terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Gente estranha

Uma amiga me alertou: você ficou chata.
Fiquei mesmo. Nasci nos anos setenta, século passado, e ao levar um ''não'' do Romeu, o homem que amo, fiquei chata, reagi como as pessoas reagiam no meu século, chorei, arrastei e continuo arrastando correntes e lamentando minha sorte.

Sei que estou fora de ritmo, no século que estamos sofrer por amor é patético e ridículo, quem sofre por isso?  Ninguém mais sofre neste mundo, os analgésicos chegaram a sua máxima potência, os carboidratos sumiram, o glúten desapareceu e ninguém se lembra mais do açúcar e da lactose, por que lembrariam então o que é sofrer por amor? Ora, ninguém mais sofre no planeta, como diz um conhecido ''sofrimento é falta de diagnóstico e tratamento''.

Para que se apegar? Nos meus tempos, sim, no século passado, ganhei  um walkman e ele quebrou. Me joguei no chão e chorei, chorei. Corri para a assistência técnica, jurei amor ao aparelho e ele sobreviveu a uma delicada operação a qual foi submetido, uma troca de peças. O outro dia resolvi colar um adesivo no meu celular, brincadeira besta de quem tem um coração adolescente como o meu, e logo fui advertida por uma pessoa: pra quê colar adesivo se o ano que vem você vai trocá-lo?
Meu Deus! É verdade,  para que me apegar se o próximo ano ele será largado na estrada do esquecimento?

E tive um problema com meu celular e mudaram o número. Chorei na loja quando fui informada, poxa, esse número me acompanha há cinco anos, temos história, quantos Romeus já marcaram esse número!
O moço da loja não se comoveu, apenas mostrou espanto dizendo que ninguém tem o mesmo número por cinco anos.
Ninguém não, eu tinha!

Já nem tento me adaptar, aprendi a navegar no choro, sou assim mesmo, minhas emoções pertencem ao século passado, me apego aos meus objetos, juro amor eterno aos meus Romeus e quero usar o mesmo número que tanto me acompanhou. Também como carboidratos,  jogo açúcar no suco e lamento quando me rejeitam, choro, reajo, como diz minha amiga ''parece velhinha''.
Não pareço, mas sou. Bebê dos anos setenta, criança dos anos oitenta, adolescente dos anos noventa. Tudo o que me construiu por dentro aconteceu no século passado. E sim, paciência, estou chata, amo Romeu como se fosse o último homem sobre a face da terra e falo disso o tempo inteiro. Coisa de gente do século passado, esse pessoal que sofre, chora, se apega, come pão com manteiga e joga Nescau no leite. Gente estranha né?

Iara De Dupont