quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Let it Be (ou Felicidade Clandestina II)

                Era um final de tarde num dia de inverno de 1970. Entrou em casa com um entusiasmo diferente:
- Mãe,  mãe! – saiu andando esquadrinhando cada cômodo em busca a mãe, obviamente.
                A mãe era artista, filósofa, dessas que tem alma de poeta. Sempre apoiou os sonhos dos filhos e os ensinou a enxergar o mundo com mais sensibilidade.
-  Oi, filho! O que foi?
- Você tem que ir até o carro comigo, agora! – disse mexendo no ar um pequeno embrulho brilhante que cabia em sua mão.
                Comprou o Fusca em 1968, quando fez seus 18 anos. Fruto de uma pequena herança deixada pela vó, (já que era seu único neto na época em que havia falecido), e de todo o suor que derramava na oficina do pai, desde muito cedo. O 68 branco, 1300 cilindradas, tinha um diferencial: 12 volts no novo sistema elétrico da categoria. Era seu orgulho, principalmente o toca fitas instalado por ele mesmo.
                 Entraram no carro, ainda cheirando a novo, de tão bem cuidado. O filho, no banco do motorista e a mãe no de passageiros. Ele desembrulhou o presente que havia embalado para si mesmo, com o sorriso de uma criança na manhã de natal. A mãe lançou-lhe aquele olhar de aprovação.
                - Chegou hoje na cidade! Fui o primeiro a comprar! – disse, já abrindo a caixinha da fita que tinha o rosto de quatro caras e dizia, em inglês, “Let it be”. Quase como a menina no conto de Clarice, hesitou alguns segundos antes de empurrar a fita. Viu o sorriso no rosto da mãe e colocou o volume no máximo.
                De “Two of us” a “Get Back” os dois ficaram ali, ouvindo, sem falar uma palavra um para o outro, os trinta e cinco minutos e dezesseis segundos de música, com pausa somente para trocar o lado da fita, enquanto o sol ia se pondo e as estrelas tomavam seu lugar. Um vento frio soprava de leve.
                Hoje, com 66 anos, o ainda menino se lembra nostálgico dessa cena, com muito afeto e carinho, sabendo que momentos como esse, por toda sua poesia, não voltarão. E que poucos jovens poderão viver algo tão mágico.