segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Brasil não conhece o Brasil

Ontem me lembrei com saudade dos tempos em que recebia todas as semanas mensagens com a história de alguém que acordou sem os rins numa banheira de gelo. Também fez bastante sucesso nas caixas postais o relato de agulhas contaminadas com o vírus da aids displicentemente esquecidas nas poltronas de cinemas.

Em tempos de eleições, há uma saraivada de e-mails igualmente catastrofistas, mas confesso que não consigo achar graça no humor que - com perdão pelo irresistível trocadilho - grassa por aê. Obviamente, de-tes-to qualquer tipo de cerceamento à liberdade dos humoristas e a simples menção da expressão “politicamente correto” já me provoca engulhos.

Na noite passada recebi um daqueles indefectíveis PPTs, e num momento de imperdoável estupidez, abri o arquivo para conferir o conteúdo. Após uma sucessão de imagens de cidadãos torturados supostamente no Irã, fotos do Lula apertando a mão do Ahmadinejad e o óbvio corolário dos riscos que o país corre se a Dilma for eleita.

Alguém me enviou também o mapa do Brasil segundo a sra. Rousseff. Me lembrei imediatamente de um tal movimento São Paulo para os paulistas, sandice perpetrada por algumas centenas de universotários paulistanos. Trata-se de uma versão revisitada da falácia de que os migrantes são responsáveis por boa parte das desgraças da paulicéia cada vez mais desvairada.

Insinuar que apenas os paulistanos sabem votar pelo fato de rejeitarem o PT (pesquisas recentes demoliram o raciocínio tosco) é uma blague digna do Zorra Total. Erasmo Dias, Paulo Maluf, Conte Lopes, Jânio Quadros, Clodovil... São tantos exemplos de escolhas corretas, neam. Aguardemos o desempenho do Tiririca e da Mulher Pêra para aumentar o panteão de notáveis entronizados pelos paulistas.

“O Brasil tá matando o Brasil”, compôs profeticamente Aldir Blanc. Será que a preponderância da imprensa paulista/carioca tem algum tipo de participação nesse olhar 1/2 Luan Santana? Não deixa de ser interessante notar que os chiliques da dupla Azevedo + Mainardi não produzem qualquer tipo de efeito prático. Hora de jogar punhados de terra nesse papinho de que “formadores de opinião” exercem algum tipo de influência. Na era da Internet quaisquer cangas devem ser repelidas, inclusive as de grife adquiridas em Maiâmi. Triste daqueles que precisam de etiquetas na bunda na tentativa de obter a valoração que não conseguem através da mente...

O poeta tem razão: “O Brasil não merece o Brasil”. Saravá!