na superfície e não na essência.

Mas, retomando a razão que me fez começar dizendo que não escrevo há muito tempo, quando reli o conto do Machado percebi duas coisas muito importantes. A primeira é que ele sempre foi uma inspiração muito forte, mas tão forte, que durante muito tempo, lá na metade dos anos 1990 e início de 2000 eu acreditava que eu poderia escrever como ele, exatamente como ele, com uma linguagem própria do seu tempo e assim me tornar uma ótima escritora. A segunda e mais importante para o contexto, é que escrever sempre esteve na minha essência, ainda que sejam meus atuais textos acadêmicos, e considero que este seja apenas um dos diversos traços do meu "eu real" que andou adormecido e, além disso, tendo a acreditar que a grande arte da vida é encontrar e despertar todos eles, já que estão invisíveis na imagem que o espelho nos devolve todos os dias. Por isso, acho justo utilizar essa “mini-crônica da vida real” para prestar minhas sinceras homenagens ao Machado que me influenciou e continua influenciando até hoje, além de convidá-los/as a ler o referido conto, e também provocar os que lerem este texto a refletir sobre o que SOMOS quando não ESTAMOS sendo nós mesmos/as.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Tucanistão

Já disse Ciro Gomes, "a democracia é uma delícia (...) mas ela tem certos custos". Em São Paulo o maior custo é a falta de alternância de poder, gerada pela insistência da população em eleger o mesmo partido. Desde a última eleição para a prefeitura da capital, a população vem sentindo o peso dessa dominância.

O PSDB chegou ao poder em 1995 e desde então só não governou em dois períodos de dois anos, quando o vice-governador de outro partido assumiu o mandato, após Geraldo Alckmin abandonar o cargo.

 Atualmente o governo é de João Doria, que desde 2016, quando entrou para a política, afirma não ser político, mas gestor. Talvez por ter cara de playboy e usar roupas caras ninguém aponte a mediocridade de sua gestão, desde a breve passagem pela prefeitura de São Paulo, quando garantiu não abandonar o cargo para concorrer ao governo, até a atual gestão do governo, que assumiu após abandonar a prefeitura.

Na cidade de São Paulo, após ser prefeito João Doria perdeu a eleição para governador. O cargo só foi garantido pelos votos do interior do estado. Talvez por isso permaneceu distante de toda a campanha que elegeu Bruno Covas para a prefeitura. Doria só apareceu após a vitória ser anunciada, com todo o marketing que costuma rondar suas ações.

Com o governo e a prefeitura da capital garantidos o PSDB vem mostrando desde novembro a qualidade da gestão de quem quer ser visto como uma ‘direita moderada’, visando as eleições presidenciais de 2022.

No dia seguinte ao segundo turno das eleições para a prefeitura o governador anunciou medidas mais duras para o combate à Covid-19, que eram extremamente necessárias, mas negadas ao longo de toda a campanha. Na linha das medidas impopulares, dois dias após as eleições, sem muito alarde da mídia, o governo aumentou as tarifas de pedágio de todo o estado.

Já em dezembro, Bruno Covas, que cumpriu apenas 41% das metas de seu governo, sancionou o aumento de 46% no próprio salário, que passa de 24 mil para mais de 35 mil reais. Na mesma época João Doria decretou que todo o estado de São Paulo passaria o fim de semana de Natal e Ano Novo na fase vermelha, em uma tentativa de barrar os casos de Covid-19, que já vinham aumentando assustadoramente. Logo em seguida o governador viajou para Miami.

É evidente que políticos tem direito a férias e descanso, mas em um momento em que as contaminações já estavam em forte ascensão e havia uma preocupação em conscientizar a população sobre a importância de ficar em casa, o governador resolve pegar um avião e viajar.

Não contentes em aumentar o próprio salário em plena crise econômica ou viajar após decretar endurecimento da quarentena, os governantes do PSDB iniciaram o ano anunciando fim da isenção de ICMS no setor da saúde, com grande impacto em materiais hospitalares e medicamentos. O sindicato do setor precisou mover uma ação para barrar o fim da isenção de tarifa na justiça.

Em meio a tanta turbulência causada pela pandemia e com um presidente que sobrevive pelas confusões que cria, tantos escândalos estatais acabam logo atropelados por novas loucuras. Isso somado à devoção paulista pelos tucanos garante vida longa ao partido que vive da aparência, mas não entrega à população as belas cidades exibidas na propaganda eleitoral.

Quando comparado ao presidente, João Doria chega a parecer sensato quando faz o básico, como investir em vacinas para conter a pandemia. O marketing pessoal em torno da Coronavac foi parecido com a prefeitura de São Paulo, quando o governador só apareceu na festa da vitória.

Doria fez grande estardalhaço, misturando eficiência e eficácia para divulgar que a vacina tem de 78 a 100% de eficiência. Um carnaval midiático para depois se esconder e não participar da divulgação de eficácia da vacina, de 50,38%. A vacina não é ruim, mas a luxúria tucana deve sustentar a fama de bom gestor a qualquer custo e preferiu confundir os conceitos para abafar a eficácia mais baixa que outras vacinas.

Já em campanha para a presidência em 2022, João Doria afirma estar do lado da ciência. Mesmo após tentar cortar quase meio bilhão de verba para a Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – em plena pandemia.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

ok, então estamos em janeiro de 2021

São Paulo, segunda-feira, 18 de janeiro de 2021.

- ok, então estamos em janeiro de 2021 - Cristina Santos - post 9 - Blog das 30 pessoas - 

Título: ok, então estamos em janeiro de 2021

   Okay ou ok? Que seja. Essa palavra nem é nossa. Mas vamos de ok. Tudo bem? Ok.
   Ok, então estamos em janeiro de 2021. A Terra está girando mais rápido, por isso o tempo está correndo. Oi? Oi! Calma. Ninguém vai cair. (Será?) Ainda. O wifi está conectado, mas a mensagem que aparece é: "Conecte-se à internet. Você está off-line. Verifique sua conexão. Tente novamente". Eu já verifiquei !!! Eu estou  conectada sim !!! E nós sabemos o porquê disso. Começa com robôs dançando uma música bonitinha; o celular falando que você não está conectada, embora o sinal mostre que está sim. E aí buuummm !!! Sarah? John? Cadê vocês? Neo?
   Ok, então estamos em janeiro de 2021. E onde está a nossa vacina? Queremos Vacina! Queremos Vacina! Queremos Vacina! Eu quero fazer parte da equipe do Professor Charles Xavier. Queremos Vacina! Queremos Vacina! Queremos Vacina! E eu que sempre me achei invisível, descobri que estavam falando mal de mim. Que coisa! Coisa é uma palavra tão maravilhosamente versátil. Adoro.
   Ok, então estamos em janeiro de 2021. Os trovões voltaram. Acho que a chuva vai recomeçar o seu trabalho. A dosagem foi aumentada novamente. É sim um bom remédio, é que é necessário um conjunto de coisas (olha a palavra coisa aí, pessoal) para dar uma equilibrada na montanha russa do existir. Curti muito a minissérie: A Cor do Poder, e os primeiros episódios da série: Shippados. 
   O poema: Razão de Ser, do Paulo Leminski, começa com: "Escrevo. E pronto." E termina: "Escrevo apenas. Tem que ter por quê?"
   P.S.: 1 - O meio do poema o google te conta. Okay? Okay! 
   P.S.: 2 - Valendo !!! Okay? Okay! é uma referência a qual livro?
   P.S.: 3 - Eu preciso falar que o bebê Yoda é o serzinho mais lindamente feinho da galáxia. Quero a pelúcia. 


   Oiê! Espero que estejam bem. Acreditemos em dias melhores. 💙💙💙  Ontem, domingo, dia 17 de janeiro de 2021, a ANVISA APROVOU O USO EMERGENCIAL DA VACINA !!! 💙💙💙 UHULL !!! \0/ \0/ \0/ Feliz 2021. Sorriam. Se precisarem sair de casa, por favor, usem máscara. Respeito. Cuidado. Carinho. 
   Até o próximo post.
   Beijos.
   Cristina Santos 

sábado, 16 de janeiro de 2021

O que vem depois?




sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Representa na Gringa

Amiga leitora e amigo leitor,

Feliz 2021! Quem em 2021, o novo corona vírus nos dê uma trela e nos devolva a liberdade de andar sem máscara e no permita aglomerar com os nossos queridos.

Falando em aglomerar com queridos, em 2020 eu andei virtualmente bem próxima de uma galera muito maneira, responsável por um projeto chamado Representa na Gringa. Lembra do meu post passado sobre mentoria? Pois bem, foi através desse projeto que comecei a mentorar alguns candidatos para a bolsa Chevening.

O Representa na Gringa nasceu para combater um problema muito sério, o racismo estrutural, que infelizmente acaba se refletindo no perfil do bolsistas Chevening. Por exemplo, embora a maior parte da população brasileira seja negra (pretos e pardos), a quase totalidade dos bolsistas Chevening é composta por pessoas brancas. Eu fui uma dos poucos bolsistas negros do meu ano e também da história Chevening no Brasil. O racismo estrutural acaba afetando muito os povos indígenas também.

Para combater essa desigualdade de raça tão marcante entre os bolsistas Chevening, vários bolsistas e ex-bolsistas se reuniram e se organizaram em várias frentes de combate ao racismo estrutural. Uma dessa frentes é a mentoria para candidatos negros e indígenas, com a intenção de apoiá-los no processo seletivo Chevening. 

Se você é negro ou indígena e gostaria de se aventurar numa bolsa Chevening, fique ligado aqui nos posts. Eu vou contar para vocês quando abrirmos vagas para novos mentorados/mentoradas. Como os posts aqui são mensais, pode ser que eu compartilhe alguma coisa no Twitter (@silvajacqueline) ou no Instagram (@silvajacq) também.

É muito comum planejarmos o que almejamos para o ano que se inicia. O Representa na Gringa e as mentorias para negros e indígenas (mas não somente para eles) com certeza estão na minha lista de atividades para 2021. E você, já pensou sobre o que deseja para esse ano? Me conta aqui nos comentários. 

Se você tem intenção de estudar no exterior, especialmente no UK com uma bolsa Chevening, fique ligado nos próximos posts.

Abraços e até breve,
Jacque.

Posts anteriores

Dezembro: Mentoria

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Onde vivem as decisões? Parte 3 - FIM

Olá, que haja vacinas em seu 2021!

Este texto tem 3 partes, está é a última, aqui a primeira e a segunda parte. Espero que a leitura seja prazerosa!


....

Donato se espreguiçou longamente na cadeira. Um sorriso fino nasceu dos seus lábios, falaria se quisesse, se quisesse, gostava de ficar saboreando as palavras na boca, as certas, as escolhidas, criadas na assembleia mental que presidira. 


Deixou o mar encher as narinas, a areia fofa brincar com os dedos dos pés, espreguiçou uma segunda vez ainda mais longamente sentado na cadeira de praia; de onde estava via na beira da água, a sobrinha brincando com a vovó e o irmão, Romeu, caminhando com Regina na areia, indo sempre à esquerda, se afastavam...


Sorriu um riso leve, sentiu tanta culpa por usar o desenho da criança para rabiscar as decisões que comprou de reposição um pacote de 100 folhas sulfite e uma caixa de lápis de cor. Não sabia se o desenho havia feito falta, não sabia que fim a arte dos cálculos de danos e ganhos tinha tomado. Qual fim teria tomado?! Não importava, foi o certo a fazer. 


O certo a fazer! Seu riso, agora, transbordava. O “certo a fazer?” impressionava como o que era derradeiro na sentença não eram as palavras que a compunham, mas a acentuação final. Não são nem três palavras que tiram o sono, que dão dor de cabeça, que causam briga, é apenas um sinal: uma interrogação ou as reticências infinitas; o quão é difícil uma exclamação, um ponto final. 


Marina, noiva de Donato, mantinha um olho nele e outro no picolé de uva que saboreava. Qual era afinal a graça?! Sabia que o noivo pensava para dentro, mas o que tanto ria de pensar? Ela quem tinha sido contra no início, virou de lado, quando o companheiro decidiu trocar de emprego. 


O trabalho de jornalista de revista sobre agronegócio, não era ruim: salário razoável, era na área de formação, CLT ( o que é cada vez mais raro), mas que tema mais chato! Pesquisar e escrever sobre tipos de bois, veterinária e tratos, a parte de economia era interessante, entretanto o tédio o consumia.   


Então, se o interesse era economia que trabalhasse com economia, ou política, ou esportes. Queria tentar, queria falar às pessoas, tocar corações e mentes.  


O céu  e o mar se encontram no infinito azul. Podia-se sentir a chuva que vinha pelo cheiro, pelos poros. 

  

Quando Romeu voltou, só, chamou Hermione, a filha, dona dos rabiscos da folha para almoçar. Era melhor sair da praia antes da revoada.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021


sábado, 2 de janeiro de 2021

2021

 

                                                                          

Sempre existiu e sempre existirá um banco na praça de graça

 Luz desvelando nossa pequenez 

 

 Serenar a alma

Desligar a razão

Viajar sem noção

 

No banco da praça,

um segundo abarca a eternidade

de toda graça.

 

Tudo acontece,

quando um sorriso se abre,

num banco na praça de graça.

 

Por Elisabeth Guimarães

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

As primeiras vezes

O primeiro banho;

A primeira roupinha e o primeiro sapatinho;

Os primeiros passos;

A primeira queda;

A primeira palavra;

O primeiro dente;

A primeira cárie;


Tudo registrado, nas peças de roupas ou objetos guardados, fotos e vídeos que capturavam cada momento, e uma história decorada, na ponta da língua, pra ser contada em todo encontro com família que surgisse a oportunidade.


A primeira paixão;

O primeiro beijo;

O primeiro relacionamento;

A primeira vez;

A primeira briga;

A primeira decepção;

O primeiro rompimento;

O primeiro coração partido;


Tudo registrado nas memórias e até naquele aperto no coração que tanto experimentou esses momentos que o fizeram pulsar  mais rápido, e que hoje servem de aviso para as próximas experiências. 

O primeiro emprego;

O primeiro salário;

A primeira promoção ou

A primeira demissão;

A primeira viagem;

A primeira casa ou apartamento;

O primeiro casamento;

O primeiro filho;

...


Tudo registrado nos momentos compartilhados com os amigos, naquela noite bebendo e curtindo que você e seus amigos praticamente fecharam o bar.

São tantas as “primeiras vezes”.

Esse é o primeiro texto de 2021, e quero te convidar a refletir sobre isso: O que você vai se permitir fazer pela primeira vez esse ano? Com quem vai compartilhar? Que memórias vai guardar?



segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

As promessas do ano que vem


Não precisamos de muita argumentação para falar o quanto este ano foi intenso. Todo um ritmo foi quebrado e estamos a nos reeducar para viver de outra maneira. Há quem diga que sairemos melhores disso tudo, há também quem diga que vamos descobrir que 2020 tem mais de 12 meses. Rimos de nervoso e batemos três vezes na madeira, pensando que a segunda possibilidade tem mais chances de ser real.


Não é possível sair deste ano isento de arranhões. Mergulhamos de cabeça no mundo online, há quem tenha feito jornais de gratidão e também quem tenha se esforçado para conseguir fazer todos os cursos ao alcance: em tempo “livre”, produtividade é lei. Trancados dentro de casa, o home office para alguns virou pesadelo, para outros foi a confirmação de que aquela reunião realmente poderia ser um e-mail. 


E agora, com a vacina sendo distribuída enquanto a segunda onda e a segunda cepa vão atingindo mais países, nos encontramos no final do ano se perguntando se no final do arco-íris vai ter algum pote de ouro. 


Vale a pena fazer planos?


Planos são para pessoas que têm perspectivas. E onde ficam estas esperanças, quando tudo ao lado desaba? Gostaria de dizer que vai ficar tudo bem, mas situações complexas não se acertam com respostas simples. Tem muito entulho dentro e fora da gente, pra deixar a casa toda em ordem, se é que um dia ela será ajeitada.


No meu caso, enquanto ainda estou a demolir meu sapário interno (e outras construções emocionais em situação de risco que já passaram da hora de saírem dali), no meio deste ano decidi ser mais gentil comigo. Ao alcance de minhas capacidades, foquei em cuidar do emocional - e isso não me impediu de dar apoio para as pessoas ao meu lado, carinho é sempre bem vindo. Enquanto eu, minha saúde mental priorizada e bem cuidada gera perspectivas. Com perspectivas consigo olhar pro amanhã e ainda ter uma pontinha de esperança de que as coisas irão melhorar. 


Nessa, de coisas pra fazer no ano que vem, gostaria de passear e viajar mais, entretanto não acho que isso acontecerá tão cedo e nem tão barato. Logo, coloquei uma meta acessível (acho / espero / tenho fé) para cumprir no ano que vem: consumir mais arte. 


Consumir mais arte não por desespero na pandemia, mas porque arte faz de mim alguém melhor. Até o começo do ano, estava cansada e desesperada demais para poder apreciar o tempo livre sem ser me julgando por não estar fazendo algo voltado para melhorar comercialmente enquanto pessoa. Nesses meses em isolamento tive o privilégio de poder me dedicar a outras coisas, e, principalmente, me dedicar em prazeres que não tinham nenhum retorno financeiro. 


Se antes eu tinha consciência pesada por não estar me aperfeiçoando até nas horas de folga, hoje fico mais tranquila se percebo que passei o domingo lendo uma história boba com o celular no modo não perturbe. Porque consumir arte me faz ver o mundo com outros olhos, e conseguindo pegar visões e sentimentos que são alheios à minha realidade, acredito que eu possa ser alguém melhor. Melhor não porque vou ser valorizada no trabalho, mas melhor enquanto ser humano e, acima de tudo, melhor comigo também.


Espero que para o ano que vem você também encontre as coisas que te façam ter perspectivas.



domingo, 27 de dezembro de 2020

Não pode dançar?

Esses dias revi o remake de Footloose. Tenho uma queda por filmes em que as pessoas dançam. É uma pena, porém, que muitos deles tenham roteiro tão batido e previsível porque dançar não deveria estar limitado a competições. Footloose não é sobre concurso, embora seja um típico filme de comédia romântica adolescente com roteiro pouco original.

A trama se passa numa cidadezinha do interior americano que decidiu proibir festas e danças. A morte de um grupo de adolescentes depois do baile foi o estopim para acirrar ainda mais a moral religiosa dos habitantes da cidade que culminou na curiosa lei. Mas tudo muda quando um rapaz forasteiro chega e se rebela.

Fora o asco que tenho dessa relação promíscua entre Estado e religião, me chamou a atenção o discurso que o moço revoltoso fez ao tentar persuadir o conselho a revogar a tal lei. Ele dizia apaixonado que os jovens tinham o direito de se divertir, de fazer besteira, de ser irresponsáveis porque era esse o momento da vida em que estavam. Usando a própria linguagem dos seus interlocutores, cita a passagem da bíblia cristã em que diz “Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu: (...) tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar”. Completa afirmando que ele compreendia a preocupação dos pais porque é isso o que fazem os adultos: se preocupam. Se em breve seriam eles a ocupar esse lugar da preocupação, então não seria justo dar a eles o direito de curtir antes de tudo isso?

Fiquei refletindo sobre o quão triste e cruel é esse pensamento que permeia não apenas a sociedade americana, mas a brasileira também (felizmente em menor grau), mas ainda assim presente. É como se tudo de divertido, interessante, novo só pudesse ser vivido durante a juventude. Quem viveu, viveu, quem não aproveitou, perdeu. Vida adulta feliz e realizada só se tiver casado com filhos e ter dinheiro o suficiente para ostentar.

Por mais que se reflita sobre a arbitrariedade de tudo isso é difícil se livrar desse conceito. Não é por acaso que não se vê muitos adultos aprendendo novas habilidades ou mesmo vivendo experiências novas que não tenham uma finalidade utilitária. Pra quê aprender caligrafia? Pra quê você vai aprender a andar de patins agora? Pra quê você vai ler um livro sobre astronomia? Aulas de canto, rapel, balada? Nessa idade?!

Curioso que ao mesmo tempo que reina uma ideia de que não devemos ser pessoas entediantes também existe uma ridicularização de adultos e idosos aprendendo coisas novas. Não tenho muita esperança de que o mundo saia melhor dessa pandemia, mas desejo sinceramente que as pessoas, incluindo eu mesma, se libertem das amarras mentais que colocam um prazo de validade na diversão, na aventura, no sonho. Não precisamos ser gênios para poder realizar qualquer atividade. Não precisamos ganhar concursos de dança para poder dançar.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Crítica de um filme que eu queria ter escrito

Há pouco mais de dois meses decidi levar a sério minha paixão por roteiro de documentário. Em um texto anterior aqui do blog falei sobre as linhas da vida, e neste caso em particular, mais uma vez sou obrigada a reconhecer esse emaranhado que vai tecendo a gente, e explico a razão. Sem querer, recuperei meu TCC no site da Universidade e pra muito além do que eu lembrava sobre ele, dediquei, se não me engano, dois capítulos ao gênero documentário, sendo que minha única lembrança era tratar do Regime Militar. Claro, que essas construções não se dão ao acaso, sempre gostei muito de documentários, mas nunca pensei em realmente levar isso a sério.

Muito honestamente não consigo ver beleza na quarentena diante da razão pela qual ela foi imposta, mas não posso deixar de reconhecer que ela tem possibilitado um profundo encontro comigo mesma, mergulhada muitas vezes na dor, no medo, ou na pura tristeza de sentir o estado das coisas atuais. Recuperei muitas coisas neste (re)encontro, e uma delas, além do meu TCC, trata-se de um pequeno texto que criei, creio que em 2013/2014, para ser a crítica de um filme que eu mesma queria fazer. Meu real interesse atual não é no roteiro de ficção, mas encontrar este texto fez com que eu percebesse o quanto sempre reconheci (inconscientemente) minhas escolhas e, principalmente, o quanto a força do feminino sempre esteve em meu horizonte criativo.

Dia 24 de dezembro, sete dias para 2021, 1 mês do meu aniversário. Muitas simbologias para a retomada de tantas paixões adormecidas, na promessa deste novo ano que aguardamos com tamanha expectativa como nunca antes. Partilho, portanto, a “Crítica de um filme que eu queria ter escrito”, na esperança de novos recomeços para todos/as nós.

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Filme: Entre Sombras

Um drama existencialista francês que nos convida a observar a passagem do tempo e a revelação das sombras escondidas na alma a partir das cartas escritas por Georgine (Isabelle Lebrun) para sua neta Alaine (Lilou Garlen), entregues à família após a sua morte no hospital psiquiátrico. Nelas, mais do que a visita ao passado, a neta revive os principais acontecimentos da vida da avó, que a levam a perceber através do diálogo com o tempo, um espelho para entender a sua própria história.

 

Gerações de mulheres

A cineasta argelina radicada na França, Amina Mas’ouda, presenteia o público com mais um longa sensível e enigmático que exalta “la douceur féminine”, a partir do legado de vida que percorre as diferentes gerações de mulheres da família Sorell. Entretanto, para Amina, essa doçura “não é e nunca poderá ser esvaziada da força que essas mulheres carregam ao questionarem os padrões sociais, culturais e políticos de suas épocas. É um filme atemporal, porque ainda hoje vivemos muitas das angústias que nossas bisavós viveram”.

Além de uma fotografia formidável que traz um constante contraste entre a França dos anos 1960 e a dos tempos atuais, o que é por si só é um dos elementos mais fascinantes do longa, o roteiro merece destaque, pois exigiu 7 anos de pesquisa para ser concluído. Ele foi escrito a partir de uma série de entrevistas realizadas pela equipe, em que diferentes gerações de mulheres francesas foram convidadas a dividir suas dores e conquistas ao longo de suas trajetórias, inclusive a própria Amina. “Georgine e Alaine não são mulheres desconhecidas, ou criadas aleatoriamente, não, somos minha avó e eu, de quem sempre ouvi histórias e com quem aprendi a ser quem eu sou hoje”, disse a cineasta durante o lançamento do filme.

Para fãs e críticos, esse é o resultado do trabalho que Amina tem realizado ao longo de 20 anos com mulheres imigrantes na França através de seu projeto “Qui nous sommes?”, que busca inserir estas mulheres na sociedade francesa ao mesmo tempo em que resgatar e preservar suas próprias culturas e individualidades, “muitas das entrevistadas estão do QNS? e ficaram muito felizes em saber que suas próprias histórias virariam o roteiro de um filme”.

Trata-se de uma verdadeira obra de arte que vale a pena ser assistida, a história das histórias, com o poder de fazer com que questionemos a nós mesmas.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Livros lidos em 2020

Livros lidos:

Janeiro:

04. Formas de Voltar para casa - Alejandro Zambra - Chile
04. Incabível - Dani Rosolen - Brasil
10. Na casamata de si - Pedro Tostes - Brasil
12. Quintais - Geruza Zelnys - Brasil
14. O peso do coração de um homem - Micheliny Verunschk - Brasil
16. Os sete gatinhos - Nelson Rodrigues - Brasil
27. Bom dia, camaradas - Ondjaki - Angola

Fevereiro

11. Una novelita lumpen - Roberto Bolaño - Chile
11. Os anões - Verônica Stigger - Brasil

Março

14. A casa dos espíritos - Isabel Allende - Chile *
16. Felicidade Clandestina - Clarice Lispector - Brasil
17. A via crucis do corpo - Clarice Lispector - Brasil

Abril

01. Ideias para adiar o fim do mundo - Ailton Krenak - Brasil
02. Esaú e Jacó - Machado de Assis - Brasil

02. A identidade - Milan Kundera - República Tcheca
10. Memorial de Aires - Machado de Assis - Brasil
19. O amanhã não está à venda - Ailton Krenak - Brasil

Maio

01. Noticia de um sequestro - Gabriel Garcia Marquez - Colômbia
03. O estrangeiro - Camus - França/ Argélia

11. O carteiro e o poeta - Antônio Skármeta - Chile *
21. A peste - Camus - França/Argélia
30. Cantiga de findar - Julián Herbert - México *

Junho

15. A náusea - Jean-Paul Sartre - França
24. Nocilla Experiene - Agustin Fernández Mallo - Espanha (releitura)
26. Literatura Expandida: arquivo e citação na obra de Gonzales-Foerster - Ana Pato - Brasil

Julho

11. Por cima do mar - Débora Dornellas - Brasil *
24. Perifobia - Lilia Guerra - Brasil *
28. Livro dos homens - Ronaldo Corrêa de Brito - Brasil *
29. Seis passeios pelo bosque da ficção - Umberto Eco - Itália

Agosto

01. Invisíveis - Adriano Moura - Brasil
08. As coisas que perdemos no fogo - Mariana Enriquez - Argentina
09. O corno de si mesmo e outras historietas - Marquês de Sade - França
15. O sêmen do rinoceronte branco - Cinthia Kriemler - Brasil
15. Depois do futuro - Franco Berardi (Bifo) - Itália
20. Coletânea Afrofuturismo - Vários autores - Brasil

Setembro

01. O cemitério de pianos - José Luis Peixoto - Portugal *

Outubro

11. O Ateneu - Raul Pompéia - Brasil

Novembro

03. Nove Noites - Bernardo Carvalho - Brasil
05. José e Pilar (Conversas inéditas) - Miguel Gonçalves Mendes - Portugal
20. Passatempoemas - Carolina Zuppo Abed - Brasil
21. Rio Noir - Vários Autores - Brasil *
22. O beijo da mulher aranha - Manuel Puig - Argentina

Dezembro

05. Luto - Eduardo Halfon - Guatemala
07. Querida Konbini - Sayaka Murata - Japão
14. Não aceite caramelos de estranhos - Andrea Jeftanovic - Chile
18. Televisão (Tecnologia e Forma Cultural) - Raymond Williams - País de Gales
23. Montevideanos - Mário Benedetti - Uruguai *
23. 24/7: Capitalismo tardio e os fins do sono - Jonathan Crary - EUA
24. Karen - Ana Tereza Pereira - Portugal
29. Morra, amor - Ariana Harwicz - Argentina
30. Andaimes - Mário Benedetti - Uruguai








domingo, 20 de dezembro de 2020

O gênio

Era o primeiro Natal em muitos anos que ele sentia fazer a coisa certa. Já havia perdido as contas de quantos natais passou sozinho, sentindo que deveria estar cercado de pessoas ainda que sem vontade. Pelo menos dessa vez essa era justamente a recomendação para a população. Nada de festas com aglomerações.

Ultimamente estava mais fácil passar as festas sozinho. Nada diferente de vários fins de semana ao longo do ano, que passava maratonando séries aleatórias. Bem melhor que aguentar a programação da tevê. Sentia como se há séculos a internet oferecesse entretenimento, mas também lembrava dos últimos anos desconectados.

Não lembrava quase nada de xadrez, mas ouviu tanta gente falando sobre o Gambito da Rainha, que resolveu arriscar. Pelo menos aprendeu de cara que sempre esteve errado. A vida toda se referindo às próprias canelas como gambito, ao invés de cambito.

E assim se passaram quase sete horas natalinas. Não achou ruim, só achou previsível. Desde criança, perdeu as contas de quantos super gênios, com um dom natural manifestado desde a infância, acompanhou nas telas.

Na verdade, passou toda a juventude esperando por seu próprio dom. Sonhava com a grande descoberta, que o faria ser o melhor em alguma coisa. Seria respeitado. Daria a volta por cima. Seria grande e todos lhe dariam o devido valor. Acabou jogado na poltrona, vendo o que apelidou de Rock IV de saias, pela eterna disputa entre EUA e URSS nas telas.

Provavelmente o primeiro sonho foi ser jogador de futebol. Talvez o maior artilheiro ou o goleiro que não levava gol nem de pênalti. As primeiras peladas na escola deram conta de descontruir a ideia de um novo Pelé. Depois pensou em ser um grande músico. Quem sabe um baterista, ou um frontman guitarrista, de repente um violonista. Nada que passasse dos primeiros acordes.

Assim foram os pretendidos dons de ser um desenhista que revolucionasse os quadrinhos, um escritor de best sellers, um comediante que arrancaria risos com facilidade, um gênio da informática, um cientista renomado, ao menos um funcionário exemplar, sem o qual a empresa parasse.

Aos poucos os sonhos grandiosos deram espaço a mediocridade mais comum. Com empregos comuns, com dias comuns, com a vida mais cansativamente comum que jamais poderia sonhar. O dom especial que tanto almejava assistindo aos filmes nunca apareceu

Depois de tanto tempo esperando o dom que o transformaria no protagonista, se conformou com o papel de coadjuvante, até não poder mais negar que era um reles figurante, que passa despercebido pela própria vida. Já era tarde para desencaixotar o tabuleiro de xadrez, abandonado quando mais um possível dom foi frustrado.