quarta-feira, 7 de julho de 2010

A bonitona encalhada

Oi, gente! Meu nome é Laura Henriques e, a partir desse mês, estou contribuindo também com o blog das 30 pessoas! Para começo de conversa, acho que cabe uma apresentação, né? Pensando muito, resolvi trazer pra vocês o primeiro post do meu blog pessoal...Depois desse primeiro post, muita coisa mudou na minha vida, mas, de qualquer forma, acho que é um bom início de conversa...
 
 
A bonitona encalhada, infelizmente, sou eu.

E essa frase, infelizmente, não é minha, é da Clarice Lispector. Claro que não a parte de ser a bonitona encalhada, que eu sou, mas a Clarice Lispector não era (até onde eu sei). Clarice Lispector era a mulher que matou os peixes, e o conto “A mulher que matou os peixes” começa com a frase: A mulher que matou os peixes infelizmente fui eu.

Já eu, que nunca matei peixes, gatos ou animais em geral (no máximo dois coelhos com uma cajadada só), sou só uma bonitona encalhada e este texto é um primeiro desabafo.

Porque, sobre mim, além de saber que sou a bonitona encalhada, é necessário que você saiba que sou a rainha dramática e exagerada dos desabafos, sempre suspirosa e sonhadora. Sou eu assim.

Por muito tempo esperei chegar mais perto do coração selvagem, aliás, acho que desde que eu conheci o “Perto do Coração Selvagem”, da Clarice, que sonhei escrever uma coisa tão perto, tão do coração e tão selvagem, arrebatadora. Acontece que o tempo foi passando, e, num momento epifânico (o exato momento em que me tornei a bonitona encalhada) constatei que, se ficasse esperando ser a Clarice Lispector não ia escrever nada nunca. E comecei a escrever essas linhas...

Então, antes de mais nada, peço desculpas por não conseguir produzir nenhum primor de literatura, e desde já não prometo nada além de uns casos que aconteceram comigo ou com alguém que eu conheço bem. Quanto ao coração selvagem, bem...posso dizer que meu coração já foi bem mais selvagem.

Minha admiração por Clarice começou na infância, com o texto da mulher que matou os peixes, que já apresentei. Achei essa frase tão forte, na maturidade dos meus nove anos, que nunca mais esqueci. Usei-a com várias aplicações distintas, e posso garantir que afirmar tão categoricamente que você fez alguma coisa sempre traz um certo efeito impactante.

Adorei, desde a primeira leitura, a sinceridade arrebatadora da confissão.

Testei as possibilidades dessa assertiva. Era só minha mãe descobrir alguma coisa que tinha saído errado na rotina que eu usava a frase, mais ou menos assim:

- Laura, você fez dever?

E eu, séria:

- A menina que não fez dever, infelizmente, fui eu.

A menina que sujou a roupa, infelizmente, fui eu. A menina que tira meleca, rabisca a parede, tudo havia sido eu. Muito boa essa Clarice. Sempre achei.

A fase Clarice da minha infância passou no exato dia em que a professora recomendou a leitura de outro livro da mesma autora: “A vida íntima de Laura”.

Foi o ápice da felicidade, eu, que já amava Clarice, eu, que já chamava Laura, não podia me conter quando chegou a recomendação da leitura. Achando-me a figurinha carimbada do álbum, a mais importante das pessoas, atazanei minha mãe para comprar logo o livro.

E qual não foi minha surpresa, quando li o primeiro parágrafo (pelo visto, as primeiras linhas de Clarice Lispector são sempre significativas).

Meu mundo caiu. É só contar esse caso que todas as lembranças voltam à minha mente. Não podia ser verdade. Como eu ia voltar pra escola depois daquilo?

Você não conhece o livro?

Entao, só porque sou muito curiosa, e compreendo com ternura a curiosidade alheia, vou te contar.

A vida íntima de Laura começa assim:

“Vou logo explicando o que quer dizer “vida íntima”. É assim: vida íntima quer dizer que a gente não deve contar a todo mundo o que se passa na casa da gente. São coisas que não se dizem a qualquer pessoa.”

E você, lendo isso, ainda não entendeu o problema, não é?

O problema é que Clarice continua:

“Pois vou contar a vida intima de Laura”.

Entenda, o problema começou a começar, mas o texto continua:

“Agora, adivinhe quem é Laura”.

É, você mesmo, adivinhe quem é Laura!

E eu, naquela época, pensando, esperançosa: Laura sou eu! Sou eu!

Mas Clarice, impiedosa:

“Dou-lhe um beijo na testa se você adivinhar. E duvido que você acerte!”

Esse beijo na testa, era o beijo da morte, o beijo de Judas que Clarice me mandou:

“Dê três palpites. Viu como é difícil?”

Pode dar seus palpites também. Eu espero aqui, não faço nenhuma questão que você saiba disso mais rápido. Porque o livro continuava:

“Pois Laura é uma galinha. E uma galinha muito da simples”.

Laura era uma galinha! Como assim? Eu era Laura e estava na segunda série (e tinha colegas que iam adorar aquele livro, um livro de motivos para me perturbar).

Naquela época, eu ainda não atribuía à galinha, a palavra, o significado vulgar que se costuma atribuir a algumas mulheres, ditas galinhas. O problema é que a galinha, em si, não é exatamente um animal glamouroso, nem bonitinho, desses que você admira quando tem oito anos de idade, mesmo porque não existe galinha rosa. Eu poderia tolerar várias espécies: uma gatinha, uma peixinha, uma ursinha, uma borboletinha...mas uma galinha? Era demais.

A autora, certamente adepta da técnica “bate depois sopra”, tratava de emendar:

“Peço a você o favor de gostar logo de Laura porque ela é a galinha mais simpática que já vi”.

É, não tinha jeito. Laura era uma galinha. E por mais simpática que pudesse ser essa galinha, Clarice contava que ela era bem burrrinha (nessas palavras, mas não quero ficar citando mais), e que tinha o pescoço mais feio do mundo, o pescoço de Laura era horrível.

Por isso, depois da vida íntima de Laura, me distanciei de Clarice. Foi uma fase difícil na vida, dessas que você não quer sair de casa. Ainda tenho complexo de pescoço e complexo de burrinha... Até hoje, quando meu pai me chama, carinhosamente de primogênita, eu retifico: primoburrita. Até hoje me lembro dessa fase difícil da infância. Que falta de sensibilidade dessa professora...

Abandonei Clarice por um longo e tenebroso inverno. Quase uma década.

Andei por outros caminhos, outras estradas literárias lindas. Conheci Machado de Assis. Ácido. Conheci Guimarães Rosa. Grande e prolixo sertão. Graciliano Ramos e Baleia. Saramago e seu ensaio sobre a cegueira, suas intermitências da morte, o evangelho segundo Jesus Cristo.

Amei Isabel Allende e o inevitavelmente perfeito Gabriel Gárcia Marquez.

Tentei escrever realismo fantástico. Se, na ficção alguma coisa se cria é na literatura infantil e no realismo fantástico. Mas para escrever realismo fantástic é necessário que se tenha uma sensibilidade superiormente aguçada e um quê de genialidade, e não sou assim, tão criativa.

Juro que esse livro se baseia integralmente em fatos reais, porque eu não crio nada, só gosto de aumentar o que ouço (pelas minhas contas, aproximadamente uns 30%), pras coisas ficarem um pouco mais leves e a vida ter um pouco mais de graça, mas só faço esses aumentos quando escrevo – porque se falasse seria fofoca, e tiro sempre o nome das pessoas, pra não perder amigos por bobagens. Como na natureza, na literatura, salvo raras exceções, não é muito o que se cria, mas muito o que se transforma.

Sempre sonhei ser escritora, mas nunca tive coragem.

Certo é que, carente de encontrar minhas amigas, comecei a escrever emails para contar meus casos, refletir sobre as coisas que aconteciam na minha vida e, aos poucos, fui gostando muito de fazer isso. Minha vida foi seguindo um rumo de correria, muitas mudanças, que eu vou contando aos poucos, mas o que interessa saber, nesse ponto de partida, é como me tornei a bonitona encalhada.

Tenho uma família pequena. Eu, meu pai, minha mãe e minha irmã, mais nova. Sempre fomos muito felizes e ainda somos, claro que não ininterruptamente felizes, porque senão isso não seria uma família, mas uma versão família do Teletubbies. Enfim, felizes.

Também sempre tive boas amigas, e bons amigos. Vida normal, básica.

Acontece que, de uns dois anos pra cá, surgiu uma epidemia de casamentos em minha vida.

Todo mundo ao meu redor começou a querer casar, marcar datas, fazer orçamentos, olhar vestidos, e emocionar, e blábláblá. Nessa mesma época, há uns dois anos, a Veja publicou uma capa sobre isso: sobre as mulheres quererem se casar.

A capa, de 29/11/2006 (pode conferir, está no site da revista - http://veja.abril.com.br/291106/p_084.html), trazia as chamadas: 9 entre 10 brasileiras que passam dos 40 solteiras continuarão solteiras e confira as chances de uma mulher se casar no Brasil aos 25, 30, 40 e 45 anos...

Pronto. Era o que me faltava. Aquilo caiu como uma jaca na minha cabeça. Corri para a matéria e ela dizia que, a chance de uma mulher se casar entre os 20 e 24 anos era de 68,9%, entre 25 e 29 anos, de 39,9% e de 30 a 34 anos, de apenas 23,1%. Ainda está tudo no site da Veja, pode conferir.

Naquela época, eu estava a um mês dos meus 25 anos, quando, subitamente, acordaria com trinta por cento a menos de chance de me casar. Fiquei meio abalada com a notícia, mas não dava pra arrumar um casamento em 15 dias. Pelo menos eu estava namorando, pensei.

Hoje, dois anos depois, já rumo aos 27, a epidemia de casamentos ao meu redor prossegue. Minha irmã – mais nova – não custa lembrar, meio que casou. Só este ano, já fui a 12 casamentos e ainda estamos no primeiro semestre. O pior? Não peguei nenhum buquê.

Já estive em festas em que crianças de 9, 10 anos, pegaram o buquê. Segundo a Veja, isso é o correto, antes dos 24, qualquer mulher tem quase 70% de chance de se casar. Já eu...

Nesse clima de desprendimento de qualquer ideal de constituir família, estava eu assistindo televisão com meu pai um dia desses e me deparei com o programa: três noivas gordas, um vestido magro.

Trata-se de um reality show em que três competidoras, morbidamente obesas, tentam desesperadamente emagrecer pra caber num vestido de casamento maravilhoso. Morbidamente obesas, é verdade, mas NOIVAS.
Meu pai, horrorizado com a filmagem das mulheres, feita pelos ângulos mais desfavoráveis possíveis, sem tirar os olhos da tela, disse:

-Essas moças, coitadas, estão se esforçando a toa. Como é que vão arrumar marido?

- Não, pai, expliquei, já tem que ter noivo pra se inscrever no programa.

Ele, então, voltou-se para mim em silêncio, ficou me olhando e disse: as gorduchinhas todas casando, e a bonitona aqui encalhada!

E foi assim que me dei conta do que eu havia me tornado. Esse foi meu humilde, quase pífio, momento epifânico.

Agora, já acomodada com o novo codinome, venho fazer o que Clarice Lispector expressamente me desaconselhou. Vou contar um pouco da minha vida íntima, mas quero deixar bem claro: Laura, aqui, não é uma galinha.

Laura é a bonitona encalhada.