terça-feira, 24 de agosto de 2010

SEIS

Sei que muitos me acharão louco, ao ler o que vou contar nas próximas linhas, mas o mal que me acometera obriga-me a narrar os últimos acontecimentos. Como não quero ter os holofotes sobre mim e os que me cercam, vou com sua licença ocultar meu nome e dos demais envolvidos.
Sempre tive uma vida tranqüila morando numa pacata cidade do interior, nunca fui de muitos amigos, tenho poucos (conto nos dedos!). Cidade pequena é engraçada, sua vida e seus hábitos acabam sendo de conhecimento de todos, querendo ou não. Mas sempre zelei pela privacidade. Trabalho em casa, porque, graças à internet, posso mandar por e-mail meus artigos e crônicas diariamente para o jornal em que atuo. Conquistei essa “mordomia” após anos de muita labuta, cobrindo de passeatas a rebeliões. Há alguns anos escrevo apenas sobre o cenário político da região. No interior poucos têm peito para cutucar os barões! Não preciso dizer que colecionei inimigos. Muitos! Mas, deixemos isso de lado no momento. Não é o motivo por que estou contando essa história. Talvez até seja... Não sei! Desconheço o motivo de quem me desgraçou, se por aflição ou vingança.

Atenta-te aos fatos:

No fim da tarde voltando do mercado, (uma das poucas tarefas em que preciso realmente sair de casa) notei embaixo da porta um envelope, de papel pardo, sem selo e remetente, tinha apenas meu nome. Tirando as cobranças e santinhos de políticos em época de eleição, não lembro de receber correspondências de ninguém.
Abri a porta e depois de alguns afagos no gato, sentei-me confortavelmente na poltrona e abri o envelope, nele havia uma carta, escrita a mão, com uma caligrafia feia, desajeitada. Não imaginei que a desgraça seria parte da minha vida naquele momento. Ah! Se pudesse voltar atrás... Li, sem entender o que era aquilo, porque alguém me enviaria algo do tipo? Tentavam pregar-me uma peça talvez? Decerto que, aquela mensagem, aquelas minúsculas letras malignas, havia me tirado a fome, a tranqüilidade e o sono. O frio chegou de repente, sem aviso! Coloquei uma blusa e acendi a lareira, estranhei, pois ainda estávamos no verão. Fiquei por longas horas tentando descobrir a origem daquela carta. Maldita carta! Atormentava-me, causava em mim delírios, alucinações, tremores. Já era duas, talvez três da madrugada quando desisti e fui me deitar. De repente uma batida forte na porta me fez saltar da cama, levantei e pensei se devia abrir ou fingir dormir. Fui lentamente até a porta, devo admitir, estava com medo, aquela simples carta me causava pavor nunca antes provado. O movimento de girar a chave durou a eternidade. Abri lentamente, numa tentativa ridícula de defesa, piorando a situação com um estridente ranger de porta. Não havia ninguém, tomei coragem e sai até a entrada da casa, e nada! Ah imaginação! Meu medo era matreiro, estava me fazendo ouvir coisas. Ri da minha própria miséria.

Voltei para casa, fechei a porta, e antes que pudesse voltar ao meu repouso, o que vi quase arrancou meus olhos da órbita, sei que não serei capaz de descrever com precisão a face horrenda que se apresentara, e o pavor que senti gravou na minha memória o essencial, não que isso fosse necessário agora. Não sei explicar como, (sem usar o imponderável poder das trevas) adentrou em meus aposentos. Era sombrio, misterioso, suas vestes pretas realçavam a brancura de sua pele, que parecia lisa como porcelana. Seu cabelo era escorregadio, e bem escuro. O homem ou seja lá o que for, fitava-me de uma maneira tão abusiva que sentia minhas entranhas contorcerem. Pensei ser meu algoz. Meu carrasco! Mas ele nada fez... E isso fora minha tortura. A ausência de qualquer gesto ou ameaça... Apenas o olhar. Oh, funesto e devastador olhar. Com dificuldade proferi algumas palavras, desconexas pelo medo. Sem reação. Tentei! Ah! Como tentei livrar-me! Abri a porta, e com o braço apontado para a rua, exigi que se retirasse. Em vão! E no ápice da minha ira sobre o visitante indesejado, parti com fúria em sua direção, e antes de sequer lhe encostar um dedo, fui arremessado bruscamente ao chão. Para meu espanto, e creio agora que assim ficará também meu caro leitor, atirou-me sem mover um músculo. Veludo, meu azulado persa gordo, numa atitude cínica se enroscou nas pernas do homem. E ali ficou. Judas felino! Gritei, chorei, implorei para que partisse, mas piedade era algo que não havia em sua feição.
Quando a loucura queimava meu corpo como febre. Ele apontou a carta. Li, e percebi do que se tratava. Então obstinado, assim estava eu, em salvar-me da agonia, coloquei-me a pensar sobre aquilo. A maldade paquerou-me. Nomes, sobrenomes, motivos! Aquilo havia me transformado. Era eu agora um juiz. Impiedoso! Tudo aos olhares do indigesto visitante. Não é que em algumas olhadelas, ele até parecia-me sorrir? Oh! Criatura demoníaca levastes minha decência...

O prefeito corrupto encabeçou minha lista com aquele sobrenome nojento. Não agüentou tamanha agonia. Morreu pendurado, em seu próprio gabinete. No aconchego do lar, sonhei com aquele porco como um pêndulo, enforcado em sua própria gravata. O segundo me trouxe tanto prazer como o primeiro. Notei os olhos em chamas daquele ao meu lado, ao ver que era um padre, tão impiedoso e desonesto com seus fieis... Abusando da ignorância daquelas pobres almas, conduzindo-os aos interesses dos poderosos. Esse findou louco, ouvi dizer que em um sanatório católico. A loucura também abraçou Anna (vamos assim chamá-la), essa senhora, matou a própria filha num castigo insano. Graças aos tramites da Lei estava solta, perambulando com peculiar empáfia, até (é claro!) receber minha carta. Como também recebeu o senhor que abusava de crianças, mesmo preso, achei que, as grades e aquele cubículo gelado em que vivia ainda era pena muito suave. De uma hora para outra parou de ingerir, entrando em um estado anêmico sem volta, que culminou na sua morte. Dizia haver vermes em suas refeições. E não duvido que realmente o miserável tivesse certo. Para não deixar Anna como única fêmea nessa lista mortal, enviei um envelope para minha outrora amada, que me trocara sem dó. Nesse, fiz questão de por meu nome no remetente, e numa forma de sarcasmo comecei a carta com os dizeres – Minha querida – seguindo assim a mensagem:

Quando a porta atravessar,
Estarei a esperar;
Ao olhares pela janela,
Estarei a observar;
Na luz do dia ou no crepúsculo,
Estarei a te acompanhar;
Como em seus sonhos e pesadelos,
Ainda me encontrará!
Torna-te minha propriedade,
E não há como escapar;
Sem em barganha da sua,
Seis almas apresentar!

E assim, livro-me de minha peste. Já o vejo, de pronto na porta. Vai-te demônio! Agora tu predestinado leitor, conhece a composição demoníaca que havia naquela carta. Aos outros, tive por vingança retirar por conta o ultimo verso. Mas nesse caso não vejo motivo qualquer para tamanha crueldade. Como talvez não tivera quem me praguejara com tamanha maldição. Por fim, não precisa esforçar-te muito com cálculos matemáticos para saber que, para salvar-me da agonia me carecia apenas um...


Conto de Fernando Ferric - Col. Impossível