sábado, 14 de agosto de 2010

Comum


João Avelaneda me disse que tudo isso foi por eu estar cansado e a vida acadêmica não me oferecer mais desafios, o que reafirmo aqui não ser verdade, pois eu ainda seria capaz de encontrar desafios intelectuais se não estivesse a ponto de mandar tudo pra puta que pariu. O João Avelaneda inclusive. Eu devia chamar ele só de João. As pessoas comuns não sabem o sobrenome umas das outras, mas João é um nome comum, alguém poderia confundir. Eu devia mesmo é arranjar um apelido pro João, mas ele não tem nada que valha a pena dar um apelido. “João da Sociologia”? Foda-se, eu não estou afim de falar com o João.

Eu é que devia me chamar João.

Meu nome, porém, é Maximiliano. Meus três sobrenomes, se você não sabe também não interessa. Quem tem um nome como Maximiliano não devia nem ter sobrenome. Eu tenho três. Três sobrenomes e nenhum apelido. Sempre odiei “Max”; anglicismo que me arrepiava a espinha. Tampouco poderiam me chamar de o “Maximiliano da Sociologia”, ainda mais que eu nunca cursei sociologia – me graduei em filosofia e conheci o João pelos corredores da faculdade. Nos tornamos amigos, embora ele sempre censurasse minhas idéias sobre o homem comum, dizia que eu tinha uma idéia equivocada, fora da realidade. Eu nunca disse que o meu homem comum era real. Era apenas uma idealização: a representação homem comum que existe apenas no imaginário do homem comum real. Um homem comum que nunca somos nós nem ninguém que conhecemos e ainda assim juramos que existe, esta aí, dizendo bobagens, fazendo qualquer coisa que os outros homens comuns também estejam fazendo e que seja a última moda, embora seja sempre apegado a tradições e costumes arcaicos. 
Àqueles que já lerem algum de meus livros ou artigos sobre o assunto, peço desculpas, mesmo sabendo da improbabilidade de haver alguém aí que já tenha me lido. Nunca criei grandes desafetos nem inspirei grandes paixões e por isso fui simplesmente ignorado pelo meio acadêmico. Agora não guardo mais mágoa, esse é o último texto que escrevo. Será meu manifesto pelo direito de não ter que me manifestar. Se vou me alienar por alguma coisa, não vou me alienar por causa de livros, vou me alienar pela TV, pela cerveja, por futebol, por prostitutas, por Jesus. Vou ser o homem comum – o meu homem comum. Encarnar de vez o personagem; mais que fazer parte da média, eu serei a média em pessoa. O único homem no mundo (ou pelo menos na Grande São Paulo) a ser completamente, indubitavelmente, indiscutivelmente comum.

Meus inimigos, se os tivesse, me acusariam de preguiça, falta de caráter, incompetência, mas estariam completamente enganados. Ser o homem comum tem exigido muito de mim. Não é uma tarefa fácil a princípio, ainda que eu espere que vá ser tornando cada vez mais fácil, até fazer parte de mim, até o ponto de não ter mais volta, de ser instintivo. Por enquanto não posso ser preguiçoso nem incompetente. A falta de caráter é indiferente para o meu propósito.
Tenho que primeiro superar meu nojo construído durante anos por produtos da cultura de massa e da cultura popular (me falta um termo melhor) – um nojo que vem de berço. Preciso parar de ser crítico quando ouço opiniões, preciso pensar como a massa quer que eu pense, como a massa crê que eu pense. O homem comum não tem opiniões próprias, age sempre por instinto ou por burrice. Em suma, o homem comum está sempre errado. O problema é que meu cérebro não foi treinado para estar errado, mas é algo que estou trabalhando.
Estou obtendo bons resultados em algumas áreas, apesar de alguns erros bobos que cometo. Na minha primeira visita ir à igreja, acabei no meio de uma missa de sétimo dia, o que não era minha intenção, mas consegui chorar por uma garota desconhecida morta em um assalto e ao final me juntei ao coro de senhoras que clamavam por justiça. Mais tarde comi uma feijoada pois era quarta-feira. Até agora, comer tem sido a parte mais fácil e mais prazerosa.
Ainda não decidi qual emprego escolher. Afinal, qual seria o emprego do homem comum? Pensei a princípio em ser pedreiro, mas minha força física é ridícula, tantos foram os anos de sedentarismo bibliófilo. O mais provável é que vá de um emprego para o outro para o outro para o outro. Fazendo bicos, como dizem.
  
Agora me despeço, alonguei-me desnecessariamente. Vou ali viver a vida; sei que vocês pensarão em mim a cada notícia de tv, a cada conversa de bar. Eu tentarei não pensar em nada. Fiquem com Deus. Adeus.