quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Dois em um


Pegou o pacote das mãos do balconista da farmácia e saiu apressada pelas ruas. Caminhava como se o seu corpo fosse um ser involuntário, que não precisava do comando do cérebro para indicar a direção a seguir. Aquilo não podia ser real, não podia estar acontecendo com ela, não podia. Se sentia uma daquelas personagens de seriado adolescente, comprando teste de gravidez escondido e rezando para que o exame desse negativo. Olhava ao redor e não conseguia compreender como as pessoas podiam olhá-la sem imaginar o tormento que devastava tudo dentro dela. Não podia ser verdade, não podia, não podia.
Apenas se deu conta de que havia chegado em frente ao prédio quando o porteiro a cumprimentou. Subiu as escadas correndo, pensando no olhar acusador dos vizinhos e colegas de trabalho ao verem a sua barriga enorme, abrigando outro ser. E no dos seus pais... Não, não queria pensar na reação dos pais, não agora. Já bastavam os planos, as viagens e os sonhos que ela teria que abdicar, enquanto ele continuaria a sair, a viajar, a dormir com outras. Tinha que ser justo com ele, uma pessoa com quem ela não tinha intimidade alguma, exceto para a ver nua? Nunca teve tanta certeza de que sexo não era sinônimo de intimidade. Nunca.
Voou para o banheiro assim que entrou no apartamento e leu rapidamente as instruções do frasco, tentando se convencer de que era melhor acabar com tudo aquilo logo. Não aguentava mais a angústia do não-saber. Podia ser apenas um atraso ocasional, fruto de disfunções hormonais, neuroses ou essas coisas que dizem ter toda mulher. Ou, e se tivesse um punhado de células se multiplicando para formar dedos, braços, pernas, coração? E se ela pudesse sentir dois corações batendo dentro de si?
Depositou o líquido amarelo no potinho e segurou firme o palitinho dentro dele. Alternava o olhar nervoso entre o relógio e a linha rosa que começava, lentamente, a surgir.
As linhas.