quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Boquinha grátis

Sobre uma visita ao aconchego dos lares de um bairro ordinário. Usando apenas o nariz.

Pus os pés na escada de saída do Metrô, veio aquela preguiça, ao imaginar os 20 minutos de caminhada até meu destino. Quanto mais sem música, eterna companheira de momentos entediantes. Saco. Eu sei, sofrer antes é sofrer duas vezes. Mas é mesmo desagradável aquele trecho do Jardim da Saúde: no começo, barracas de churrasquinho fedorentas, lojas de CD tocando Bruno e Marrone a 100 decibéis, ambulantes, pedintes e pedestres caóticos; ao final, a enfumaçada e encaminhonada Ricardo Jafet, avenida ícone da aberração latino-urbana; e ao meio... bem, ao meio há casas. Ordinárias. Nem tão feias assim. Na verdade, têm até um charme singelo de classe média baixa.

Perdido nestas divagações, após um tempo de marcha tive os sentidos invadidos. Pelo nariz. O cheiro era de macarrão. Daqueles da vovó, com molho barato, cozinhado com cebola e carinho. Uma delícia. Vinha da casa pela qual eu passava, o portão entreaberto. Eu quase podia ver através da parede a senhora pilotando o fogão quatro-bocas: uma mão na cintura, a outra mexendo a colher de pau, o ouvido atento às crianças e a cabeça pensando no Reynaldo Gianecchini. Alguém na sala pensava "Oba, macarrão". Umas duas casas à frente, era dia de sopa. De legumes com carne. E caldo de carne. Olhei para o relógio, e só então me dei conta de minha sorte: eram 19h30, hora da janta! E eu tinha aquele caminho todo pela frente, para cruzar bem devagar, participar da cerimônia sagrada no aconchego daqueles lares. Sem precisar pedir licença, rezar Pai Nosso, sem atrapalhar. Mais que um convidado, um filho adotivo. Provei muitos pratos, conheci muitas famílias.

E o caminho que levaria 20, levou bem uns 40, diga-se 50 minutos. E o melhor prato da noite foi o arroz com batata-frita. Estava ótimo! Sorte do basset salsichão que latia para mim do portão, e deve ter ficado com as deliciosas sobras.