terça-feira, 20 de maio de 2014

Depois do Rodas, a USP roda!

Quase 5 milhões de reais para trocar o piso de uma praça.
Entrei na USP em 2006. Até então não fazia ideia de como era o ambiente de uma universidade pública tão multifacetada. Tinha ainda a mentalidade que construímos com os exemplos da escola, onde o professor fala e os alunos escutam – os bons alunos escutam quietos e os maus fazendo bagunça.

Começando a estudar as ciências sociais vi que nem toda a bagunça era maléfica. Contestar autoridades muitas vezes é o mínimo que se espera de quem tem senso crítico e pretende fazer alguma coisa contra um padrão insatisfatório.

Assim participei de várias assembleias, manifestações, greves e ocupações. Olhando para trás vejo que nem todas foram necessárias. Talvez tenha me faltado maturidade ou senso crítico, porém muito pior seria frequentar as aulas, alheio ao ambiente universitário e a tudo o que pude aprender participando do movimento estudantil.

Nos últimos quatro anos as principais ações dos estudantes da USP giraram em torno do ex-reitor, João Grandino Rodas. Segundo colocado na preferência da comunidade, Rodas foi escolhido a dedo pelo então governador José Serra, mesmo sendo acusado de improbidade administrativa, entre outras coisas, durante o período em que foi diretor da Faculdade de Direito da USP.

A opinião pública, quando alguma manifestação estudantil vinha à tona, era quase unânime: um bando de vagabundos que queriam fumar maconha em paz, sustentados pelo contribuinte que paga seus impostos.

Não participei ativamente da última ocupação da reitoria, em 2013, mas visitei o prédio. Não gostei do que vi e não concordei com muitas coisas, porém tive a consciência que havia escolhido não participar, portanto não tinha como cobrar nada. Tinha também a certeza de que se a desocupação fosse negociada, muitos dos danos seriam reparados pelos estudantes antes de devolver o prédio, como ocorreu em 2007.

Muito mais cômodo para a opinião pública é esquecer tudo isso e dedicar 100% dos comentários ao ‘vandalismo’ promovido por aqueles que supostamente ‘só queriam fumar maconha em paz’. Melhor não pensar nos reais motivos que levaram à atitude extrema de ocupar a reitoria e somente bradar contra aqueles que estariam desperdiçando o dinheiro público, visto que a universidade é sustentada com o pagamento de impostos.

Acho ótimo que as pessoas se preocupem com o destino de seus impostos. Porém esse é um hábito que deveria ser cotidiano e generalizado, ao invés de se concentrado apenas na oposição da atitude estudantil.

Concordo que até aqui muito pode ser discutido e sobretudo discordado – isso é ótimo, pois é a essência da política. Porém desde o início de 2014, com o fim da gestão de Rodas, vêm à tona problemas gravíssimos, dos quais muitos tiveram origem devido às suas ações.

A USP tem sérios problemas financeiros, o pagamento de professores e funcionários, cujos salários foram elevados acima da capacidade do orçamento para evitar greves e manifestações, consome todo o recurso da Universidade. A compra desnecessária de imóveis e a construção de prédios faraônicos acabaram com as reservas financeiras.

Curiosamente o que surge nos jornais hoje são problemas que os estudantes já indicavam há anos, porém agora ninguém reivindica os direitos dos impostos com os quais a USP é sustentada. A diferença prática é que a reforma da reitoria, que até onde eu saiba não apresentou nenhuma prestação de contas, não chega nem perto do valor do navio de R$23 milhões, comprado pela USP com o dinheiro de cofres públicos e encostado no porto de Santos há seis meses.

Insisto, podemos discordar das ações do movimento estudantil, podemos não nos conformar com o dinheiro de impostos sendo destinados para a reparação de danos ao patrimônio (ainda que este gasto poderia ter sido evitado com uma desocupação negociada). Mas dar toda a atenção para as consequências das manifestações dos estudantes e esquecer completamente os gastos milionários que colocaram a USP em uma crise é dar mais atenção às margens que ao cerne do problema.

Até agora as propostas de solução para a crise giram em torno do corte de verba para bolsas e pesquisas, ou seja, basicamente a política de corte de verbas aplicada na educação brasileira há tanto tempo.

Outro probleminha indicado pelos vagabundos que querem fumar maconha em paz é o campus da USP Leste. Depois de muitas manifestações criminalizadas o campus todo foi interditado devido à contaminação do solo e com direito a uma infestação de piolhos. O que está sendo desperdiçado com isso? O dinheiro dos mesmos impostos daqueles que, dependendo do viés da matéria ficam indignados, outras vezes ficam impassíveis.