sábado, 4 de setembro de 2010

33 motivos para escrever uma crônica

Por Gilberto Amendola

1 - O jeito como ela conta as moedas com a mão espalmada, separando as de dez e cinco centavos, antes de entregá-las ao cobrador de ônibus.
2 - O jeito como ela arruma o cabelo atrás da orelha, como se estivesse usando uma presilha invisível.
3 - O jeito como suspira toda vez que vê uma foto do Ewan McGregor na internet.
4- Aliás, o jeito como usa o teclado do computador, catando milho, usando apenas dois dedos, e se atrapalhando na hora de achar as letras “B” e “Y”.
5 - O jeito como combina cores esdrúxulas e extravagantes. A rainha do “verde limão” em sobreposição ao “azul celeste”.
6 - O fato de sempre, em qualquer circunstância, derrubar molho, creme ou comida na própria roupa. E o jeito que ela fica constrangida com isso.
7 - Ah, o jeito como ela toma sorvete de morango, é claro.
8 - Depois de cada tatuagem, um arrependimento instantâneo. O jeito como ela esconde suas tattoos antigas e as ideias que tem para cobri-las com outras tatuagens (que serão renegadas logo depois de concluídas).
9 - O jeito como ela olha para máquina de doces. O tempo que gasta nisso – e a triste constatação que o Suflair acabou.
10 - O jeito como assiste futebol. Ela tem o repertório mais abrangente de palavrões que eu conheço. O hábito de levantar do sofá a cada perigo de gol – e dizer que odeia o juiz e o atacante do time adversário.
11 - Ela não sabe dançar. O jeito como ela tenta.
12 - Repare nos pés dela. Um sobre o outro, sempre.
13 - O jeito como fala de Buenos Aires e pronuncia a palavra “alfajor”.
14 - O jeito como ela espalha seus post-its na porta da geladeira – onde ela escreve tudo que ela acha que vai esquecer. E esquece.
15 – Sabe o jeito que ela opera um iPhone? Então...
16 - O tempo que ela demora no chuveiro. É que ela fica decifrando os desenhos do azulejo e escrevendo mensagens cifradas com o vapor da água quente no box.
17 - Quando ela encosta a cabeça no vidro do ônibus e parece sonhar com desenhos animados que ainda não existem. O jeito que ela cochila.
18 - O jeito que ela fica depois de chorar. Seus olhos vermelhos.
19 - O desamparo dela.
20 - É como abraçar uma nuvem – mas isso tem mais a ver com o meu jeito do que com o dela.
21 - O jeito como ela presta atenção quando alguém lê um poema perto dela. Sempre é pra ela, mesmo não sendo.
22 - O jeito como dirige. Cheio de ousadia. Mas o melhor é quando faz baliza. Abre um sorriso de brotar coração em estátua de mármore toda vez que acerta de primeira.
23 - A mania de estalar os ossos antes de começar qualquer coisa.
24 - Ah, ela também costuma bater com a caneta nos dentes da frente. Só vendo.
25 - A forma como escreve e-mails, sem abreviações e com quase nenhum erro de português.
26 - Um dia ela me pediu para soletrar Schwarzenegger. E eu não consegui.
27 - O jeito como ela não acredita em Deus, acreditando.
28 - Em como fica empolgada quando conhece uma banda nova e obriga todo mundo a ouvir pelo menos uma música.
29 - O jeito como olha pra mim toda vez que percebe que estou fazendo uma burrada.
30 - Toda vez que ri de uma piada sem graça por educação.
31 - O jeito como quer decorar seu apartamento imaginário.
32- A delicadeza com que, olhando no meus olhos, me disse “não” – que de tão doce e franco parecia um “sim”.
33 - Acho que, principalmente, o jeito que o jeito dela me deixou.