quinta-feira, 8 de outubro de 2009

JERIMIAH 29:11

Domingo, oito horas da manhã. O toque do celular irrompeu a ausência de sentidos e a despertou. De dentro do calor aconchegante de seu edredon florido, suspirou aliviada: ainda não se acostumara de todo com a novidade de noites de sono ininterruptas. Antes de abrir os olhos, ouviu o barulho da chuva chocando-se contra o telhado, o chão e as plantas. Sorriu. Um dia sereno estava por vir, um dia que a redimia do pensamento das tantas outras possibilidades não assumidas; poderia perder ali, sem culpa, todas as suas horas. Oito e um, abriu os olhos. Após a ducha quente, examinou cuidadosamente as peças penduradas. Vestiu-se como se criasse um personagem. Botas, sobre-tudo, cachecol a encobriam.

Permaneceu imóvel em sua varanda por um segundo, a chuva caía tão bela. Aspirou o ar úmido familiar de essências de plantas desconhecidas, sorriu. Desta vez, sem mover os lábios. Caminhou embaixo do seu guarda-chuva. Gostava desta que era hoje. Sentou-a para apreciar o café, o waffle com chocolate e a música ambiente brasileira - talvez em sua homenagem, pensou - enquanto aguardava o ônibus. Concedeu por um instante o desejo de uma companhia. No próximo, contudo, assustou-se com a crescente constatação de que sua própria companhia, ela mesma, não era de todo mal. De fato, era até agradável, cômoda.

O compacto ônibus com as letras conhecidas gravadas nas laterais levou-a até seu destino. Adentrou as portas do enorme salão já cheio e sentou-se ao lado do senhorzinho de cabelos brancos. Também não havia se acostumado com o fato de estar ali, era como se tudo fosse um sonho do qual acordaria a qualquer momento. E quem pode dizer o contrário? Concedeu o desejo de uma companhia, ou talvez muitas, desta vez. Sentiu-se pequena. Queria dizer àquele homem que pregava à frente da igreja o quanto sua vida era inexplicavelmente abençoada pela simples existência da dele. Sentiu uma lágrima escapar de seus olhos e escorrer, sem permissão, rosto abaixo. Outra, e outra. Cessou-as juntamente com os soluços silenciosos. Tudo o que queria era... sentir Deus. De súbito, sentiu um "cutucão" no ombro esquerdo. Virou-se. O senhorzinho de cabelos brancos estendia um papel amarelo dobrado ao meio em direção à sua mão. Tomou o papel, sorriu e teve certeza de que, mesmo quando não sentia, Deus a sabia.