quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A respeito de outros lugares

por Tiago Marques

Tem uma certa tradição migrante na minha família (e na família de quase todo mundo que eu conheço), pelo menos até onde eu sei da minha família. Tem os bisavós que vieram das Europas, Alemanha, Portugal, Espanha. Minha vó que nasceu na fronteira com o Uruguai, meus pais que saíram do Rio Grande do Sul (junto com uns tios). E daí calhou de eu nascer em Porto Alegre e ir parar em São Bernardo do Campo. Foi uma migração involuntária, mas eu acho que em algum momento um gene adormecido em mim vai despertar e eu vou sentir uma vontade louca, uma necessidade premente de sair por aí, de achar outro caminho, de saber que aqui não dá mais, vou embora, vou seguir o vento, o mar, a estrada. Mas por enquanto eu continuo sendo um inseto no casulo. Viajar é legal, mas sempre dá um certo medo.

(Sempre que eu falo sobre mim – seja num texto ou numa conversa – percebo que vou mudando à medida que vou falando. Pelo menos mudo aquilo que eu penso de mim mesmo. E aí não sou mais o mesmo e já não faz mais o menor sentido falar de mim mesmo, que já sou outro. Acabo falando do que eu era, não do que eu sou).

Nessas minhas viagens esporádicas ao Sul, uma das coisas mais legais é perceber que tudo mudou e tudo continua igual. E vice-versa. Fruki ainda tem gosto de Fruki e eu nem lembrava qual era. Ainda tem casa de madeira aqui. O calor de janeiro continua insuportável, mas sempre tem um vento batendo de algum canto (deve ser o minuano, embora eu não saiba bem o que é esse tal de vento minuano). Mas aqui também tem anúncio de condomínio fechado, com tudo o que você precisa. E a paisagem vai mudando aqui e ali. E as casas de madeira tem microondas e computador e tv a cabo. As mudanças que ocorrem aqui no Sul, pra mim, ocorrem bruscas, por que eu venho de tempos em tempos (do mesmo jeito que vejo de tempos em tempos alguns amigos que parecem que mudaram muito). Mas as coisas mudam aos poucos em qualquer lugar. Se eu me visitasse de tempos em tempos, ia ver muita coisa diferente, eu acho. Mas eu me vejo todo dia, tô sempre junto comigo mesmo. Pra mim eu sou sempre igual, os outros é que mudaram.