quarta-feira, 28 de julho de 2010

Por que fomos alfabetizados mesmo?

Ok, está certo que existem pessoas que falam bobagens de nível avançado e fazem a gente perguntar: “Deus, por que alfabetizaram essa pessoa?”. Antes eu culpava uma seleção natural fajuta, governos do PT de inclusão social e excesso de SBT na vida. Hoje, já não tenho mais certeza. Temos uma convenção, regras, formatos e tudo que rege a ortografia. Mas não é legal pensar que a língua é dinâmica e se adapta às necessidades das pessoas?

Com tantos blogs por aí, gente escrevendo rápido, tom informal, falta de domínio de teclado, excesso de cafeína no sangue, é fácil cometer erros. Erros grandes. Virgulas ausentes, palavras trocadas, verbos conjugados de forma errada. É óbvio que devemos valorizar um texto impecável, bem escrito, claro, mas será que erros (até os de nível avançado), fazem a mensagem perder seu valor? A linguagem é capaz MESMO de destruir bons argumentos?

Falo isso porque não raro vejo por aí (ou até por aqui) fulanos dizerem: “Ah, mas olha, você nem sabe escrever. Conjugou o verbo errado”. Sabe, pra mim, isso nada mais é do que um equivalente gramatical ao “Ah, mas, mas, você é feio” ou “Ah, o jogo é meu, a gente brinca como eu quiser”.

Apontar erros nos textos serve muitas vezes para empobrecer a discussão, ser raso, evitar o raciocínio e desqualificar argumentos alegando que a estrutura utilizada é uma bosta. Mas isso vale mesmo? Não é jogar baixo? Por mais que possa ser difícil como decifrar códigos, prefiro um texto mal escrito mas coerente a um correto e vazio [viu, Lia Luft?].

Soa como discriminação quando alguém conta uma história na TV e troca as letras, erra os “érres”, resolve “pobrema” com o “adevogado” ou vai direto na “poliça”. É errado?Sim, é. Vai contra a cartilha da pré-escola, contra ao que a tia disse no primário e o que sua professora pregou na sua cabeça no ginásio. Mas é a história do cara, a linguagem do cara, e desconsiderar o que ele tá falando por isso, como se não tivesse valor, é besteira sim.

Nós já dividimos a cidade entre os que pegam ônibus e os que tem carro, os que usam iPod e os que tem iPobre, aqueles que fazem faculdade paga ou pública, os de cabelo ruim e os de cabelo bom…por favor, não vamos usar as letras e as palavras para discriminar alguém ou fazer com que o outro se sinta humilhado e ignorado. Palavras machucam, sim. Cuide bem das suas e, se for exigir respeito às normas gramaticais de alguém, limite-se às palavras que saem da sua boca, por favor.