segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sr.F e a Solidão

Sr. F e a Solidão

(ao som de Solidão - Alceu Valença ou She's a mystery to me - Roy Orbison

Misteriosa garota
A solidão é fera a solidão devora
É amiga das horas, prima irmã do tempo...
Solidão
(alceu valença)


Sr. F está em uma festa, uma confraternização com seus colegas – a maioria gente do trabalho, a maioria Sr. F conhece apenas de vista. Seu melhor amigo ali é uma garrafa de whisky e este não o impede de adormecer num canto que parece ser o mais opaco do lugar.
Uma música gira na cabeça de Sr.F, tem uma rouca voz, gaita e violão, mas as palavras ele não consegue discernir. Eis que com as pálpebras lentamente abrindo Sr.F vê, no meio da multidão uma mulher toda de branco se aproximando. Anda mas parece flutuar longos cabelos negros, aspecto jovial, a pueril feição de quem tem algo importante a dizer.
Misteriosa garota ( assim Sr.F a chama) - Posso me sentar ?
Sr.F – mas claro, sinta-se a vontade.
Permita que eu lhe peça um drink?
M.G – Muito obrigada mas vou recusar. (olha para o lado e torna o olhar para F)
Você não percebeu, mas eu estava aqui o tempo todo e na verdade já
brindamos bastante esta noite. Nós e sua estimável garrafa de whisky.
Sr.F – Perdoa-me senhorita, mas por mais aturdido que eu pudesse estar, me lembraria
de tal presença
M.G – Você se engana. A maioria das pessoas, inclusive não quer me ver, procuram as
mais diversas formas de me, ou de se enganar para que isto não aconteça.
Sr.F – E o que a torna tão indesejável ?
M.G – O vazio, a sensação de não saber para onde ir, se fica, se corre, se fica, se vai...
Talvez, eu seja má....
Sr.F – E o que te tornas má ? O que faz as pessoas pensarem assim de ti?
M.G Sou amiga do tempo, colega do desespero, irmã do pesadelo e amante da
loucura. As pessoas querem distância de mim.
Sr.F - Vieste aqui para me buscar ?
É isso?
M.G - (gargalha estridentemente – Sr.F. olha para os lados como se envergonhado com
o fato, mas as pessoas não alteram o que estão fazendo. O que é motivo de
estranhamento para Sr.F. )
- Por que todos pensam assim? Não, não sou quem estas pensando.
Não venho te buscar, mas te acompanhar.
Sr.F – Isto muito me tranqüiliza mas ainda me assustas.
M.G – Pois não se assustes, não percebestes mas estou mais ao seu lado do que
qualquer outra pessoa que tu conheças.
Sr.F – Me confunde, o que significas ? Porque estas aqui?
M.G – (coloca lentamente a mão sobre a mão de F.) Você me enxergar é reconhecer. Tu
sabes lidar comigo, por isso estou aqui. Outras pessoas costumam me abominar,
fingem que não me vêem, não percebem que podem conviver comigo.
Sr.F – És...
M.G – Não! (grita, interrompendo bruscamente a F.) Não digas meu nome, senão me sentirei obrigada a partir.
Sr.F – Se és quem penso, eu não deveria estar só com minha garrafa de whisky ?
M.G – Como pode fazer tal observação ? Estou aqui ao seu lado e existem dezenas de
pessoas ao redor.
Sr.F – E não te notam.
M.G – Correto.
Não precisas estar sozinho para que eu apareça. Pode sentir minha presença, ou
me ver até mesmo em um estádio de futebol lotado.
Sr.F – E o quanto ruim pra mim é sua presença ?
M.G – Se te incomodo, já digo que é ruim.
Mas tu és quem tem de saber o seu limite do suportável.
Se já me reconheces, tem um problema a menos, aliás, não diria que sou um
problema, as vezes sou solução,
Às vezes começo, às vezes fim...
Não se desesperes se não tens ninguém a quem recorrer,
Sempre terás a mim.
Eu, fera, de braços abertos,
Fiel companheira,
Use-me como quiseres,
Minha ausência dá alivio,
A minha presença perturba o coração,
Sou eu,
A sólidão...
Sai de cena a misteriosa garota, Sr.F se retira do local e vai para casa.
Nunca mais tornou a vê-la.