sexta-feira, 23 de junho de 2017

O Ouvinte de si mesmo

Infelizmente esse texto não se refere ao exercício autoconsciencial de se analisar através da fala, ele se trata daqueles que filtram o que o outro diz apenas para aquilo que lhes causam identificação. Tentarei ser mais clara: você já reparou que em conversas simples, até memso aquelas isentas de grande teor afetivo ou relevância, você emite um discurso e a resposta é quase que unânime sobre o ponto de vista alheio? Eu não sei bem como isso começou mas sinto falta de conversar sem precisar que a minha fala seja distorcida para a necessidade do outro falar sobre si, e o pior, falar ilusões sobre si. Porque ele fala aquilo que ele acredita ser ele e infelizmente ele só está dizendo sobre como ele gostaria que enxergássemos a sua história. As pessoas usam as conversas para a autopromoção. Talvez falando em voz alta para mais alguém, ele próprio possa acreditar nas mentiras que conta para si. Não sei.

O ouvir verdadeiro tem que estar disponível para o outro. O outro é o iluminado e a minha escuta o holofote que emite essa luz. Pense então como se a cada vez que essa pessoa falasse, o holofote desviasse a luz dela e direcionasse para si mesmo. Qual o sentido? Para dialogar você não precisa roubar a fala alheia. Quando estou falando de mim ou de qualquer assunto banal, não necessariamente estou querendo ouvir sua opinião sobre isso, como você agiria em tal situação, sua crítica sociopoliticaeconomicaexistencial que é melhor que a de especialistas no assunto, como você se vê mais promissor diante dos problemas que são meus. É difícil conversar nos tempos de hoje. Você fala mas não é ouvido. O outro só ouve o que diz respeito a ele, funciona por identificação e a identificação é uma busca por si mesmo. Você despretensiosamente comenta "Meus pais agiram assim assado em minha infância" e o outro responde "os meus não, os meus foram ótimos, nunca tive que passar por isso". Ou até em questões negativas: "eu tive uma doença muito séria", "eu já quase morri, tive coma, vi a luz  e ressuscitei". Pois é, os diálogos hoje se tratam de competições narcísicas onde não importa o que o outro diz, desde que você sobressaia de alguma maneira.. É triste. Preciso ser ouvida, sinto falta. Estou cansada de entrar em disputas para poder expressar o que quero, mesmo constatando que não estou sendo ouvida.  Afinal, o que você ouve nem sempre diz respeito a você. Sei que alguns podem estar em choque com essa afirmativa, mas é a verdade. 

Conversar  não é se apropriar da fala do outro para em fração de segundos encontrar um jeito de inseri-la na sua experiência e pintá-la de uma forma que aparente ser mais atrativa. No final, quem começou a conversa já parou de falar e o outro ganhou a cena. O movimento tem sido esse, escutar de uma forma que possa ser utilizada para chamar a atenção para si e ser ouvido. As pessoas não querem ouvir, só querem falar.
O ser humano está incapaz de emitir uma resposta que não seja a do reflexo do seu narciso. Pena que ele escolhe ver só o que lhe convém nessa imagem, a sombra, a parte que ele negligencia em si, ele deixa para que os outros se virem para conviver. 
Concluo que a escuta do ego é incapaz de escutar o outro. Enquanto o ego finge escutar, é o narciso quem fala. O alerta é para não se afogar na própria fala, como Narciso se afogou na própria imagem. Deem conta de si mesmos pra não terem que usar os outros como alvo de projeções. Eu só quero conversar em paz. Sem competições, por favor.