sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Do tempo que não sei explicar

Daqueles dias em que era feliz e não sabia.Dos dias sendo maus e bons, porém felizes.Do tempo em que a solidão era uma palavra certa a lacuna enorme que o pai não preencheu, mas ignorou a existência. Do tempo em que ela resolveu ser pai e mãe ao mesmo tempo. E com sucesso desempenhou melhor do que ninguém, não deixou nenhum lugar vazio.Daqueles dias em que brincavam despreocupadamente, com e sem brinquedos, com ou sem amigos e o pouco se tornava muito. Dos bons tempos na fazenda, nos matos, no pomar, no meio dos bichos, nos açudes, no haras e no casarão. Do tempo da escola, do jardim, da professora, dos cadernos coloridos, dos livros, dos gibis e da biblioteca. Dos dias de praia, no sol, na areia, no mar, na Pedra do Jacaré, embaixo dos coqueiros - uma infância difícil, sem regalias, mas não infeliz, intensa é a palavra certa. Do tempo que não sei explicar. De quando ainda menina resolveu crescer, trabalhar e ajudá-la quando via a necessidade bater à porta. Dos dias em que estudar à noite foi horrível.Do tempo que dançar era o que mais fazia, em casa, na rua, na garagem, na balada. Mentia para o pai dizendo que iria a igreja rezar. Do tempo das risadas, das trapalhadas de quatro amigas inseparáveis, as brincadeiras, caiu no poço, do carrinho de rolimã, rouba-bandeira, voleibol, esconde-esconde de madrugada, os passinhos decorados, delas que ensistiam em não crescer - a intensidade boa/feliz da periferia,nos centros culturais, nas rodas de samba-rock/axé/hip-hop e mpb escondida, churrasco na laje; roda de amigos, dos grafites, das festas mais podreiras, dos porres de vinho, das músicas dos djs - essa pra dançar!; das festas na escola de $1,00 ou mulher grátis até 0:00,do não talento para o cachimbo da paz, do subir e descer morros, das vielas e das gargalhadas - quando alguns dizem que todos se perdem, elas acharam o melhor do pior. Daquele dia em que as amigas diziam - beija a mão ou treina no espelho que você aprende a beijar. E treinou só umas duas vezes, beijou ele mais velho 8 anos que nem desconfiou de nada, beijo longo, gosto de quero mais. Do tempo que não sei explicar. Daqueles dias em que gostou do garoto que as amigas achavam feio, que mandava cartas, andava de mãos dadas e beijava devagar. Guardou algumas cartas por anos. Do tempo da escola ruim, uma professora boa, um dia no Masp. Dos dias em que conheceu o amor nos palcos, do ator sem glamour, do cantor sem recursos, do dançarino sem clip, do homem que escrevia cartas,dava flores, dos passeios mais simples, do jeito mais carinhoso e divertido,do noivo e amante sem hora errada. Do último adeus, um abraço de quase cinco minutos,coração batendo rápido, respiração lenta e aquela mão no cabelo. Da grande perda,no dia seguinte.Do tempo em que algo se perdeu, ela amadureceu mais do que deveria, se isolou, afundou no abismo, na escuridão, chorou muito e quase morreu de tanta depressão. Daqueles dias de perdição, de badalação, de porra-louca, dos bate-volta em Santos, Praia Grande, São Vicente e Bertioga; dos finais de semana doidos em Boissucanga e Camburi, das raves em sítio, das paradas e lugares gays, das festas em alto estilo e dos lugares mais ralés, a loucura da noite.Do tempo que eu não sei explicar. Duvidou da existência de Deus várias vezes,e por conta de 3 ocasiões creu, quando Ele se fez presente nos momentos mais dolorosos de toda a vida,preenchendo lágrimas que não caíam. Então conheceu a fé. Do tempo em que resolveu viajar, conhecer a Ponte dos Ingleses,o mar bravo, a praia deslumbrante, a areia grossa, o sotaque arrastado, as raízes que não conhecia, da família grande, do nordeste em que nasceu e não viveu. Do encontro consigo,numa viagem solitária. Do tempo em que não sei explicar. Daqueles dias em que decidiu voar - negou o pedido de casamento, do término do namoro, dos livros, dos museus, da musica, do cursinho, dos professores, dos momentos, da fase estranha, dos olhares dele, da paixão, dos blogs, da poesia,dos livros e do gosto de escrever sem saber. Das vontades não correspondidas, do sentimento guardado, da ausência, do recado deletado, do corredor,das palavras nunca pronunciadas,da ilusão criada e da vontade de esquecer; o refúgio nos braços da mãe, os conselhos bons e palavras de conforto - filha, já houve frustrações piores, se quiser, essa você tira de letra - o que não te mata, ensina a viver! Dos bons dias, da primeira vez no corredor exalando maconha, do curso apaixonante, dos professores incrivéis, das novas amizades,do convite para os 30 - uma surpresa boa,dos vícios malditos, das viagens e do interesse na política/religião/literatura/teatro.Do Natal cansativo, do fim de ano em família - como há muito tempo não acontecia. Do resgate de relações com tios, primos, crianças e padrasto que havia se perdido. O resgate da relação-renovada com o Juninho-irmão-amigo.Daquele dia em que resolveu de última hora mudar de cidade e ficar a 20 minutos do "grito de liberdade", 30 minutos do trabalho, 40 minutos do Masp, 45 minutos da faculdade e 50 minutos de tudo. Do tempo em que não sabe explicar, esse choro, a saudade da mãe e do irmão, a solidão, a situação engraçada a que se mete em aprender a cozinhar,o trabalho maçante, as férias cancelada,as viagens desmarcadas, os livros sendo devorados, o retorno do gato que desapareceu 14 dias e milagrosamente apareceu na antiga residência - no dia em que foi buscar correspondências; do desgosto de acessos a internet, do isolamento, dos amigos poucos, das saídas raras, dessa fase mais "sei lá" de todas.Desse início de 2010 cabuloso, sinistro, solitário, desajustado, despretensioso, diferente - o novo como uma folha em branco,sem palavras, sem borrões, sem cores, sem sol, sem vida,o branco sem o preto. Mas com vontades loucas, devaneios acesos, constante na esperança, anseios de gente, planos bons, desejos enlouquecedores, crença nas diferenças e no amor, e muita fé em Deus.Para breve escrever, dos dias, daqueles dias e do tempo em que era feliz e não sabia. Do tempo que não sei explicar...