sábado, 20 de junho de 2015

A injustiça da justiça

Em uma terra não tão distante a população recebia um salário médio de R$1.817,00. Não é necessário um conhecimento profundo de estatística para saber o quanto uma média pode nos enganar. Graças à gritante desigualdade social a média salarial maquiava o salário mínimo, que não chegava na metade da média. Era de apenas R$788,00.

Muita gente ganhava somente um salário mínimo, ou um pouco a mais, não para se sustentar, mas para sustentar a família, pagar contas, comprar comida, roupa, cuidar dos filhos. Se morasse longe tinha que pagar transporte – caro e ruim –, quem não tinha casa pagava aluguel, sem plano de saúde tinha que correr para hospital público, que as vezes não era exatamente um hospital.

Esta mesma terra contava com juízes e promotores. Trabalhando intrinsecamente em prol da justiça, esses profissionais tinham teto salarial de R$33.763,00. O salário inicial da categoria era catorze vezes maior que a média nacional, o que já os colocava entre o 1% mais rico do país.

Não havia meios legais de aumentar o teto salarial. Cá entre nós, não havia a menor necessidade de aumentar esse valor obsceno. Mas estamos falando de uma terra muito particular, com características curiosas. Com pequenas variações entre os Estados da federação, juízes e promotores contavam com 32 benefícios além do salário.

Além da estabilidade, dois meses de férias anuais, alimentação, transporte, saúde, verba para escola dos filhos, verba para livros e material de informática, etc., os profissionais passaram a ganhar auxílio-moradia de R$4.377,00, mesmo se já tivessem casa própria, que dava à União uma despesa extra de R$1,53 BILHÃO, em tempos de crise econômica e ajustes fiscais.

Em alguns casos mais extremos o total recebido no fim do mês girava em torno de cem mil reais. Aquele salário inicial, somado aos generosos benefícios, ficava 23 vezes maior que a média nacional. Parece bom, mas note que somente 28% da categoria estava satisfeita com a remuneração. Talvez por terem que trabalhar exaustivas seis horas por dia, três dias por semana.

Mas não pensem que a população dessa terra não se indignava. Em cada canto do país havia pessoas inconformadas, formadores de opinião se posicionavam contrários, jornalistas escandalizados dedicavam páginas e mais páginas para se posicionarem contra a bolsa de, em média, R$160,00, que o governo desta terra pagava para quem não recebia nem 0,5% do teto salarial de juízes e promotores.

Esses mesmos indignados também reclamavam bastante de imigrantes que chegavam no país, fugindo da miséria de algum canto do mundo. Alegavam serem pessoas que viveriam sem trabalhar e viveriam à custa do governo, impedindo o crescimento do país. Como eu disse, estamos falando de uma terra muito particular.