quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Intolerante à intolerância


- Mãe, quem são eles?
- São ciganos.
- Quem?
- Ciganos, vai me dizer que não sabe o que é um cigano?

Nesse momento, escutei atentamente a mãe italiana explicar ao seu filho de 6 anos “o que eram os ciganos”.

- São pessoas que não tem casa, moram em trailers e roubam. É isso que eles fazem, roubam.
- São ladrões? Não, ladrões são outra coisa né, mãe?
- É a mesma coisa.

Eu já ouvi dezenas de afirmações iguais ou piores que essa. Ao invés de ciganos, os alvos se transformavam em romenos, marroquinos, africanos. Os brasileiros também entram na lista. Mesmo quando a ouvinte sou eu, uma brasileira vivendo na Itália, portanto, também estrangeira. Não senti preconceito na pele, quer dizer, não fui xingada nem maltratada por vim de onde vim, mas já senti desprezo em olhares, já respondi perguntas absurdas e me indignei diante da imagem construída por muitos italianos do Brasil. Geralmente ela não é boa, posso garantir.
Se é correta a teoria que a arquitetura de um país diz muito sobre a cultura e a personalidade de um povo, algumas cidades italianas retratam bem porque o país é considerado um dos mais preconceituosos do mundo. Muitas das cidades onde estive têm imponentes fortalezas em seu entorno. Dentro dos muros, geralmente ainda intactos, está a cidade, protegida contra a invasão “dos outros”.
Zygmunt Bauman, em seu livro O amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, explica que as pessoas assustadas pela misteriosa e inexplicável precariedade de seus destinos e pelas névoas globais que ocultam suas esperanças buscam desesperadamente os culpados por seus problemas e tribulações. Adivinha quem geralmente são os acusados? Os forasteiros.
Quando eu comento sobre essas situações com amigos brasileiros, a maioria vem com aquele argumento de que no Brasil é o contrário, já que “gringo, aqui, é rei”. Mas de que “gringo” estamos falando? Veneramos mesmo os estrangeiros? Então, quais são as imagens que construímos da África? E pra não sair do continente americano, o que pensamos de bolivianos, peruanos, equatorianos?
Difícil saber como o preconceito nasce, por que a xenofobia pulsa entre os povos, por quais motivos essas falsas imagens são construídas, disseminadas, cristalizadas. A conversa que presenciei entre mãe e filho na Itália é um desses inícios. Pode demorar para que o menino italiano encontre um cigano, mas algo muito forte dentro de mim diz que ele terá medo assim que se deparar com um. Infelizmente, ninguém vai roubar isso dele. Acho que esse é um dos piores males do preconceito. A cegueira não se cura. Leis são criadas no intuito de acabar com o racismo e a intolerância, mas esse é um dos “crimes” nos quais medidas autoritárias são pouco eficientes. Pior, são capazes de agigantar a raiva, a revolta contra aquele grupo marginalizado.
Enquanto o politicamente correto continuar polindo as afirmações em público e as aberrações continuarem a ser ensinadas dentro das casas, das escolas, das igrejas, enfim, o preconceito continuará mais forte (e mais propagado).
Mas não foi minha estada na Itália que me fez pensar nisso. Posso dizer, sem medo de errar, que sou intolerante à intolerância há muito tempo. Não digo que sou isenta desse mal, já que porto essa semente, germinada vez em quando outra, quando caio na tentação de generalizar outros povos, quando aperto a bolsa contra o corpo diante de alguém “suspeito” - que fala uma língua desconhecida e tem traços diversos - quando reduzo alguém a sua nacionalidade, como se identidade fosse só isso.
Esses dias, conversando com uma amiga, falávamos do preconceito sofrido por brasileiros na Europa. Eu lhe disse que nós também temos as nossas intolerâncias e que não podemos apenas nos colocar na posição de vítimas. No que ela respondeu: “ah, mas nesse caso não que seja certo termos preconceito, mas é uma coisa quase natural”. Meu medo é justamente esse. Viver em um mundo onde intolerância seja natural, quando respeito mútuo o deveria ser.
Não sou uma “nova engajada raivosa”, para usar uma das expressões que ouvi quando deixei pública minha revolta contra os comentários absurdos sobre nordestinos depois da vitória da presidente eleita. Não sou de levantar bandeiras, sou menos politizada do que gostaria e uma das minhas grandes frustrações é não ter nenhuma grande causa para defender.
É por isso que eu quis escrever isso aqui. No sentido de compartilhar uma ferida que não me cicatriza nunca. Se eu fosse mais evoluída, quem sabe, levantaria essa bandeira, de um mundo sem muralhas. Porque se derrubar nossos muros nos deixa desprotegidos, também nos dá a possibilidade de conhecer outros mundos, de igual para igual, ou seja, respeitando nossas enriquecedoras diferenças. Não seríamos divididos, mas inteiros.