sexta-feira, 22 de julho de 2016

Luz

Tudo era escuridão.

(...)

O som que vinha do coração da mãe era tão constante quanto o silêncio. Constante também era o calor que vinha do meio líquido em que estava. Não havia pressa. O útero da mãe era alheio a estes caprichos do mundo de fora. O útero da mãe era o mundo inteiro. 

Naquele momento era tudo um grande vir a ser. 

E foi naquele momento que aconteceu. Nunca se saberá como, nem se chegará ao porquê, mas a verdade é que aquele minúsculo ser em formação, aquele pequeno amontoado de células, ouviu. Ouviu cada palavra. E cada palavra uniu-se ao ser. E cada palavra era o ser.

Elas diziam: Hoje tu és apenas espera, mas quando fores vida, nunca deixes de ser luz. Não importa com quem andarás, o que farás e como o farás. Tampouco importa tuas escolhas, se entre elas estiver esta, a de não deixar de ser luz. 

Por um longo tempo as palavras calaram e o único que se ouvia era o coração da mãe e o suave murmurar do meio líquido. As células não cessaram de se multiplicar e de imiscuírem-se nas palavras. O ser então indagou:

- Agora que sei o que fazer, devo partir ao mundo de fora? 

E ouviu como resposta, não se sabe de onde:

- Ainda é cedo. Ser luz  não é tudo que deves saber... 

E nada mais se ouviu por um longo tempo.

(...)

Já estava se acostumando a esperar. Tudo era espera. A vida fluindo entre o ser e a mãe. Entre o ser e a palavra.

Foi quando a voz (era mesmo uma voz?) ecoou uma segunda vez; Não basta ser luz se não fores também equilíbrio. Saibas ver os dois lados que há em tudo no mundo. Também há muito o que se ver na escuridão...

Novamente silêncio. 

 - Serei luz e serei equilíbrio. Tudo isso já está em mim. Devo partir agora? 
- Tampouco é agora que deves partir. O tempo se aproxima, mas ainda não é tudo...

(...)

Muito se passou sem que mais nada fosse dito. Os espaços se preenchiam. O ser e a mãe cada vez mais pertencentes. 

Mas ele ansiava mais.

Num átimo, água que se esvai. Torrente. 

Força. Movimento. Ritmo. Potência.

Súbito, a voz. 

- Chegará o tempo em que terás que partir. Tal qual uma vela, sutilmente deixes de ser, mas ilumine tudo e todos até o último lampejo. E quando chegar esta hora, não temas: como luz que terás sido, deixarás um lindo caminho iluminado às tuas costas. Nunca deixes de ser luz!

Os movimentos eram intensos e constantes. O tempo urgia. Ele precisava perguntar uma vez mais:

- Posso ir agora?
- Sim, agora sim você pode ir. Já é tempo de aprender...

(...)

E tudo tornou-se Luz.