terça-feira, 20 de abril de 2021

O homem sem tarja

Tenho simpatia por pessoas que sabem um pouco de tudo. Mesmo sem aprofundar muito em um assunto e sem usar termos técnicos restritos aos especialistas, essas pessoas têm desenvoltura em qualquer conversa. Cientes de seus limites, não hesitam em questionar e possuem a sabedoria de ouvir, ampliando assim o conhecimento.

Claro que a quantidade de informações produzidas pelos humanos é imensa. Sempre haverá aquele livro que já deveria ter sido lido, aquele filme que já deveria ter sido visto, aquela música guardada no desconhecido. Ainda assim, pessoas que sabem um pouco de tudo conseguem se situar em uma conversa.

Sem ter lido um livro, sabem ao menos sobre o que ele trata. Conhecem um pouco sobre o diretor daquele filme que está na fila para ser assistido há tempos. Possuem um repertório musical extenso, capaz de encontrar uma referência na memória, mesmo quando o assunto seja um grupo folclórico do interior do Azerbaijão.

Dá gosto de dividir a mesa do bar com essas pessoas. Ou ao menos dava, quando podíamos dividir uma mesa de bar sem medo da pandemia.

Os especialistas também têm seu mérito. São aquelas pessoas que passaram a vida estudando, não um assunto, mas uma fração de um assunto. É aquele médico que se especializou na cirurgia de joelho direito; se precisar operar o joelho esquerdo ele já se complica.

Pessoas assim podem ser indispensáveis, sobretudo quando precisamos justamente da especialidade em questão, mas convenhamos que nem só de especialização vive o homem. Um pouco de distração e até de futilidade às vezes caem bem.

Um grande risco de quem resolve ser especialista supremo de um assunto é achar que sabe de tudo e pode opinar, com a mesma autoridade, sobre qualquer assunto. Bons tempos quando o alvo predileto era a escalação da seleção e todo brasileiro se achava técnico. Hoje todos se consideram cientistas políticos e as consequências têm sido trágicas.

Em 2007, dia 16 de agosto, eu vagava por artigos da Folha na biblioteca da faculdade quando esbarrei no título “Antidepressivos, aspirinas e urubus”. Não compreendi o trocadilho com o filme “Cinema, aspirinas e urubus”, de Marcelo Gomes, mas fui atraído pelos antidepressivos.

Pelos treze anos seguintes, todas as quintas era sagrada minha leitura dos artigos do Contardo Calligaris (1948 – 2021). Além de especialista em psicanálise, não sabia de tudo um pouco, mas de tudo muito. Com o passar do tempo conheci seus livros, assisti à série Psi e vi algumas apresentações, ao vivo ou no Youtube, que mostram bom humor maior do que os textos deixam transparecer. Lamento não ter visto a peça “O Homem da Tarja Preta”, de 2009.

Contardo foi uma das pessoas com quem mais aprendi. Não sobre um tema específico, mas sobre a vida. A forma de buscar outros pontos de vista a respeito de um mesmo assunto, de se portar diante de certas situações e como construir nosso próprio legado em uma existência efêmera.

Entre tantas reflexões, chamou minha atenção a ideia de não buscar uma vida feliz, mas uma vida interessante. Fisgado pelo título de um artigo sobre antidepressivos, desenvolvi nos anos seguintes a ideia de que os antidepressivos não são mágicos. Ajudam, mas não substituem o empenho para ter uma vida interessante.

domingo, 18 de abril de 2021

caçadora de ventos

São Paulo, domingo, 18 de abril de 2021.

- caçadora de ventos - Cristina Santos - post 12 - Blog das 30 pessoas - 

título: caçadora de ventos 

   Esse ano eu ia me tornar caçadora de ventos e parar o tempo que tem muita tempestade nas veias. Eu ia viver os verões dos beijos, dar risadas de rosas a cada hora e caminhar nas respirações.
   Esse ano eu ia me escrever nas formas do rio, me confessar sereia e aprender a dançar a melodia jazzística da lua. 
   Esse ano eu ia beber dos universos, mas os versos frios me jogaram para a tempestade do tempo e não deu tempo de me tornar caçadora de ventos. 

   Oiê!  Espero que estejam bem 💜 
   Até o próximo post.
   Beijos,
   Cristina Santos

   P.S.: o conto: caçadora de ventos, é inédito, e eu o escrevi na quinta-feira dia 08/04/2021.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Gnomos

Acreditava em gnomos. E de acreditar, jurava vê-los correndo pelas gramas da praça ou, ainda mais fantástico, pela baça lente de uma luneta apontada para a lua. Não me lembro de enxerga-los, mas a história virou lenda familiar, repetida tantas vezes a ponto de confundir imaginação e lembrança que formei a partir das narrativas alheias. E nunca houve, para minha felicidade, um adulto que desmentisse a existência dos seres mágicos. Ao contrário, estava cercado de pessoas que incentivavam minha imaginação com mais detalhes, perguntas que estimulavam meu falar. De certa forma, a criança inventiva dava permissão para que os mais velhos liberassem um sentimento lúdico que andava preso pelos anos e pela rotina do concreto.

Ouvi dizer que era preciso deixar uma maçã em um canto da casa para que os pequeninos se alimentassem. Na verdade, não sei se ouvi mesmo esta instrução ou se é mais uma memória construída com ficções. Sei que gravou-se em mim a imagem de uma maçã murchando sob o móvel antigo que atulhava o estreito apartamento. Nossos cômodos tinham móveis rústicos, quase sempre de um marrom escuro (ou seria isso efeito do filme antigo dos meus olhos-registradores?) e uma fina camada de poeira eterna. Não tenho certeza, acho que jamais observei mínimas pegadas. O que só aumentava meu fascínio pelos duendes. Ou gnomos. Só anos mais tarde descobri as diferenças entre eles, porém sempre preferi chama-los de gnomos. Gostava do som da palavra, o choque de consoantes no início, a repetição das letras o’s.

Meu pai trabalhava em uma loja de móveis usados, o que justificava o apartamento então novo mobiliado com objetos antigos. Creio que esta decoração não planejada apontava já meu futuro interesse por ruínas, por vestígios de vidas gastas. Quando um móvel não acompanhava a mudança de gosto da pessoa, lá iam os funcionários da loja buscar na casa do cliente o trambolho. Vez ou quase, um deste objeto surgia como encaixe perfeito para uma parede vazia e uma necessidade cheia, então meus pais ficavam com o móvel por um desconto no salário. E sempre era possível encontrar um brinde, algo deixado pelos antigos donos das gavetas: falsas bijuterias, dinheiro sem valor, retratos.

Rememoro um final de tarde, voltava para casa com minha mãe e meu irmão. Eu balançava entre os seis e sete anos, passava o dia todo na escola, sondando letras. Ainda as descobria e já sentia prazer em observar suas curvas. Aquela terça-feira desabava em chuva, ritmava o barulho da galocha que usava em dias assim, calçado coaxando enquanto subia todos os degraus até o último andar. Meu pai abriu a porta mal chegávamos à sua frente. Tinha o rosto espantado, vigiava por trás de nós, olhando paredes e chão:

- Você não imagina o que aconteceu.

Não esperou que eu perguntasse, tamanha euforia em dar a notícia:

- Quando eu cheguei agora há pouco, abri a porta do apartamento e cinco gnomo saíram correndo, passaram por baixo das minhas pernas e desapareceram na escada. Quando fui ao seu quarto ver porque ele vinha de lá...

Entrei sem pressa de ver o que me aguardava. Estava atento ao relato, minha fantasia se desdobrava na correria dos diminutos entes. Meu pai indicou o caminho, sugerindo que eu fosse descobrir o que tinham deixado para mim. Sob a minha cama, uma pilha de livros fabulosos: Aladim, Peter Pan, Alice no País das Maravilhas. Abracei cada um daqueles livros, ignorei o cheiro de guardado que traziam impressos em suas páginas. Passava os dedos com calma sob as ilustrações, investigava com cuidado as sensações gráficas que um bloco de texto me dava. Aqueles livros, enquanto objetos, foram minhas primeiras sensualidades. Ainda hoje, quando encontro um livro excitante, leio com todos os sentidos despertos. Sou atraído por encantamentos. Porque em algum lugar em mim ficou a discreta crença de que gnomos é que são os verdadeiros editores.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Doutorado na Escócia

Amiga leitora e amigo leitor,

Hoje vim contar para vocês, tintim por tintim, como consegui a bolsa de doutorado na Escócia. Foi uma jornada muito legal e acho que será mais ainda quanto eu chegar lá!

Primeiro, começo dizendo que não foi algo que aconteceu na noite para o dia. Passei muito tempo matutando como, onde, com quem e em qual projeto eu faria o meu doutorado. 

Eu diria que o primeiro grande passo foi ter uma ideia do que eu queria estudar. No meu caso, eu queria estudar sistemas alimentares sustentáveis de forma quantitativa e analítica, juntando assim as minhas experiências acadêmicas e profissionais prévias. Eu também fazia questão de encontrar um/uma orientador/orientadora que fosse bem parceiro e gente boa. O último critério importante era o financiamento, sem isso não teria como encarar quatro anos de estudos/trabalho. O critério do financiamento meio que eliminou o Brasil como uma possibilidade, visto que as bolsas aqui são escassas e quando existem, não cobrem nem mesmo as minhas atuais despesas com moradia. Então, para fazer doutorado no Brasil eu teria que ter algum trabalho paralelo, o que seria um grande desafio.

Tendo esses três critérios bem definidos (área de estudos, perfil do orientador, necessidade de financiamento) eu comecei a fazer buscas na internet. Basicamente eu ia no google e digitava algumas palavras chave relacionadas com a minha área como "phd sustainable food system", "phd nutrition data science" e assim por diante. Outros três lugares que eu procurava bastante era no findaphd (global), euraxes (europeu) e academictransfer (holandês), basicamente usando as mesmas palavras chaves.

Encontrei algumas vagas interessantes por todos esses métodos. Fiz a inscrição em seis vagas, fui convidada para entrevista em quatro delas (duas na mesma semana, inclusive). A vaga da Escócia especificamente, encontrei no findaphd . Na descrição da vaga, notei que o orientador era brasileiro de sobrenome Silva (como o meu) e fiquei super empolgada. Logo decidi escrever um e-mail para ele. Essa, aliás, era uma prática comum. Eu sempre escrevia para o orientador antes de me candidatar a vaga. A maneira como eles me respondiam contava muito na minha decisão de me inscrever ou não.

Os primeiros e-mails com o meu orientador de Edinburgh foram bem normais. Nessa troca de e-mails estávamos discutindo alguns requisitos para a vaga, dentre os quais estava o conhecimento prévio de modelagem econômica, algo que eu não tinha. Eu assumi de peito aberto o fato de não ter nunca mexido com modelagem econômica, destaquei outros pontos fortes que eu tenho e, em minha defesa, mencionei o nome de um colega/mentor de trabalho, que é economista, e que poderia me ajudar na aprendizagem de modelos econômicos.

Para a minha surpresa (e sorte!) o orientador da vaga conhecia muito bem esse meu colega e daí o tom da conversa mudou completamente! Senti uma abertura maior e talvez até um incentivo para que eu me inscrevesse na vaga, quase como se eu tivesse sido adotada. Veja você o poder do networking, tão mencionado pelo programa de bolsas Chevening.

Depois das conversas iniciais, fui toda feliz e segura fazer a minha inscrição. Imagina só a minha alegria quando recebi o convite para a entrevista! Sem demora confirmei a minha disponibilidade de horário e agradeci muito pela oportunidade. Para a entrevista, eu precisaria preparar uma apresentação de 10 minutos de algum trabalho que eu já tinha feito ou que pretendia fazer.

Na Universidade de Edimburgo, os orientadores não participam diretamente da avaliação do candidato. A banca entrevistadora é composta por outros profissionais. Dito isso, sinto que posso compartilhar que os meus orientadores (o orientador principal, brasileiro, e o co-orientador, britânico), me perguntaram se eu já sabia o que iria apresentar e me ofereceram ajuda! Sim, foi isso mesmo. Antes da entrevista oficial, fizemos uma "mock interview" (simulação de entrevista) e eles me deram dicas muito preciosas do que falar, não falar, perguntar e etc.

O grande dia chegou e eu me sentia bem animada e confiante! A entrevista foi bem legal, os membros da banca bem amigáveis e acolhedores. Mais ou menos 40 minutos depois da entrevista, eles me procuraram de novo, perguntando se podiam me ligar. Infelizmente eu estava a caminho do trabalho na hora e não pude atendê-los. Daí, eles acabaram me escrevendo por e-mail mesmo: a notícia era de que eles tinham gostado muito do meu perfil e gostariam de me oferecer a vaga! Sério, gente, quase infartei na hora. Nem consegui trabalhar naquele dia! Era uma sexta-feira, então o final de semana foi todo em torno disso.

Para comemorar junto com vocês, deixo aqui alguns registros da tradição escocesa, feitos em 2018, quando passei 3 dias passeando em Edimburgo.


Gaita de fole no centro de Edimburgo

  


Eu e minha amiga Tati, perto do Castelo de Edimburgo




Haggis, um prato típico da culinária Escocesa




Abraços e até o próximo dia 15.
Jacque.



segunda-feira, 12 de abril de 2021

Gentil

É possível nestes tempos ser gentil? Ou gentileza só existe na tranquilidade dos ventos, no sol da tarde e com um copo de vinho?

Não lembro quando comecei a usar a internet, mas desde 2010 assumi um compromisso com o meu blog e mergulhei neste mundo virtual. Já são onze anos e já passei por várias fases e governos.
Nos últimos tempos ando meio assustada, parece que a internet virou a única janela que temos ao mundo e as pessoas decidiram usá-la para gritar. É isso que se escuta o tempo inteiro, os berros. Pessoas são canceladas, textos criticados, atitudes julgadas e condenadas.

Parece fim de feira, com aqueles gritos de oferta. 
Estamos todos nervosos, sim, com razão. Lidar com uma pandemia já é o suficiente, mas nós estamos em um país à mercê de uma política negacionista.

É justo estar ansioso, histérico, triste e perdido. Estamos todos.
Mas para que transformar a internet em uma arena, onde só quem gosta de brigar se sente à vontade para entrar?

O que se pode resolver aos gritos e ofensas na rede?
Não sou fã da humanidade e jamais vou dizer que acredito no ser humano.

Um pouco de cinismo e o fato de ter nascido sob o signo de Virgem explicam a minha eterna desconfiança com o ser humano.
Sei que diante de tanto caos não se pode esperar abrir a internet e ver pessoas recitando poesias nem cantando. Mas até quando vamos ser rudes e brutos? Até onde vamos com essa falta de gentileza?

Ser gentil é atemporal, não precisa de local nem data. É simples, é fácil.

A nossa falta de gentileza é assustadora. 
Parecemos ou sempre fomos, desgovernados.
No limite não sabemos reagir com gentileza, vamos aos berros.

Ah, mas é fruto da nossa cultura, da nossa história, somos um país colonizado.

Pois é, desculpas sobram. O que falta sempre é gentileza.


Iara De Dupont

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Para um amor no Recife - Para caber numa narrativa

"Para um amor no Recife" é um experimento híbrido criado para pensar a cidade, o meio ambiente, a solidão, o medo, a morte e as novas formas de se relacionar nestes tempos pandêmicos. Exibição dias 8 e 9/4, às 20h.

Espero que você se emocione. As inscrições podem ser feitas gratuitamente pelo http://bit.ly/paraumamor


sexta-feira, 2 de abril de 2021

Neste ser/estar desconexo tempo/espaço.

Silêncio.

No Brasil, mais de 300.000 famílias enlutadas.

Um minuto de silêncio, por amor, respeito e solidariedade.

Ideal mesmo seria mais de  300.000 minutos de silêncio.

No mundo mais de 2.700.000 famílias enlutadas.

Pelo menos até hoje, dia 26.3.2021,

quando escrevo este post.

Mais de 2.700.000 minutos de silêncio seria o  ideal.

 

Os números só servem para contar, eu sei.

para tentar impressionar quem ainda 

não se importa com cada uma das vítimas

desse inimigo, que mata mais do que guerras,

furacões, maremotos, terremotos 

e ataques terroristas.

 

Silêncio.

O soluço da dor ecoa pelo mundo.

Não há nada que possamos dizer.

A não ser calar.

A não ser abraçar.

Mesmo que virtualmente.

Na intenção de apenas ouvi-las chorar.

Na intenção de mostrar que não estão sozinhas.

 

Ruas deveriam estar vazias,

em nome dos cemitérios cheios.

Vidas repensadas rapidamente,

diante do egoísmo governante global.

Certezas desconstruídas,

diante da construção de discursos alienantes. 

No silêncio, além de choros, podemos ouvir

as vozes dos narcisos.


Quanto a mim?

Continuo escrevendo...

Mais do que nunca... em silêncio.

Tempo reservado para os jornais. 

Apenas alguns... escolhidos cuidadosamente.

Tempo reservado para quem amo

e para quem ainda vou amar. 

Renovar.

Afinal, as pessoas que mais amei já 

não estão mais aqui/agora comigo

neste ser/estar desconexo tempo/espaço.

Elas deixaram de ser/estar, antes da pandemia.

Fontes de inspiração.

Por elas, continuo escrevendo.

Por quem chora, continuo escrevendo.

Mais do que nunca 

em silêncio.

Apenas ouvindo e escrevendo.

Por Elisabeth Guimarães

 

 

 

 


sábado, 20 de março de 2021

A responsabilidade do governo

O vulcão La Soufrière, na ilha francesa de Guadalupe, no Caribe, está prestes a explodir. Especialistas não esperam uma erupção, mas uma explosão da montanha, com potência equivalente a cinco ou seis bombas atômicas.


Foram essas informações que levaram Werner Herzog para a ilha, em agosto de 1976. O cineasta alemão e mais dois câmeras contrariaram as medidas de segurança para registrar imagens que renderam o curta “La Soufrière”.

O governo da ilha já havia feito o mínimo que se espera. Protegeu a população local da tragédia, evacuando 75 mil habitantes. Os 17 mil habitantes de Basse-Terre, ao sul da ilha, não negaram o risco que corriam e acataram a evacuação. Herzog encontrou uma cidade abandonada às pressas, muitas casas ainda tinham eletrodomésticos ligados.

Ao caminhar pelas ruas, o silêncio dominava. Parecia até que a população levava a sério um lockdown para barrar um surto de Covid, caso o governo tomasse medidas para salvar a população da pandemia. Apenas os animais circulavam pela cidade em busca de comida.

Assim como na pandemia de Covid, Guadalupe tinha uma referência externa do potencial da tragédia. Em 1902, na vizinha Martinica, os sinais do vulcão Monte Pelée eram idênticos aos do La Soufrière, mas os moradores da cidade de Saint-Pierre, na base do vulcão, permaneceram em suas casas. A população queria fugir, mas em virtude de uma eleição, que já havia sido adiada, o governador não evacuou o local.

No dia 6 de maio daquele ano a cidade foi varrida por uma nuvem de gás quente e os 32 mil habitantes, carbonizados. Atualmente esse número de vítimas é o que perdemos em menos de duas semanas para a Covid. Ninguém em sã consciência quer ser responsável por tantas vítimas. Ainda que o governante seja um psicopata genocida, insensível a tantas mortes, existem as consequências legais dessa irresponsabilidade.

Nem um vulcão prestes a explodir é suficiente para alertar toda a população. Mesmo com o governo fazendo sua parte, Herzog encontrou em Basse-Terre três homens que se recusaram a sair. Seja por acreditar que tudo estava nas mãos de deus ou por acreditar no fatalismo da vida, simplesmente decidiram ficar. Por sorte não tinham poder político nem econômico para influenciar o governo a tomar medidas que prejudicassem a população, devido a crenças sem fundamento.

Desculpem o spoiler, mas preciso contar o desfecho. Inexplicavelmente o vulcão não explodiu, mesmo após sinais de intensidade nunca registrada na história da vulcanologia. O perigo diminuiu gradualmente e depois de algumas semanas a população voltou para casa. Todo o transtorno serviu ao menos para que o mundo voltasse os olhos para as dificuldades econômicas da população pobre da ilha de Guadalupe.

Herzog demonstra frustração com as filmagens que tiveram algo de patético por terminarem em completa futilidade. Nas palavras do cineasta, seu filme mostra "uma catástrofe inevitável que não aconteceu".

Compreensível na visão de quem esperava filmar uma tragédia sem precedentes, mas após 45 anos a história serve de lição. Lição de um governo que não brinca em serviço e não corre o risco de ver a população dizimada. Evacuar 75 mil pessoas implica em trabalho e custo elevadíssimos, mas é melhor entrar para a história por uma catástrofe inevitável que não aconteceu do que por uma catástrofe evitável que aconteceu.



quinta-feira, 18 de março de 2021

os peixes que nadam em minhas lágrimas

São Paulo, quinta-feira, 18 de março de 2021.

- os peixes que nadam em minhas lágrimas - Cristina Santos - post 11 - Blog das 30 pessoas - 

título: os peixes que nadam em minhas lágrimas

os peixes que nadam em minhas lágrimas
saltam para o abismo.
os cremes tentam apagar o tempo.
as existências batem palmas
e pedem atenção.
não são números.
sonhos sem oxigênio.

   Oiê! Espero que estejam bem 💙
   Estamos vivendo um período tenebroso. É difícil conter as lágrimas ... é doloroso. Eu desejo que cada um de nós (e os nossos),  encontre o que é necessário para seguir em frente.
   Na atual conjuntura mundial, usar máscara é um ato revolucionário de amor à vida.
   Até o próximo post.
   Beijos,
   Cristina Santos

   P.S.: o poema: os peixes que nadam em minhas lágrimas, é inédito, e eu o escrevi na quinta-feira dia 11/03/2021.  




terça-feira, 16 de março de 2021

Amigo Invisível


Caro desconhecido,

 

            ontem, enquanto me preparava para jogar fora todo o lixo reciclável que se acumulou ao longo da semana, tanto no apartamento quanto em minha cabeça, lembrei por um instante de você. E ao deixar o material na calçada à espera de outro destino, observei o boteco da esquina às escuras, um resto de chuva ainda escorrendo pela lona. Tive saudade. Não o vejo desde o início do isolamento, embora me parecesse que você já estava em um autoexílio desde sempre. Mas que bobagem estou falando? - este sempre a que me refiro só começa a ser contado a partir do momento em que percebi pela primeira vez a sua constante presença na mesma mesa, sentado na mesma posição e com o mesmo cenário: uma ou duas garrafas de cerveja, um copo pela metade, uma bolsa lateral sobre o colo e, eventualmente, um caderno surrado que você folheava sem pressa.

*

            Uma tarde quente voltávamos de algum lugar e você estava lá, esperando o fim do dia. Confidenciei à minha companheira que sempre o via por ali e ela revelou que também notara seu devotado comparecimento. Naquele instante começou nossa aventura de cogitar sua personalidade, sua biografia: sua roupa revelava alguém que não se atém em preocupações sobre qual a melhor combinação, usando quase sempre o mesmo estilo de calça e camiseta. Talvez isso seja um engano de minha dedução e você gaste um pouco o pensamento em aparentar uma figura descuidada no vestir. Conheço o tipo. Aliás, também reconheço esse olhar quase sempre fincado com uma ruga entre as sobrancelhas, apontando para um carro ou um poste do outro lado da rua e que, sabemos, não está mirando nem carro, nem poste, porém uma ideia que mistura metafísica e a conversa animada da mesa vizinha. Um professor? De História, talvez? Um escritor? Aquele caderno tem o rascunho de um romance que há anos você reescreve à mão, suponho. Depois cogito serem poemas que você anota na mesa (sim, observei que você escreve no caderno quando em vez) e imediatamente minha expectativa de observador conjetura que você gosta de Baudelaire e conhece de cor o poema A uma Passante, e partilha da sensação do poeta francês vivendo no início da modernidade europeia: a grande cidade, com suas multidões, coloca em alta velocidade as percepções e o encontros.

*

Em outro início de noite comentei contigo sobre essa narrativa que criei ao redor de sua existência e você me explicou que a expectativa é sempre do observador, não do observado e portanto a frase anterior - ‘minha expectativa de observador...” – era uma redundância.

            Essa conversa foi criada por minha companheira, que depois de tanto darmos contigo no mesmo lugar, deu de imaginar que você era uma versão minha do futuro: sozinho, bebendo e pensando sobre um escrito. Tremo, evidente. Não bebo cerveja e não sou sozinho. Ela ri e diz que o meu amigo também riria com o fato de eu titubear em ser igual a ele. Não, amigo, não tenho receio em ser como você: só quero que você seja outro, inteiramente outro com suas experiências, sua vida. Um alguém que me apresenta um novo elemento em um sábado, quando o boteco está cheio devido à famosa feijoada e em sua mesa tem dois adolescentes.  De passagem escuto a conversa, você fazendo um apanhado das últimas notícias políticas e instaurando uma crítica com a qual concordo. Os adolescentes não estão muito interessados, principalmente a menina. Ela responde com palavras curtas enquanto a expressão entrega o desejo de estar em outro lugar. Então temos uma virada no roteiro que designamos ao nosso personagem: não é tão solitário, há filhos e, possivelmente, uma ex-esposa com a qual ele não se dá e por isso ela nunca aparece nesse almoço, um momento com o pai que se repete por meses, intermitentemente, até um dia em que a menina não tem mais interesse na relação e o menino desaparece dentro do celular até sumir por completo e meu amigo voltar a beber sozinho, qualquer dia da semana. Digo beber por conta da garrafa sobre a mesa, mas a verdade é que nunca o vi dar um gole sequer.

*

            Todas essas elucubrações poderiam ter respostas se eu chegasse até sua mesa, encarasse sua imagem de hippie anacrônico e perguntasse: quem é você? Você se assustaria com essa intromissão ou logo declararia que há tempos esperava por minha pergunta? E se eu descobrisse que você é o contrário de qualquer possibilidade que cogitei, alguém desinteressado de literatura, um agiota ou alguém que vive de alugar imóveis e o caderno é apenas o controle dos recebimentos? Ou você finalmente beberia e, incomodado com minha curiosidade, se levantaria em silêncio e buscaria outro boteco de esquina para pousar. Não, prefiro alimentar as fantasias que desenhei para meu personagem, como alguém que começa a diminuir o ritmo da leitura de um livro com pena de acabar o contato com aquela realidade.

            Mais uma vez reitero minha saudade e espero que esteja bem.

 

                                                Abraços desse que o acompanha episodicamente,

 

...


segunda-feira, 15 de março de 2021

Sassenach

Oi pessoal!

Quem aí já assistiu Outlander, aquela série romântica sobre a enfermeira inglesa Claire Randall que viaja no tempo, vai para na Escócia, se apaixona e vive um romance mamão com açúcar com o escocês Jamie Fraser?

Se você assistiu, conhece bem o termo "sassenach". Para quem não assistiu, "sassenach" é o termo que o mocinho escocês usava para se referir a sua amada inglesa. Originalmente, sassenach era um termo usado pelos escoceses para se referir aos ingleses, geralmente em tom pejorativo ou de deboche. Na série Outlander, esse termo acabou se tornando um apelido fofo e romântico.

Embora sassenach se refira exclusivamente a ingleses que estão na Escócia, como a série se chama Outlander (forasteiro/estrangeiro na minha tradução chucra), uma amiga minha tomou a liberdade de ampliar o significado da palavra e me apelidou de sassenach quando soube que eu estava de mudança para a Escócia.

Como assim, Jacque? Você vai para a Escócia?! 


É isso mesmo, meu povo! Estou fazendo as malas. O motivo: ganhei uma bolsa de doutorado na Universidade de Edimburgo, umas das melhores universidades do mundo (a top 20, para ser mais precisa). Irei estudar mudanças na dieta brasileira para deixá-la mais sustentável, e avaliar quais seriam os impactos sociais, econômicos, ambientais e de saúde dessas mudanças. O meu orientador é brasileiro, de sobrenome Silva como eu! 

Estou muito feliz, pessoal! E queria compartilhar essa alegria com vocês. O meu curso começa em outubro desse ano e se tudo der certo (e a pandemia deixar), eu devo me mudar no final de setembro.

Só para deixar registrado aqui, foram pelo menos 12 meses galgando esse doutorado. Conversei com várias pessoas, no Brasil e fora dele, estudei várias possibilidade e projetos, me inscrevi para pelo menos seis vagas fora do Brasil, passei por quatro entrevistas até finalmente ser aprovada em uma vaga. Foram vários não, mas eu só precisava de um sim!

Temos muitos conteúdos para posts futuros! No próximo dia 15, vou contar para vocês a minha trajetória até conquistar essa vaga em Edimburgo.

Até breve,
Jacque.



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sexta-feira, 12 de março de 2021

Raso

Quando eu era pequena me levaram para conhecer o mar. Me deixaram brincar na areia e me explicaram que tinha que ficar na areia, longe das ondas do mar, porque o mar era perigoso e profundo.
Pronto. Estabeleci nesse momento respeito por tudo que fosse profundo.

Anos depois eu nadava no mar, quando fui alertada por um grupo de banhistas para não me afastar tanto, porque o mar era agitado e profundo. Fiquei uns minutos ali até que senti o poder da água, que tentava me puxar para o outro lado. 
Consegui voltar para a areia, mas muito cansada, tinha exigido demais de mim essa briga com o mar.

Profundidade sempre foi para mim um caso sério, de respeito. Profundidade em tudo, nas ideias, nos sentimentos, na vida.

E hoje percebo a enorme dificuldade que tenho em me adaptar a um mundo raso, que vive na areia, longe das ondas e das profundidades.
O profundo não é mais perigoso, apenas não é ''tão legal assim''.

A superficialidade dominou o planeta. O rápido, o raso, o vazio. Os sentimentos que são criados em um dia e mortos no dia seguinte.

E não vou reclamar, até encontrei o lado bom de viver em uma humanidade rasa. Não se precisa argumentar nem dizer nada, todos já nascem com os pensamentos em ordem e as ideias na ponta da língua. 
Não é preciso sentir a intensidade do profundo para amar, gostar é suficiente.

O mar continua profundo? Talvez não. Já contaminado pelo ser humano, ocupado por grandes empresas que se dedicam a destruir o planeta, transformado em lata de lixo. Talvez o mar não seja mais profundo.
O raso dominou tudo. O que pensamos, sentimos, como vivemos, tudo é apenas areia, sem profundidade, sem grandes ameaças.
O profundo não existe mais.
Só resta nos adaptar ao raso, que cada dia é mais raso, liso e sem sentido. É apenas o raso sendo raso.


sábado, 6 de março de 2021

Conexão

Somos fantasia, corpos sem beijos,
desejo.

Inalamos o ar, buscando o que seria o gozo pele, suor e saliva.

Devaneios de encontros.
Nossos olhos miragem: mãos, seios, bunda, bocas, peito.
Infinitos em abraços vazios.

Somos movimento no ar.
Reflexo lânguido do que queremos.

Seus cabelos se emaranhado nos meus dedos.
Meu cheiro preenchendo seus poros.
Nossa papilas se molhando,
nos envolvendo.
Sexo de nossos corpos inteiros.

Vivemos a realidade,
conectados em encontro,
Aquecemo-nos.

terça-feira, 2 de março de 2021

Philippe Scerb fala por mim

Sou leitora do site "A Terra é redonda". Em meio a tantas palavras que gostaria de dizer, encontrei o artigo de Scerb. Então, me calei. As palavras dele falam por mim. Com licença de todos, todas e todis vocês, publico aqui o texto de Philipe. Sim. Neste mês, ele fala por mim.


Política para quem?

Por Phillipe Scerb*

A relação entre os mais pobres e a política da qual dependem é melancólica e desprovida de potência

De uns meses para cá, quem caminha pelo Minhocão, em São Paulo, não vê apenas fachadas desgastadas de prédios antigos e jovens descolados que passeiam, correm e pedalam nos fins de semana em que o elevado vira parque e fecha o acesso a automóveis. Muitas vezes ao lado de pichações e grafites que tão bem expressam um processo de gentrificação que convive em harmonia com a pobreza e a degradação, saltam à vista mensagens críticas a Jair Messias Bolsonaro e ao seu governo.

Em um domingo do início de fevereiro, notei uma delas pela primeira vez. Em um pano roxo, pendurado no parapeito de uma janela na altura da estação Santa Cecília, lia-se: “Quantas mortes faltam para o impeachment?”. Naquele momento, não pude deixar de lembrar de uma passagem de um livro que acabara de ler.

 Nas últimas páginas de “Quem matou meu pai”, o escritor francês Edouard Louis descreve um episódio de sua infância em que sua família faz uma breve viagem à praia para comemorar uma medida do governo que aumentava em cem euros o benefício que pais de alunos recebem anualmente para financiar os custos ligados à volta às aulas.

Segundo Louis, que depois do ensino médio deixou a decadente cidade industrial em que morava no norte da França para estudar em uma prestigiosa faculdade parisiense, aquela lembrança guardada com tanto carinho reflete uma diferença fundamental na relação entre os mais pobres e os mais abastados com a política. Para os primeiros, a política é uma questão de vida ou de morte – e seu livro faz questão de deixar isso claro ao descrever os efeitos nocivos de algumas medidas governamentais sobre a saúde mental e física de seu pai. Já os dominantes nunca vão à praia para festejar uma decisão política. Eles podem reclamar de governos de direita ou de esquerda, mas a política não afeta sua saúde, não muda suas vidas – ou muito pouco. Para a maioria deles, diz Louis, “a política é uma questão estética: uma maneira de pensar, uma maneira de ver o mundo. Para nós, é viver ou morrer”.

Não parece exagerado dizer que poucas vezes esse foço foi tão profundo quanto é hoje. Por um lado, a política deixou de ser um assunto modorrento, desinteressante, secundário para se tornar um dos principais critérios para a definição da identidade de parte das classes média e média alta. Praticamente tudo é politizado, das preferências alimentares à audiência do Big Brother Brasil, pois o pertencimento a determinados grupos sociais passa agora pelo compartilhamento de uma visão de mundo em boa medida permeada por valores de ordem moral. Daí a necessidade, por exemplo, de respeitar orientações rígidas no que diz respeito à linguagem e ao comportamento.

Mas se a política ocupa hoje um lugar central na vida daqueles movidos, nessa relação, por imperativos estéticos e culturais, ela tem recebido pouca atenção daqueles cuja sobrevivência depende de seus rumos. Embora leis e medidas governamentais signifiquem a vida ou a morte dos mais pobres, seu desinteresse genuíno tende a contrastar com o engajamento virtuoso e por vezes histérico dos primeiros. E os motivos não são de impossível compreensão.

Durante um bom tempo, o sentimento que prevaleceu em relação à política foi a indiferença. Depois de décadas marcadas por forte conflito entre ideologias e projetos de sociedade antagônicos, os anos 80 trouxeram, ao mesmo tempo, o esfacelamento do mundo comunista e a sujeição de partidos progressistas à agenda neoliberal. O novo consenso extinguiu as distinções mais visíveis entre as forças em competição pelo poder político e retirou dela a relevância de outrora. A alternância entre governos de direita e esquerda, ao fim e ao cabo, resultava em mudanças incrementais e não mais justificava um interesse acentuado por uma política que, se já não expandia as possibilidades de vida dos trabalhadores, não as restringia drasticamente.

Com os desdobramentos da crise financeira de 2008, porém, a apatia deu lugar à indignação e a um desejo difuso de transformação em um ambiente de deterioração acelerada das condições presentes e das expectativas futuras. À medida que o sistema democrático se mostrava impermeável aos interesses e ao controle das maiorias e as forças políticas tradicionais não indicavam nenhum compromisso com a mudança, boa parte da população recorreu àquilo que, aos seus olhos, apareceu como a transformação mais radical que poderia encontrar. É nesse contexto que, tanto no centro como na periferia do capitalismo e depois de um ciclo significativo de protestos, lideranças e partidos de extrema direita ascenderam como única alternativa real a uma ordem que se esgotava.

Em vários países, eles chegaram, inclusive, a alcançar os principais espaços de poder. O que inaugurou um novo período no que concerne à relação dos cidadãos com a política. Parte daqueles que não dependem dela para sobreviver passou a ver na crítica contundente aos novos e lamentáveis governantes o melhor meio para reforçar a grandeza de sua identidade e de seus valores. Manifestações de reprovação nas mais diversas redes sociais, nas conversas com conhecidos e nas janelas, com faixas ou panelaços, cumprem bem essa função.

Mas entre aqueles para quem, nas palavras de Louis, a política é uma questão de viver ou morrer, o atual momento é menos de revolta e engajamento e mais de resignação. É como se a mudança que se mostrara possível se revelasse inócua para a ampliação das suas possibilidades de vida. É claro que nem todos eles apoiaram e votaram em lideranças como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Boa parte, inclusive, desaprova seus governos. No entanto, a grande maioria reconheceu neles a única renovação disponível, para o bem e para o mal, frente a um sistema dominado por elites homogêneas e a uma ordem insensível às suas demandas imediatas e incapaz de atender às suas expectativas de mais longo prazo.

Além dos seus efeitos material e simbolicamente regressivos, portanto, o populismo de direita ainda tem esvaziado qualquer esperança de alternativa política à combinação vigente entre um neoliberalismo a cada dia mais agressivo e uma democracia liberal a cada dia menos afeita ao controle e à participação popular. Pois a mudança que esses governantes prometem e, de maneira mais ou menos retórica têm entregado, não melhora em nada a realidade e as perspectivas dos subalternos.

A relação entre os mais pobres e a política da qual dependem se torna, assim, melancólica e desprovida de potência. Afinal, se seu cotidiano é marcado por uma luta dura e, via de regra, individual contra a degradação de suas condições objetivas e pela mais elementar sobrevivência, a política tem se mostrado um instrumento com o qual não podem contar para alterar essa realidade. E que sequer merece seu interesse e sua limitada energia.

A reação tímida da maioria dos governados em relação aos abusos do governo Bolsonaro é o sintoma mais claro desse problema. Mesmo frente a uma administração que não se priva de flertar abertamente com a morte e a restrição acentuada das possibilidades de vida, a resistência e a mobilização popular carecem da confiança, imprescindível, de que as coisas poderiam ser diferentes.

Não se pode esperar nada de uma direita dita democrática na medida que sua força social advém de uma burguesia disposta a abrir mão do poder político para acomodar seus interesses econômicos a regimes antidemocráticos.

O que chama a atenção é a incapacidade que tem demonstrado o campo progressista de fazer as pessoas, principalmente aquelas cuja vida depende da política, acreditarem na viabilidade de outro tipo de sociedade. Espremida entre fragmentadas bandeiras culturais, a esquerda apoia sua precária relação com as massas em lembranças distantes de tempos melhores e na defesa muitas vezes conservadora de determinadas normas e corporações.

Talvez nunca tenha sido tão urgente uma política capaz de fazer sonhar. E essa defesa não carrega consigo traços idealistas. Pelo contrário, é eminentemente pragmática. Trata-se de dar sinais claros e concretos para os setores sociais cuja relação com a política é uma questão de vida ou de morte de que, por meio dela, o futuro pode ser melhor do que o presente. Provavelmente, isso tirará da política o glamour que tem hoje, mas esse é outro problema.

*Philippe Scerb é doutorando em Ciência Política pela USP.

Fonte: https://aterraeredonda.com.br/politica-para-quem/

 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Carnaval é liberdade


Em um dos meus primeiros textos nesse espaço, afirmei que não gosto de carnaval – essas bobagens que a gente fala e depois de um tempo percebe que não faz sentido. Segui contando sobre um ano em que aproveitei os cinco dias para me dedicar a um livro desses que mudam nossas vidas. Não me dei conta de que só pude me dedicar ao livro em tempo integral justamente por conta do feriado. Caso contrário, seriam dias de trabalho como os outros.

Hoje percebo que gosto de carnaval. Sempre gostei. Não gosto da ideia de passar cinco dias fantasiado, pulando, esmagado em meio à multidão, mas essa é só uma das infinitas formas de aproveitar o feriado.

Carnaval é liberdade. Costumo integrar o bloco do pijama e ficar em casa. Também tem o bloco da folia, que prefere enfiar o pé na jaca. Ambos são legítimos e podem integrar um bloco em comum, o da contestação.

Nos últimos dois anos os blocos de rua ecoaram gritos de protesto e resistência contra o governo, antes mesmo da postura genocida diante da pandemia. As escolas de samba desfilaram temas políticos e criticaram o fundamentalismo religioso, que ganhou força junto ao mesmo governo genocida.

Carnaval é liberdade, que somada a toda contestação da ordem, geram reação do bloco moralista. Eles martelam que carnaval é alienação até que a mentira pareça verdade. Nos dois últimos anos o feriado foi o principal foco de resistência de um país que precisa combater patriotas.

O bloco moralista é composto por patriotas que detestam os maiores símbolos do país. São patriotas colonialistas, moldados por séculos de exploração, que hoje rejeitam a ideia do próprio país ser protagonista.

Para o bloco moralista o carnaval não deveria existir. Nem nada da cultura popular, nem as religiões de matriz africana, nem o folclore nacional. É um bloco para o qual só deveria existir o trabalho, de sol a sol, enrijecido pela reforma trabalhista que, somada ao alto índice de desemprego, obriga os trabalhadores a aceitar migalhas.

Esse ano o carnaval foi triste. Não só pela falta de blocos e desfiles. Mesmo para mim, integrante do bloco do pijama, que com ou sem pandemia teria passado os dias em casa. Esse ano não teve liberdade.

Com quase um ano de pandemia, o trabalho se adaptou. Quem pode fazer uma transição para o home office passou a trabalhar em casa. Quem não tem como adaptar as atividades é obrigado a se espremer no transporte coletivo ignorando o vírus, já que não dá para ignorar o desemprego crescente.

Esse ano só o bloco moralista festejou. Os dias de folia viraram dia de trabalho como todos os outros. Sem festa. Sem descanso. Sem protestos. Sem liberdade.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

as formigas trabalham no jardim

São Paulo, quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021.

- as formigas trabalham no jardim - Cristina Santos - post 10 - Blog das 30 pessoas - 

título: as formigas trabalham no jardim

   Na infinitude do mar noturno, compreendemos que a vida é um mistério mágico que dá medo e prazer.
- que as tempestades lavam os vulcões;
- que algumas pernas possuem vasos sem flores;
- que lagartas transformam-se em borboletas;
- que só porquê uma pessoa é fã de Friends, não significa que ela seja legal;
- que as batatas das pernas são grandes fofoqueiras,e que adoram jogar conversa fora noite adentro;
- que há o tempo de cada um e também o tempo de todos.
   Friedrich Nietzsche escreveu: "É necessário um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante".
   Como mergulhar na autodescoberta que existe no caos?
   Já que não sei nadar, então apenas me resta pedir que não apaguem as luzes, pois as formigas trabalham no jardim. 

   Oiê! Espero que estejam bem 💙
   Até o próximo post.
   Beijos,
   Cristina Santos



terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Sobre o Tempo (e o vento)

  "O Guardião do Tempo e seus Capangas Relógios" 
 Jacek Yerka


    Por vezes tenho a nítida percepção de que estou inserido no tempo. Não sei se me faço entender, eu mesmo já tentei poemas e outras tessituras, mas sempre me escapa a imagem exata para descrever essa consciência. Essa: de que estou atravessado pelo tempo. Não se trata de reconhecer a marcha da existência humana, é uma sensação sem história, sem História.

    Não sei precisar a primeira vez que fui mergulhado no Tempo. Memória é coisa fugidia, como é próprio do tempo. Talvez naquela noite, criança ainda, em que deitei num domingo, pronto para dormir, e fui passando em revista como seria aquela semana. Escola. Brincadeiras. Visitas? A ideia da rotina começou a me assombrar: a visão de que se seguiriam dias divididos entre manhã, tarde e noite, enfileirados em segunda-terça-quarta-quinta-sexta-sábado-domingo, ordenados nos mesmos doze meses dos anos passados e futuros. Naquela noite não completei meu sono. Como poderia fechar os olhos sabendo que a ordem se repetiria com pequenas variações que, ao se repetirem também, seriam somente mais um aspecto dessa gagueira do tempo.

    Lembro um dia, véspera do meu aniversário de doze anos. Estava ansioso pela data, sempre gostei de aniversário, um ano-novo pessoal que deveria ser comemorado qual feriado sagrado. Calendário, eu sei, convenções para nomear aquilo que procuro compor com imagens. Ainda assim, aniversário é, para mim, um dia suspenso, o único dia que não tem nome nem número além do nome e idade de quem sopra velas. Pois bem, naqueles onze anos e 364 dias eu tomava banho, pensava no bolo que viria logo mais, as felicitações. E na fricção do sabão com a pele, o tempo me tomou outra vez (não é essa a imagem adequada) e atentei que aquela era a última vez que eu tomaria banho tendo onze anos. E segui esse mote: a última janta, o último filme, a última risada, a última meia-noite. Enfim, a primeira palavra dos doze anos...

    Pode parecer, mas não é nostalgia nem saudade, não é um olhar para trás sempre em despedida, nem uma mirada futura cheia de planos. É a pausa, ou antes, é um pouso no presente, no que chamaria de “presente absoluto” (se ao menos coubesse no meu dizer algo permanente, uma palavra estática que descrevesse a impossível fixação cronológica). Recorro sempre à busca por uma paisagem, algo que descreva esse mergulhar. 

    Houve uma vez em que, recém-apaixonado, estava abraçado com ela, conversando amenidades. Uma folha seca desprendeu-se da árvore sob nossas cabeças e veio caindo, espiral lenta rumo ao chão. Precisava contar para ela o que aquilo representava para mim, mas me atrapalhei na tradução e meu espanto transformou-se numa piada.

    Isso tudo me vem novamente no momento em que estou debruçado na janela (tentando disfarçar o isolamento numa uma tarde fresca de verão) e um vento gelado me beija o rosto. Um vento antigo, penso. A impressão de que aquele vento passou por ali, naquele mesmo espaço onde agora só os edifícios veem distâncias. Passou em outras ocasiões, assobiando para matos, levantando redemoinhos, transportando ciscos e talvez esfriando outros rostos. O mesmo vento, como se fosse o sol sobre o mesmo planeta desde o início, um vento de milhões de anos, um vento do início do ano, um vento para o próximo século, um suspiro do tempo na minha pele. E essa ainda não é a imagem que procuro.