quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Everybody lovs Ray

“Essa mina não pode estar na minha. Muito quente para estar na minha mão. Se for sonho que seja um longo e profundo coma ou mesmo eterno como a morte. Muito quente para ser verdade.”

Ray era amada por todos não só porque ela adorava jazz. De fato, ela poderia listar de memória toda a discográfica do Davis, do Coltrane ou do Scott. Apesar de não compartilhar com Aretha, Ella, Nina e Sarah tantas dores de amor, sussurrava-as em árias melodramáticas meio a brisas dominicais I never loved a man… 

Mas não era culpa do jazz. Nem de seu vasto repertório de livros e filmes antigos. Nem de sua sensibilidade aguçada ou sua inteligência agressiva. Ray era amada por todos porque,
 
“Caramba, o que é isso?!”

somado a tudo isso, sim, ela era arrebatadoramente linda. Intimidadoramente linda além das roupas descoladas e do jeito que mexia o cabelo quando dançava e o jeito que mexia no cabelo o tempo todo. Dessas belezas sem prazo de validade, tão e tão naturalmente, desconfortavelmente linda que era isso que importava quando,

“Caramba, o que é isso?!” 

deixou escapar Thomas assim que a garota grunge, de cabelos curtos e pretos e óculos de grau tipo RayBan, entrou na redação pela porta de vidro, se dirigindo à bancada dos jornalistas responsáveis pela programação cultural, de frente aos críticos de qualquer coisa como cinema, teatro, artes plásticas, qualquer coisa como Thomas que ficaria sentado exatamente de frente à

“Raquel, muito prazer.”

Era um jornalzinho que ocupava duas salas de um empresarial perdido no centro da cidade, recém lançado por um grupo de jornalistas inconformados que assinavam colunas de jornais imponentes durante o dia e enchiam a mesa dessa redação novata com opiniões controversas e cervejas durante a noite. Uma bebedeira levada a sério, numa onda meio old school, berrada em letras matutinas amplamente consideradas pelas várias classes intelectualoides, de arte a economia.

“Então você curte Ray Charles.”

“Dentre outros, mas não é o que eu mais gosto. É que ando escutando o Davis. [...] Ah, essa camisa com o Ray é do meu irmão.”

Ray, Charles Ray, Raquel não demorou muito para adotar seu pseudônimo jornalístico. Insistência de Thomas, ácido crítico de cinema que, não raro, se derramava em bilhetinhos e olhares solícitos sobre a mesa da garota. “É mais sonoro” dizia ele.

Qual era o mistério de Ray? 

Aquela redação cheia de homens era cheia de criatividade quando especulava trajetórias das mais incríveis para ela, antes dela chegar, sempre atrasada, com cara de apressada, derramando livros e CDs pela mesa. Ray estava juntado tudo que podia do seu salário para comprar um iPhone. Ela não era lá muito adepta de tecnologias, mas aquele iPhone era um investimento cultural! Espaço de sobra pra muita música, livro, filme, a qualquer hora e em qualquer lugar tudo isso em um celular! Nunca mais aquela tralha toda, pra cima e pra baixo, de ônibus por aí. Trabalhava de dia numa livraria, descobriram isso depois de avaliarem muitas possibilidades entre agente secreta ou tardes inteiras de gravações pornô, e à noite no jornal. No meio disso tudo, ainda escrevia como louca num caderninho azul com uma estampa de digital preta na capa. Especulavam que ela articulava um plano de dominação comunista naquele caderninho. Ou que a capa engajada era disfarce para dicas de moda, beleza, receitas de bolo e cálculos de miligramas de silicone – não que ela precisasse, mas foi unanimidade que ela ficaria bem mais gostosa, qualquer uma ficaria.

Aquele mundo mágico criado em volta de Ray deixava a redação cada dia mais receosa em aproximar-se dela. O único que ainda trocava alguma idéia com ela era Thomas. Mentira. Ele não trocava idéia, não dava tempo. Passava a noite rasgando elogios, fazendo massagens, dizendo que ela deveria deixar essa vida cruel de jornalista e ser modelo, assim ela poderia ter não só um iPhone como um iMac, iViagens Pelo Mundo, iTudo que ela quisesse. Na verdade ela deveria esquecer também essa história de modelo e casar-se com ele. Acumulava suas críticas para a madrugada, adiantava outras pela tarde, ele precisava de concentração para dedicar-se e tempo livre olhando Ray. Todos olhavam Ray das 19h às 22h, Ray que já não se limitava só às regras descritivas da movimentação cultural, como já ensaiava algumas críticas de música, uma delas até publicada dia desses. Deco, o crítico de música, ficou meio boquiaberto quando ela lhe entregou um manuscrito sobre o festival indie do fim de semana. Ele não tirou os olhos da orelha de Ray, mostrada e escondida pelos cabelos frequentemente movimentados. Aquele monumento ali, do ladinho dele, ele ficou boquiaberto. 

“Digita e manda pra mim. Tá ótimo querida. Você tem talento.” Nesse dia ele oficializou seu fetiche por orelhas.

Por Ray. Crítica muitíssimo bem recebida pela crítica que, por sinal, desconhecia a feição da autora. Boa, muito boa.

Chegando o fim de mais um ano e as festas de jornalismo sempre são as melhores. Bombaram convites das confraternizações de tudo que era veículo na noturna mesa cheia de cervejas. Ray não tinha tempo e disse que só ia mesmo para a reuniãozinha do seu pessoal. Com Thomas meio doente, ela olhou para Deco e disse “Você vai, né? Não falta também não. Vou acabar ficando sozinha lá.” Seis meses depois ocupando a mesma cadeira, Ray ainda não tinha conseguido grandes progressos sociais.

“Essa mina não pode estar na minha. Muito quente para estar na minha mão. Se for sonho que seja um longo e profundo coma ou mesmo eterno como a morte. Muito quente para ser verdade.” Deco nunca antes na vida saiu tão perfumado de casa para uma festa numa outra festa, já que o jornal das 19h às 22h não tinha grana pra bancar uma festa digna de uma confraternização com convidados e tudo mais. “Vai tá todo mundo na do Global. Bora pra lá mesmo. É boca livre e brota senha nessa mesa.” Pegou Ray em casa às 23h.

Festa começando, climinha vitrine habitual, todos queriam saber quem era o novo talento com tino pra música e banca de jazz. Ray acabou conhecendo muita gente. Deco, olhando aquela orelha e cabelos, orelha e cabelos, cabelos, cabelos, orelha, acabou bebendo demais e olhando tudo de longe. Ray acabou conhecendo também um fotografo novinho que, vez ou outra, passava no jornal tentando emplacar umas fotos de qualquer coisa que acontecesse. Ele parecia meio desesperado com tamanha oferta, mas até que tinha talento. Conseguiram uma boa oportunidade de trocar nomes quando Deco foi ao banheiro. Sumiram pouco antes das 2h, Deco rodando a festa inteira com duas cervejas abertas esquentando, uma em cada mão.

Segunda-feira-pós-ressaca Thomas, ainda um pouco fraco, se depara, na caixa de entrada de seu email, com um Fw: de título “Obrigada por tudo.” 

Ray se desculpava pela urgência e pela despedida por email, mas a proposta era irrecusável. Viajou às pressas para o centro cultural do país, com uma coluna fixa na Rolling Stone. Agradecia esses seis meses de aprendizado e boa companhia. Terminou desejando sorte e sucesso para todos.

Lá no finalzinho, e só para Thomas, no email dizia:
“Conheci um carinha na festa. Meio maluquinho, topou viajar comigo já que ele não tinha nada por aí mesmo. Estamos meio que em lua de mel. Mas ó, não se preocupa não… to namorando agora mas, casar, só com você. ;P
Valeu a força!”

Com um pesar enorme, Thomas contou a notícia para os seus companheiros. Todos, com um aperto sem tamanho no coração, olharam para a mesa de Ray Charles Ray e sua ausência mais que um atraso. Nunca mais camisas com mitos da música e nem nuca aparente sob cabelo bagunçado. Olharam e ali, no canto, ao lado do teclado, se depararam com um caderninho azul com uma estampa de digital preta na capa.