segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Estudo sobre o olhar em três etapas

I. Do olhar pra baixo

Às vezes fico imaginando se os pilotos de avião se dão conta do grande papel que eles têm para a sociedade. Não, não me refiro ao também importante papel de transportar as pessoas, com razoável conforto e velocidade, de um lado para o outro. Estou me referindo ao papel que eles têm para com as crianças. Sim, porque se alguém tivesse o poder de enxergar de tão longe, veria que por onde um avião passa existe uma criança assombrada apontado para o céu e dizendo "olha um avião!". Imagina o quão bonito seria se pudéssemos ver toda a trajetória de mãos apontadas para o céu de um voo que fosse de Manaus até Porto Alegre. Uma grande onda iniciada por um grupo de pequenos manauaras - olha um avião! olha um avião! - e que logo passaria por crianças paraenses, mato-grossenses, goianienses, mineiras, paulistas, paranaenses, catarinenses e gaúchas. Não, não podemos enxergar tanto, mas isso seguramente ocorre todos os dias. Acho que os pilotos de avião deveriam ter licença para olhar pra baixo enquanto pilotam. Mal sabem eles que cena bonita estão perdendo!

PS.: Em menor escala, este fenômeno também funciona com kombis e com fuscas azuis.

II. Do olhar pra cima

As pessoas também deveriam ser autorizadas a olhar pra cima. Se já são, deveriam gozar mais do direito que possuem, do direito universal de olhar pra cima! Falo isso por experiência própria. Não fosse o alerta de uma amiga minha, eu passaria a vida sem saber que no meu costumeiro caminho de casa pro trabalho e do trabalho pra casa, existe um pé de seriguela, um pé de acerola, uma mexeriqueira, algumas pitangueiras e um sem número de outros pés de frutas de nomes por mim desconhecidos, mas que tem aquele gosto, por vezes mais azedo, por vezes mais doces, que as frutas costumam ter. Acho importante informar, para que não digam desaforos, que não moro em nenhuma cidadela rural. Pelo contrário, moro numa dessas cidades grandes em que as pessoas são desde cedo treinadas a somente olhar para a frente.

III. Do simplesmente olhar

Qual tipo de pessoa passa por mais contatos humanos do que o caixa de supermercado? Qual tipo de pessoa passa por menos contatos humanos verdadeiros do que o caixa de supermercado? Sim, porque a pessoa que pergunta se vai CPF na nota, que por vezes também indaga se hoje você vai de débito ou crédito e que mais recentemente também lhe questiona se hoje vai sacola ou não, é um ser-humano complexo que sonha, chora, ri e pensa, mas que depois de tantos CPFs, cartões e sacolas, deve ter se travestido em máquina, deve ser se metamorfoseado em caixa-registradora, igualzinho a todas as outras, que só repete mecanicamente perguntas e instruções e que só recebe do outro lado - de outra maquininha - respostas mecanizadas. Deve ser por isso que dia desses o sistema entrou em colapso. A moça que estava na minha frente na fila, pegou um chocolate que tinha acabado de ser registrado e o entregou ao caixa "Toma! Este eu comprei pra você". O rapaz a olhou sem entender nada, visivelmente despreparado para lidar com aquela situação inesperada, e arreganhou os lábios num baita sorriso!

E olha que ele nem gostava de chocolate...