segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Epifania olfativa

A felicidade é pra mim uma combinação de cheiros: cheiro de cloro de piscina, cheiro de fusca e cheiro de própolis de abelha. Na infância, esses três cheiros se juntavam de forma mágica e senti-los era então o que havia de mais feliz. Nessa época, eu fazia aula de natação na escolinha do tio Clóvis. A mãe me levava e nadava comigo. Só que a mãe estava barriguda do irmão mais novo e conforme a barriga da mãe foi crescendo, ela dizia que não podia mais nadar e ela ficava fora da piscina me observando. A piscina era tão grande e eu me sentia tão orgulhosa de nadar sozinha, sem a mãe, que eu até me esquecia que estava usando bóias. No final da aula, a mãe me secava e me vestia com o roupão que tinha o meu nome bordado. Eu colocava os chinelinhos e saía cheirando a cloro, bem forte. Aí eu seguia ansiosa para o fusca amarelo da mãe e quando ela me colocava no banco traseiro, a expectativa era enorme. Ela se sentava no banco do motorista e de repente se virava com aquela que era a minha medalha de ouro da natação: a mamadeira de bico vermelho enrolada no pano de prato, ainda morninha, adoçada com mel e própolis de abelha – era o sabor mais cheiroso do mundo. Eu mamava com gosto, deitada no banco, olhando pelo vidro o céu e imaginando seres fantásticos nas nuvens. Inebriada pelo cheiro triplamente cheiroso, eu adormecia em um sono profundo. Pouco tempo depois, a mãe vendeu o fusca amarelo, eu parei de frequentar a escolinha do tio Clóvis e tive de abandonar a mamadeira, mas os cheiros não se dissiparam da minha memória. Até hoje sinto o coração agitado quando vou à piscina, entro em um fusca ou tomo leite com própolis. Infelizmente, o destino nunca mais combinou esses três cheiros pra mim.   
Da série Horta de Substantivos Abstratos