domingo, 15 de agosto de 2010

Doce amargo

Minha amiga brasileira e eu passeávamos pelo centro de Chicago, quando ela interrompeu o raro momento em que não estávamos tagarelando para comentar: 

— É preciso ser muito homem para andar assim, em público.

Só entendi o que ela quis dizer, quando virei a cabeça e vi dois caras caminhando de mãos entrelaçadas do nosso lado.

Admirada e com um pouco de inveja — casais felizes me provocam inveja —  concordei. E, ainda encantada com a cena, comecei a filosofar com a minha amiga sobre a ironia de um gesto tão simples como aquele ainda ser um grande tabu para tanta gente. 

Continuávamos a caminhar ao lado do casal enquanto levávamos adiante o nosso assunto, que passou a ser coragem. Eu dizia que era fã de pessoas que assumiam aquilo que as fazia feliz, assim, sem alarde, indiferentes à ignorância e falta de compreensão alheia.

Minha amiga concordava comigo e iria acrescentar a sua opinião, mas cortei o assunto quando escutei um pastor (ou seja lá como se chama esse tipo de pessoa, tão comum aqui, que prega efusivamente sobre salvação e apocalipse nas calçadas) gritando:

— And the Lord says that there's no place in heaven for homossexuals.   (E o Senhor diz que não há lugar para homossexuais no céu).

Meu inglês e raciocínio são falhos, mas foram suficientes para eu entender, no mesmo segundo, que ele estava se referindo àquele casal de homens, que passava sem querer ofender a ninguém. Antes mesmo de conseguir expressar minha indignação com a minha amiga, que não tinha se atentado ao que estava acontecendo, ouvi um dos homens do casal retrucando:

— And you say that based on what? Have you ever spoken personally with God? (E você diz isso baseado em que? Você já conversou pessoalmente com Deus?)

Curiosa pelo desfecho mas não querendo dar bandeira, olhei para trás discretamente e sem parar de andar, tentando ver o que o pastor responderia. Ele apenas deu de ombros e sorriu amarelo, sem argumentos. 

O casal não criou caso. Seguiu o seu caminho ainda de mãos dadas, indiferente. Eu, que não atingi o mesmo nível de evolução, me senti realmente ofendida. Quis voltar para esganar o pastor. Quis abraçar o cara foda que colocou aquele imbecil no seu devido lugar. Mas me lembrei que eu era covarde e que imbecis nunca aprendem a lição. 

Então apenas continuei a andar... digerindo mais uma vez um misto de nojo e orgulho por fazer parte da raça humana.     

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Ah, a propósito, meu nome é Camila Rufine Machado. Sou nova por aqui, mas já acompanhava o Blog das 30 Pessoas. Sou natural de Campo Mourão, interior paranaense. Graduei-me em Jornalismo e Secretariado Executivo em 2008, mas até outubro trabalho como Au Pair em Chicago, nos Estados Unidos. Escrever, desde sempre foi meu vício-terapia e acho que é justamente para não estragar a graça disso que eu não consigo mais me imaginar ganhando a vida como Jornalista. Também participo dos blogs Não-enviadas  e Gelo em Marte