sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Do que sacrificamos durante o exílio voluntário

Minha prima se casa amanhã de manhã. É o segundo casamento que eu perco desde que fugi do país. Também tenho dois primos na fila para conhecer a "filha da Diva que está sempre num país diferente". Faz parte, acho. Esta é uma carta verídica.

Queridíssima Thaísa,

Sou eu, a sua prima fugitiva que, mesmo de longe, está postulando o cargo do Tio Marcos como oradora oficial dos eventos da Família Faleiros. Não poderia, portanto, deixar de estar presente em um dia como esse. Peço licença a todos e todas, e um pouco de paciência, para me intrometer nesse casamento. Deixo vocês brigarem comigo quando eu aparecer por aí, e por favor não coloquem a mensageira no meio.

Nesse exato momento em que vocês estão aí, prontos para devorar a mousse de gorgonzola, o baba ganoush, o patê de grão de bico e o queijo com geléia de pimentão, eu já devo ter almoçado (uma saladinha com arroz e lentilhas) aqui na Espanha e voltado para a faxina da minha casa nova. Talvez esteja aspirando o pó das cortinas, ou quem sabe limpando o chão com a minha ferramenta doméstica favorita: o esfregão. Engraçado que todo mundo cresce, né? Quem diria que eu um dia teria preferência por alguma tarefa de limpeza sobre todas as outras...

De pouquinho em pouquinho vou colocando esse novo apartamento em ordem. Escolhendo em que gavetas deixarei meus documentos, para não perdê-los, e qual das estantes abrigará meus livros pelos próximos meses.

Claro, minha estante de livros é modesta em comparação a uma das minhas favoritas na infância: aquela no quartinho da sua antiga casa. Nem me lembro de quanto tempo passei vislumbrando todas aquelas brochuras, um dos meus passatempos preferidos naquela casa, além de comer geléia de mocotó e tomar sacolé de groselha. Uma coisa não mudou quando vocês foram viver na chácara: sempre que eu começava um livro novo, você já o tinha lido antes e sempre gostava de discuti-lo comigo. Do Mundo de Sofia a Crime e Castigo, acho que já cobrimos todos os assuntos imagináveis.

Lá da minha casa guardo mais recordações do seus sotaque e dos seus cabelos compridos lisos e loiros, dependendo da época. O “sopão da Thaísa”, aquela dieta semanal na qual tentei várias vezes te acompanhar, e só provocou em mim o efeito de repulsa a repolho. Segurar o secador de cabelo para que você pudesse fazer a escova à sua maneira. Os milhares de pares de sapatos que você levou naquela visita de quatro dias a São Paulo. Ainda bem, né? Porque aí você me emprestou sua mala gigante para minha viagem e salvou minhas férias na Europa.

Os primos mais novos de uma família tão grande e unida como a dos Faleiros saíram do forno com muitos anos de separação dos mais velhos. Não sei se há uma razão específica, além de ganhar pontos com a geração mais experiente, congelei a idade de todas as minhas primas nos 30 anos. E agora, enquanto escrevo esta carta, percebo que tenho 27 e isso não faz muito sentido. Tudo bem, eu pago as minhas contas, cuido da minha vida, tomo minhas decisões e moro sozinha nesse exílio voluntário há exatos onze meses. Mas daí a entrar na categoria “adulta” e me acercar da idade das Faleiros que fizeram história em São Tomás de Aquino são coisas muito diferentes.

Cresci à tua sombra, Thaísa. No intercâmbio tentei ensinar minha irmã canadense a fazer a dieta do sopão. Quando voltei, fui dar aula na mesma escola de inglês que você e acabei até experimentando uns meses da faculdade de Pedagogia porque me identifiquei com a coisa. Usei e abusei da sua mala na Europa e lembrava todos os dias de você, especialmente quando passava pelas cidades que você já tinha visitado.

(PARTÊNTESES: Alguém por favor cubra os ouvidos da Vovó Zenaide)

Mas não pense, priminha, que eu abandonarei o Movimento das Primas Solteiras só porque você decidiu casar. Mesmo assim, aceito com resignação e muita alegria o seu pedido de desligamento dessa corrente da Família Faleiros. Em nome das bravas integrantes da resistência ao casório, te desejo toda a felicidade que o universo seja capaz de dispensar, e tenho certeza que o Richard e a Elisa vão me perdoar por esta longuíssima carta. Nem só porque você a solicitou, até porque eu a escreveria sem qualquer pedido. Mas também porque você merece a pausa da minha faxina para escrever essas palavras, e inclusive todas as palavras mais bonitas que os livros da biblioteca dos seus pais guardam e que os meus livros em espanhol carregam aqui.
Um deles, que eu terminei de ler hoje, trouxe uma passagem que gostaria de ler para você. Traduzi ao português para que a mensageira não me xingue. E peço que ela agora mude a entonação, leia um pouco mais devagar e com a voz mais alta, porque é o trecho mais importante dessa carta:

“Quando diante de você se abram muitos caminhos e não saiba qual escolher, não entre em qualquer um ao azar: sente-se e aguarde. Respire com a confiante profundidade com a qual você respirou no primeiro dia que veio ao mundo, sem permitir que nada te distraia. Aguarde e aguarde mais ainda. Fique quieta, em silêncio, e escute ao seu coração. Quando ele fale com você, levante-se e vá onde ele te leve.”


Thaísa, em dezembro meu coração me levará de volta ao Brasil. Espero você me receba pelo menos com o patê de grão de bico, junto com as fotos dessa boda, e também as do belíssimo casamento do Thiago e da Marina, que eu segui, ainda que silenciosamente, através das fotos que me enviaram pelo celular.

Um grande beijo e aproveite o seu dia e o resto dessa nova vida que você começa hoje. Tome um copo de guaraná por mim, porque mal posso me segurar de saudade (do guaraná e da dona da garganta que o tomará).

Da sua prima favorita de todos os tempos,
Carol