domingo, 11 de outubro de 2009

Cidade Invisível

From: “Lenora Guimarães”
To: “Ana Guimarães”
Date: Sat, 11 Oct 2003 22:43:36 +0000
Subject: Cidade Invisível

Nesta cidade o nascimento é comemorado de um jeito especial - é possível sentir na pele o calor dos ausentes; o perfume preferido que exala da nuca escondida sob os cabelos ou revelada pelo prender dos fios com fitas coloridas; o hálito fresco da hortelã colhida de manhã cedinho e o frescor orvalhado da pele que sedosa toca a face no abraço afetuoso. Presentes são desembrulhados enquanto da folha de seda azul do firmamento saltam estrelas e giram planetas que, freneticamente alguns, lentamente outros (como aqueles de órbitas lentas), vão trazendo lembranças dos anos vividos. E surgem, trazidos em bicos de pássaros, pequenos cartões de onde borboletas coloridas alçam vôos. E é possível escutar estalos de beijos nascidos das pequeninas bocas vermelhas tantas vezes carimbadas amorosamente, ao lado de ramalhetes de flores miúdas que exalam perfumes ainda não nascidos. E é assim, que nesta cidade, os aniversários são comemorados numa grande festa, com os ausentes presentes, vindos em bandos, um, dois ou mais. Eles chegam de mansinho, através das pálpebras entreabertas que sonham rastros de sete luas, vindos de todas as direções. Os doces, com sabor de azuis e rosas são degustados ao som de verdes e dourados. Como os tons das roupas dos anjos pendurados na cabeceira e que a cada vez que se celebra mais um ano acompanham o encontro especial na viagem que se faz à Fonte do Pai. Lá, nutrem-se aniversariante e queridos do que há de mais sublime - o Verdadeiro Alimento que o sustentará por mais um ano. E nesta viagem que se faz leve, leve, sem bagagem, sem sobressaltos, mesmo aquele de corpo murcho e manco não encontra obstáculos. É fluxo a viagem, entre tons e sons - pacificada e feliz.
E é assim que nesta cidade, os encontros de aniversário terminam sempre com a e-in-vocação – voltando-se para o poente (que fica depois da entrada do lado de dentro do peito) – do mantra maior: AMOR.

Gatinha querida. Você não deixa de ser responsável pelas últimas inspirações. Parece que desde as musas distantes, passando pelos amores impossíveis, recria-se o Amor, no desejo da Presença, que na ausência, provoca esta coisa feliz de brincar de Deus e criar, e fazer possível tudo que queremos. TE amo. Mãe.



E-mail enviado pela mamãe exatamente seis anos atrás, quando eu morava na Itália, num dia 11 de outubro, às vésperas do seu aniversário.