sexta-feira, 29 de novembro de 2013

adeus direitos ou adeus terrorismo

participei do XXXV encontro regional de estudantes de serviço social, no período de 30 de maio a 2 de junho no cenforpe em são bernardo do campo, cidade palco de greves e reivindicações de trabalhadores noutro tempo. deste encontro recordo duas noites, de sexta e sábado, se acaso não tiver enganada com a data na primeira noite teve participação de ba kimbuta militante do movimento negro, educador social e cantor abordando a precarização do trabalho, racismo institucional e trajetória até aquele momento. 

ao rememorar vários apontamentos pauto na precarização do trabalho que ao longo de meses corroeu o cérebro ao mencionar a dificuldade de militar sem pretender a revolução, sendo praticamente "impossível" fazê-lo na condição de explorado. sendo então limitada a atuação nos espaços como garantir dentro dos limites institucionais o mínimo do direito ao usuário? assertivo duas vezes ao criticar a postura, atuação de alguns assistentes sociais e principalmente ao nos questionar se a luta será na via institucional.

em via de gritar segurei outras perguntas direcionadas ao ba kimbuta, justifico pela imensa fila de inscrições para perguntas a professora que tão bem quanto abordou questões da universidade e também da precarização do trabalho. se tiveram 100 perguntas pelo menos 95 foram direcionadas a professora. falta de atenção ou umbiguismo do movimento estudantil sinceramente não sei, interprete da forma que julgar correta. no entanto, considero interessante a disparidade de atenção que existe para ambos ao abordar praticamente os mesmos temas.

sou grata ao meio acadêmico pelo conhecimento adquirido, porém, mais pelo apreendido além dos muros da universidade quando aluna do cursinho popular lá em bernô city para antigos moradores e favelados para atuais de luxuosos empreendimentos imobiliários da região que valorizaram a cidade e a encareceu são bernardo do campo. entendo que devo maior gratidão a quem aprendeu a lutar sem nunca ter pisado os pés na universidade, superando além da desigualdade social, classe, racismo a condição de explorado, rumo a emancipação humana.

então, perdoe, se por acaso der mais atenção a quem critica minha profissão, critica a instituição, critica a sociedade e critica o estado sem ter estado ao meu lado em quatro anos, nos muros da universidade. o problema do movimento estudantil e acadêmicos é pressupor a condição de estudante eternamente em vida. seria importante se inciasse reconhecendo que estuda para alcançar certificados, pendurá-los na parede e para aceitarem o mercado independente da condição, portanto, tornando-se trabalhadores, conseguinte explorados. além de refletirem as relações na condição de estudante compatíveis com relações de trabalho, não separá-los, principalmente quando mais da metade dos estudantes deste país são trabalhadores é o início da revolução, aplicando a teoria na prática.

pois o executivo do alto escalão seja no banco, na empresa dos sonhos, no cargo público, o pedreiro, metalúrgico, gari, doméstica todos acordam cedo, tomam café quando tem ou quando pode, saem correndo para o trabalho, ficam em média 6/8/10/11 horas para só depois voltar para casa. rememoro ao trabalhar como vendedora na idade de 18 anos sendo o recorde de 11 horas em pé no fim de ano, carregando caixa, descendo escada, suando frio e quente para atender o desejo consumista de outros trabalhadores ao comprar artefatos de natal, justifica o ranger os dentes ao ver estas lojas. a questão é que fosse a faxineira, a balconista, a vendedora, o estoquista, a caixa, o sub e o gerente, por fim o segurança da loja todos cumpriam o mesmo horário e ai daquele que se recusasse, a porta da rua era serventia do estabelecimento. exceto um ator, todos cumpriam. se assistir o filme do diretor costa gravas - o corte  compreenderá que  independente da posição exercida, o salário, a classe apelidada de média, alta e baixa a condição de explorado perdura sendo sujeitado ao escarro pelo "senhor". embora não queira, aceite, mais cedo ou mais tarde será descartado, é igual para todos. o trabalho talvez dignifique o homem quando não for explorado, talvez.

as jornadas de junho foram um  ensaio desajustado para a revolução ou  a concretização de passos  em passos com ou sem : cartazes, camisetas do brasil e dos partidos, bandeiras do país e dos partidos o exercício da cidadania (dificilmente) executada pela massa, melhor, pelos trabalhadores? ou um estranho acontecimento que simplesmente impulsiona pessoas a saírem de suas casas para as ruas, motivados pela audácia dos agentes do estado por tocarem na dita classe média/alta que não se reconhece classe trabalhadora?

não tenho respostas, me pergunto tanto quanto, mas suspeito de algumas coisas. o fato é que a emancipação deu tchau, e para quem sequer aparecia vejo tremendo ganho mesmo com desfechos estranhos. veja até os sindicatos acordaram, ensaiaram manifestações que prometiam ser uma das maiores, só que não. já dizia o trabalhador rural quem não planta não colhe e se planta o fruto dá e se vai sendo necessário preparar a terra para jogar a semente e colher de novo. adendo o preparo da terra se tiver muito agrotóxicos, a mão da monsanto irá colher câncer, doenças qualquer outra coisa menos alimento, mesmo na pouca adesão considere que acordaram, impressionante, se não acordaram, bocejaram forte o ato. o número pequeno de trabalhadores nas manifestações, talvez,  se justifique em:

"Os trabalhadores terceirizados ganham a metade dos salários de um metalúrgico e não tem benefícios. O único objetivo (das empresas), com isso, é ganhar dinheiro", ataca o presidente do Sindicato. Segundo ele, um metalúrgico que sofre um acidente de trabalho tem estabilidade empregatícia por parte da empresa até a sua aposentadoria. "O que não ocorre com um trabalhador terceirizado. Neste caso ele perde o emprego e terá que ficar brigando no INSS para ver se vai ter auxílio-doença ou não", acrescenta."Nós vamos discutir o que achamos que o governo deve fazer para não haver corrupção no sistema previdenciário e vamos apresentar também a questão do teto, que não dá pra gente concordar. O Sindicato, a Força (Sindical) e a Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNTM) fará uma luta a qualquer custo para não retirar os direitos do trabalhador", ressalta.(aqui

interessante não é retirar o direito dos trabalhadores não pode, no entanto, pode ser terceirizado com direitos. então lutemos pelo direitos de ser terceirizados com direitos. não lutemos contra a terceirização da terceirização no privado e público. pois é. talvez, as jornadas tenham sido ensaio, quase certo,  principalmente quando jogadores, quer dizer, trabalhadores do esporte protestam pacificamente reivindicando melhores condições de trabalho e tem total atenção da mídia e justificação por quem se quer ganha 0,01% do salário sendo atendidas as reivindicações, ou pelo menos algumas. admito foram espertos, usaram os jogos e angariaram  as reivindicações no coletivo:  

"O Bom Senso tornou-se a maior novidade do futebol nacional no final de setembro, quando foi criado por um grupo de 75 atletas das Séries A e B do Campeonato Brasileiro. Com o slogan "por um futebol melhor para quem joga, para quem torce, para quem transmite e para quem patrocina", o movimento pede diversas mudanças na organização da modalidade no país."

então devo supor que a próxima reivindicação será pela redução do valor do ingresso contemplando quem torce. seria um começo, pela igualdade no acesso aos ingressos, melhores condições de transporte para assistir os jogos que acabam por volta de 23 horas na quarta-feira. pergunta por acaso os demais trabalhadores envolvidos no processo da realização de um jogo também serão contemplados?  não sei não, mas acho que têm algo estranho aí, principalmente quando a reivindicação do bom senso comum é aceita e principalmente justificada por quem em plena vida de classe média baixa jamais alcançará o salário de um mês do trabalhador do esporte, quer dizer, atleta, desculpe a gafe.


agora vem o fim dos tempos, até eles:

"Os atores da Globo querem melhores condições de trabalho. Liderados por Antonio Fagundes, o elenco da emissora pede em reuniões com os executivos do canal mais dinheiro pelos direitos de imagem nas reprises de novelas e séries no Viva e na Globo Internacional.(...) A reclamação acontece porque já há algum tempo as produções têm pedido mais participações do elenco da Casa. Agora, o receio é que a Globo crie um novo programa para substituir a “Sessão da Tarde”, e os atores acabem com a agenda ainda mais cheia.(aqui 

é justo justíssimo, trabalhador é trabalhador em qualquer espaço, independente da classe já dizia costa gravas. entretanto, devo crer que em alguma fala, pedaço da carta de reivindicação tenha a pauta das faxineiras, camareiras e terceirizados não é? claro, foi o que pensei, todos se uniram e lutam pela mesma causa - melhores condições de trabalho - tá certo.

e para o caro trabalhador-leitor o que têm? informo, tem isso ò:
Congresso que regulamenta dispositivos da Constituição Federal aprovou nesta quarta-feira projeto que tipifica o crime de terrorismo no Brasil. Não há atualmente na legislação penalidades ou sanções para quem cometer esse crime. Apenas a Lei de Segurança Nacional, editada na década de 1980, menciona o terrorismo --mas ainda com redação feita durante o regime militar. 

Os congressistas querem aprovar o projeto antes da Copa de 2014, quando haverá eventos com grandes aglomerações em diversos Estados. O texto considera terrorismo provocar terror ou pânico generalizado, com ofensa ou tentativa de ofensa à vida, à integridade física, à saúde ou à privação da liberdade de pessoa. Pelo projeto, o terrorismo passa a ser crime inafiançável, com penas de 15 a 30 anos de reclusão que devem ser cumpridas em regime fechado. As penas sobem para 24 a 30 anos de cadeia se houver mortos em consequência do crime." (aqui)

 a justificação atual é decorrente dos eventos que estão por vir, assegura-los acima de qualquer reivindicação seja por moradia, saúde, educação, cultura, etc. após os eventos servirá de justificativa para os trabalhadores, sejam de qualquer classe social que reivindicarem melhores condições de trabalho. nas palavras de dalmo de abreu  dallari: 

"acostumados à cega obediência, os oligarcas não admitiam que empregados se organizassem para apresentar reivindicações, coagindo os empregados. viam nessa atitude uma ameaça às tradições de respeito à autoridade e à hierarquia, o que significava, em última análise, uma ameaça à própria ordem social. daí a conclusão de que o problema operário era um "caso de polícia". 

substitua o operário  por - trabalhador - receba o cabresto e domesticação das lutas transpassando os séculos, de opressão. e caro policial não se exclua da luta o seu caso também é de polícia ou em outras palavras - dá tchau tchau, adeus adeus  para os direitos conquistados ou em curso, ou dá adeus para a lei do terrorismo e quem não é sincero sai da brincadeira correndo:

"Veja bem meu patrão como pode ser bom
 Você trabalharia no sol
 E eu tomando banho de mar
 Luto para viver, vivo para morrer
 Enquanto minha morte não vem
 Eu vivo de brigar contra o rei"