terça-feira, 7 de outubro de 2014

* O real *

Quando a insônia invade a madrugada de um menino de 5 anos, não há contra-indicações, necessidades terapêuticas, intervenções psiquiátricas, tampouco a obrigatoriedade de obedecer um tempo que, dizem, são ponteiros que escrevem incessantemente numa linha que nasceu e não pode mais morrer.

Não, não são sinais de desvios, nem de genialidade. Apenas simples realidade que são a mais pura Verdade. Adultos lutam contra a falta de sono, calam a voz de sua própria vontade de estarem despertos, olhando a janela semiaberta que permite desenhos na parede. Estes se irritam, tomam qualquer remédio para forçar a ilusão. Piedade à essa gente grande.

 O menino, esperto, sabe da luz engraçada. Deixa-a adentrar, brincalhona, quarto adentro. As cortinas balançam, um vento sussurra num vão esquecido assim. Os olhos cansados, pela manhã que logo vai retornar, vibram de alegria quando, no alto (lugar sem graça, quando os adultos acendem a lâmpada) do guarda-roupa escuro, um crocodilo faz um movimento de botar medo em muita gente, mesmo que ele não vá saltar da caixa, onde foi desenhado. A penumbra revela coisa aqui, acolá; uma amiga aranha parece tecer sua casinha, que cresce abrupta. A magia perdura instantes, mas há tempo, até que a gente grande apareça mais abruptos ainda, para desaparecerem com a dona aranha, sua branca e enovelada casa, talvez com quartos que nem mais se contam, tantos, tantos... e a cozinha como aquelas do sítio dos avós. 

Coelhos de três orelhas viram patos, basta saber mexer com as duas mãos e alguns dedos ágeis. Cachorrinho poderia ter até rabinho feliz, mas disseram que era difícil demais, então, ele só latia contente, e falava, como nas histórias. 

O menino, respeitando o silêncio que pertencia aos seus amigos da madrugada, sequer emitia uma palavrinha, porque sabia a linguagem dos seres em seu quarto. Silêncio, era, aliás, ordem maior. Sabia que, com o despertar da cidade, lá, depois da janela, ali mesmo, na rua, pessoas loucas voltariam sempre, barulhentas, pisando passadas nervosas, falando, sim, falando sozinhas, maldizendo o próprio existir, ou o dia que mal começava. Carros competindo corridas alucinadas, com pilotos ruins, lentos, ruins em suas profissões ao volante. Motos barulhentas como monstros, cruzando espaços pequeninos e letais.

A sorte é que as madrugadas insones sempre reapareciam! Momento da brincadeira  com os animais-sombra, o assustador crocodilo da caixa de papelão, a dona aranha e sua suntuosa casa que só crescia, com quartos infinitos, talvez iguais aos do menino, com a cozinha igual ao dos avós. A sorte, era mesmo dele. Talvez outros pequenos também tivessem suas horas de silencioso bolinar de coisas. Talvez até gentes grandes tivessem essa sortuda insônia, quem sabe?