domingo, 20 de julho de 2014

Libertas quae sera tamen

Escrevo neste espaço uma vez por mês. Procuro buscar assuntos em evidência para expressar minha modesta opinião tentando, ainda que sem muita relevância, mostrar um ponto de vista que fuja do comum, do que vemos em todos os jornais, do que ouvimos de todos os taxistas.

Esse mês não faltariam opções. Ano de eleição, Israel massacrando a Palestina, morte de João Ubaldo, Brics, a própria Copa ainda está recente e renderia bons comentários. Mas sou forçado a um texto anacrônico. Como se estivéssemos no auge da ditadura, escrevo sobre presos políticos.

Num dos atos de protesto que ocorreu, ou deveria ter ocorrido, durante a Copa a polícia militar prendeu dois manifestantes. Rafael Marques e Fábio Hideki. Não conheço o Rafael, que acusado de ser adepto da tática black bloc, foi preso vestindo kilt e sandálias; por isso me atenho ao Fábio.

Conheci o Hideki quando ele cursava ciências sociais, depois de iniciar engenharia e antes de começar jornalismo. Com ideais semelhantes, militávamos de forma independente, assim como vários outros estudantes, sem vínculos com partidos ou grupos políticos.

Ao ver no jornal as imagens de Hideki algemado, já na delegacia, sob a alegação de portar explosivos, meu primeiro e mais óbvio pensamento: “eu sou muito mais propenso a carregar explosivos que o Hideki”. Por sorte a abordagem policial foi filmada. Se por um lado ainda não foi suficiente para a libertação do estudante, por outro mostra claramente uma prisão arbitrária de alguém que não carregava nada proibido, sequer suspeito, na mochila.

A tática black bloc é controversa. Apoiá-la ou condená-la é direito de cada um, mas prender manifestantes que não são adeptos de tal tática apenas para mostrar serviço àqueles que exigem do governo uma postura repressiva é inaceitável em qualquer estado que tem a mínima pretensão de ser democrático.

Com o objetivo de calar as vozes que vieram das ruas nas manifestações de meados de 2013, o governo de São Paulo vem aplicando sua maior especialidade. Repressões violentas e prisões arbitrárias que inibem reivindicações legítimas.

Depois que as manifestações forçaram a Rede Globo a admitir que apoiou a ditadura militar e com a mesma Rede Globo acusada de sonegar mais de meio bilhão de reais em impostos, torna-se uma aliança de sucesso o caráter repressivo do governo e o foco da imprensa em vidraças quebradas, ao invés de divulgar a pauta de reivindicações dos manifestantes.

Com esse tipo de ação quem leva a pior em longo prazo é a população que segue lidando passivamente com a corrupção, educação falida, saúde precária, etc. E quem leva a pior de imediato são manifestantes como Fabio Hideki, que parece viver uma história de Franz Kafka ao ser preso sendo inocente, assim como K. – protagonista de “O processo”.

Acompanhando o desdobramento da prisão de Hideki é possível notar mais claramente como o pré-julgamento atua de forma indiscriminada. Em uma sociedade tão carente de serviços de qualidade, era de se esperar que aqueles que lutassem por melhoras recebessem ao menos o apoio dos que reclamam em casa, sem ações diretas por mudanças.

É verdade que o caso tem recebido atenção e muitos se manifestam a favor da liberdade imediata do estudante, mas também não faltam opiniões que partem do princípio que se uma pessoa foi presa é porque estava fazendo algo de errado.

Um dos tantos absurdos que identifiquei em meio a toda essa insanidade foi o fato de Hideki ter sido forçado a abandonar sua dieta vegetariana, por não haver essa opção na cadeia. Pode ser que esse seja o menor dos males em questão, mas possibilita o questionamento: para uma sociedade em que muitos apoiam um tratamento desumano e cruel para detentos, uma questão ideológica como a alimentação vegetariana seria encarada na melhor das hipóteses como luxo.

E assim seguimos. Com pessoas fechando os olhos para injustiças contra seus semelhantes e com um governo que, amparado por uma popularidade surreal, mantem seus programas ineficientes e ações repressivas. Saúde, educação, transporte, segurança? Sonhem.