segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Naquele Quilômetro

“Ônibus fantasma encontrado na Rodovia Norte”

Na manhã de terça-feira (18) foi encontrado um ônibus de viagem da empresa Nortur, no acostamento. Curiosamente não havia passageiros e nem motorista, mas todos os pertences ainda estavam no local. A polícia da região investiga e não descarta um seqüestro coletivo. As famílias apreensivas fazem vigília.

Folha de Araucária, capa – 19.03.08


“Abdução na rodovia”

Na ultima terça-feira (18), o ônibus da empresa de turismo Nortur foi encontrado abandonado na estrada, sem motorista e sem passageiros, a polícia investiga um suposto seqüestro, mas para os moradores do Vale de Araucária, não há duvida. Eles foram ABDUZIDOS. É o que confirma Seu Valdeir fazendeiro da região, que diz ter visto uma movimentação estranha no céu na mesma noite...

Trecho do jornal O Diário, pág. 04 - 20.03.08


“Caso: Nortur”

Texto encontrado em notebook de um dos passageiros desaparecidos pode ter a resposta do ocorrido.

A polícia de Araucária analisa um texto encontrado em um notebook que estava no banheiro do ônibus. Passageiros e motorista continuam desaparecidos. Leia na íntegra com exclusividade o texto encontrado:

Jornal da Cidade, Caderno Cotidiano pág. 02 - 20.03.08


NAQUELE QUILÔMETRO

por Fernando Ferric

Existem momentos estranhos na vida, nesses momentos alguns sinais indicam o que está por vir. O problema é que nem sempre prestamos atenção neles, ou quando notamos já é muito tarde. Se eu tivesse prestado atenção em algumas coisas não estaria aqui, preso no banheiro de um ônibus de viagem, resistindo o quanto posso com as pernas apoiadas sobre a porta, enquanto digito provavelmente minha ultima lauda, espero que alguém encontre isso e que todos saibam o terrível destino que tivemos, porque sei que não sairei vivo daqui. Minhas pernas já estão fracas e não sei por quanto tempo vou resistir as investidas contra a porta. Eu os ouço perfeitamente, ofegantes, grunhindo sons assustadores. Não existe escapatória, todos que estavam comigo estão mortos. E não estávamos em poucos, um ônibus lotado de passageiros, éramos pelo menos quarenta. Não, quarenta e um! Não posso me esquecer do motorista, e seu sorriso peculiar, ao conferir minha passagem no embarque, mostrando a falta de um dos seus dentes.

- Poltrona trinta e nove? Perto do banheiro, rapaz você nunca viajou tantas horas, não é? Serão dezesseis horas, com duas paradas. Boa sorte!

Eu apenas retribui o sorriso, muito animador, saber que viajaria horas sentindo o cheiro de fezes de toda aquela gente. Quarenta passageiros, o que quer dizer que se ao menos vinte por cento fosse uma vez ao banheiro, já seriam no mínimo oito vezes em que eu sentiria odores desagradáveis durante o trajeto. Numa viagem de dezesseis horas, se pegarmos essas oito vezes, pelo menos uma em cada duas horas, seria com alguém defecando bem atrás de mim. E isso não era nada satisfatório. Não estranhem minha mania por contas, sempre as fiz, costumava desde pequeno fazer de todo tipo, mas meu vício maior era pegar números inteiros, e multiplicar pelo ultimo, este não fazendo parte da somatória. Não me perguntem o porquê, não saberia dizer.

Fiz diversas contas pelo caminho, placas de carro, indicação de quilometragem. Onde tinha número eu calculava. A viagem realmente era cansativa, mas por um bom motivo. Sempre tive vontade de conhecer as Grutas do Diabo numa cidade chamada Calinéias no norte do país, um lugar ainda pouco explorado, pouco habitado e muito, muito precário. Então aproveitei o pacote promocional e me arrisquei. Se não fosse o passageiro algumas poltronas à frente, com seu ronco perturbador, não seria também tão estressante. Pense num motor de geladeira, multiplique por cem e terá o barulho que passei juntamente com os outros, ouvindo durante horas. Aquele sujeito me lembrava um personagem de um antigo desenho: o senhor Urso. O ronco era idêntico.

Aquilo só não era mais enlouquecedor que minha vontade de fumar, meu corpo pedia nicotina, e a primeira parada parecia estar longe. Então o jeito foi ligar o mp3 e ouvir o bom e velho rock, eu havia preparado uma trilha especial para viagem, de Janis Joplin a U2. Peguei no sono, na verdade pequenos cochilos, acordava de tempo em tempo e dava uma olhadela na janela, já era madrugada e a esplêndida paisagem me distraía, árvores alinhadas simetricamente deixavam frestas iluminadas pelo luar de prata. O céu limpo, repleto de estrelas, coisas que um paulistano como eu não está acostumado a ver. Foi admirando as estrelas que cochilei novamente.

Acordei com a luz do ônibus, era a primeira parada. Finalmente pude matar minha louca vontade de fumar, além do cigarro tomei um café expresso quase sem açúcar. Poucos passageiros se dispuseram a enfrentar a madrugada gelada, acredito que apenas os fumantes mesmo. Quinze minutos depois e já estávamos cortando estrada adentro, se tudo ocorresse dentro do previsto às dez da manhã já estaríamos na cidade. Não via a hora de tomar um bom banho, fazer o desjejum e me aventurar pela trilha até as grutas. Mas ainda faltavam oito horas - quem dera elas fossem completadas - Não consigo recordar o horário, mas uma ou duas horas depois que saímos do Rodoserv, o ônibus encostou. Era muito cedo para uma segunda parada, então, porque diabos parávamos? Foi o que perguntou a senhora que estava na poltrona ao meu lado. Eu não sabia responder, mas temia pelo pior - algum problema no ônibus. Isso se confirmou quando o motorista apareceu no corredor dizendo que havia algo errado no motor. Pouco a pouco foram descendo os homens, eu fui um deles, admito que não muito interessado em ajudar, queria mesmo era fumar mais um cigarro.

O frio no meio do nada é realmente imponente, e mesmo com blusa tremia feito uma vara verde. Apesar de nunca ter visto uma vara verde tremer. Mas o cigarro ao menos aquecia meus pulmões. Enquanto fumava, ouvia os mais diversos palpites sobre o que acontecera ao motor. Depois de algumas tentativas frustradas do motorista, a má notícia: teríamos que esperar um ônibus reserva.

Mas, como se já não bastasse isso, ele também disse que não conseguia contatar a garagem pelo celular, aliás, ninguém conseguiu, nenhum aparelho apresentava sinal. Estávamos realmente ferrados naquele fim de mundo.

Havia se passado trinta, talvez quarenta minutos que ali estávamos e nada de passar algum carro. Foi quando um tiozinho que ao meu lado estava teve a brilhante idéia de caminhar pra procurar um orelhão na beira da estrada. O motorista disse que havia, mas não sabia precisar em que altura. O homem teve a idéia, mas não quis executá-la sozinho e para quem sobrou acompanhá-lo? Inferno! Teria que caminhar por aquela merda de estrada atrás de um telefone.

Enquanto partimos em busca da “salvação”, puxei papo com o velho, perguntando se ele também viajava para conhecer as grutas. Ele me disse que não, na verdade estava indo visitar um filho que era médico em um hospital da cidade próxima. O frio realmente perturbava e eu já havia fumado três cigarros durante o percurso, e nada... Nada de orelhão, posto de serviço, ou serviço de emergência. Realmente algumas regiões do Norte são muito precárias. Quando já pensávamos em voltar avistamos um ônibus encostado na mesma situação que o nosso. Fomos aproximando, pensando na coincidência de também ter outro ônibus quebrado na maldita rodovia. E quanto mais perto estávamos, mais aquela paisagem era familiar, primeiro as cores do veículo e quando chegamos realmente perto, a surpresa, pasmem... Era o nosso ônibus! Sim, nosso maldito e inútil ônibus. Confirmei pela placa DRU5602, eu já havia observado a placa, e já inclusive satisfeito meu TOC. Quinhentos e sessenta vezes dois? Mil cento e vinte.

Talvez o número de vezes que me perguntei como estávamos ali novamente, saímos em linha reta, não pegamos nenhum atalho. Era como se tivéssemos andado em círculo. Seu Arnaldo – caminhar a procura de ajuda me fez saber muito mais que seu nome - praguejava coçando a cabeça, sem entender o que acontecera. Olhava para mim tentando encontrar a resposta, e eu retribuía da mesma forma. Não tinha ninguém fora do ônibus, o frio afugentara a todos.

- Como vamos contar isso? Vão achar que estamos loucos. – disse ele ao se aproximar da porta.

Eu apenas balancei a cabeça enquanto tragava meu cigarro. Ele entrou primeiro enquanto eu terminava de fumar. Soltando pequenos e tortuosos círculos de fumaça enfeitando o céu escuro.

- PUTA QUE O PARIU! – gritou me fazendo quase engolir a bituca do cigarro

Entrei atordoado pelo susto, e não pude acreditar no que via, havia sangue por todo assoalho do ônibus, meus companheiros de viagem, ou melhor, o que restou deles, jogados entre os assentos e corredor. Um rapaz que trajava uma camisa do Cruzeiro - lembro ter brincado com ele pelo banheiro do Rodoserv dizendo: Meus pêsames por 98! - estava com apenas metade do seu corpo enfiado no compartimento para bagagens, não havia sinal de suas pernas... Uma cena dantesca!

Enquanto Seu Arnaldo tentava evitar que suas tripas saíssem pela boca, eu, pasmo, buscava uma explicação para tudo aquilo. O senhor roncador silenciara! Estava estirado da mesma forma que ficou durante toda a viagem, com a cabeça reclinada para cima com a boca escancarada e uma baba grossa que escorria pelo queixo, ziguezagueando pelo pescoço e molhando lentamente sua camisa florida que para minha surpresa e nojo estava com um enorme buraco na altura do abdômen, como se tivesse acabado de passar por uma cirurgia – acho que retiraram o motor de geladeira - pensei sarcasticamente. Parecia até que o ônibus tinha sofrido um acidente, tudo revirado, bolsas, blusas, cobertores misturados a sangue e restos do que antes eram viajantes do ônibus.

- Mas o que é is...

Disse espantado o velho Arnaldo, eu também não saberia responder. No bebedouro que havia ao final do corredor, duas pequenas criaturas se estapeavam para colocar a boca na torneira. Aproximei-me com cuidado seguido pelo velho.

- Minha nossa são alienígenas! – disse ele em voz alta

Nunca havia visto algo parecido, talvez em filmes de ficção, criaturas pequenas, avermelhadas, os braços finos e alongados eram maiores que as pernas. Olhos amarelados como de um felino, iluminados e vidrados em nossa direção.

Sim! Seu Arnaldo conseguiu chamar a atenção das duas pequenas criaturas como um soldado raso assoviando em campo inimigo durante uma infiltração, uma das criaturas soltou um grunhido ameaçador, enquanto a outra deslizou lentamente do bebedouro até a poltrona – sem tirar os olhos de nós dois.

- Dr-Droga! Eles va-vão nos mata-tar! – sussurrou Seu Arnaldo com dificuldade

- Não se mexa, eles podem estar assustados também. – respondi

- Assus-sus-ta-tados? Esses mo-monstros aca-cabaram de tirar as tri-tripas de todo mundo aqui. – disse ele com toda razão, apesar de não parecer que criaturas tão pequenas pudessem fazer tamanho estrago.

O estranho ser se aproximava cada vez mais, às vezes parecia rastejar, numa dança hipnótica como de uma serpente enquanto o outro nos fitava sem hesitar.

Eu estava inerte estudando a melhor forma de fugir da investida deles. Mas Seu Arnaldo já morto de medo não se conteve e deu um passo para trás, virou-se e tentou correr, eu estava a sua frente, mas o monstro pulou velozmente na direção dele, e não deu o bote sozinho, outras criaturas talvez atraídas com aquele grito que o bicho deu ao nos ver, como se dissesse – Ei, rapazes não vamos deixar a sobremesa, a carne parece macia e suculenta... E mais saudável que a do Senhor Urso ali da poltrona vinte e dois.

Eu não consegui contar, mas era no mínimo uma dezena deles, amontoados sobre o pobre velho. O medo dele foi o sinal para o ataque e eu não tinha muito tempo, pois seria o próximo, enquanto o homem se debatia sem conseguir se livrar eu pensava em correr, mas para sair do ônibus teria que passar aquela bola monstruosa que se formou em cima dele naquela altura já imobilizado, provavelmente morto. Foi então que me ocorreu que a única chance seria me trancar no banheiro. Mas para isso teria que driblar meu observador, aquele demônio miniatura não tirou os olhos de mim em nenhum momento, nem sequer foi banquetear com os órgãos do meu colega de viagem. Eu tinha que desviar a atenção dele de alguma forma, e tinha apenas um isqueiro e um maço de cigarros no bolso, coloquei a mão no bolso lentamente, enquanto ouvia os NHEC – NHAC – GLUSH daqueles vermes se fartando com os restos do velho Arnaldo. Segurei o isqueiro com força, e mirei a criatura - me lembrando talvez da época em que era um ótimo derrubador de latinhas com bolas de meia nas quermesses da igreja – É a última bola filho, você vai conseguir o carrinho se derrubar aquela lata, vamos Dani, só resta uma! - gritava meu pai

Lancei meu braço com força, atirando o isqueiro como um lançador dos melhores times americano de baseball – Você conseguiu filho, conseguiu o carrinho! Papai está orgulhoso! – O isqueiro fora certeiro, na cabeça do bicho que caiu como um avião kamikaze.

Antes de entrar no banheiro me lembrei do notebook, que por sorte estava no meu assento, não tive duvidas de pegá-lo, celular não, mas talvez wirelless funcionasse naquele lugar, lembrei que durante a viagem algumas vezes o led indicava que havia sinal. E antes que pudesse entrar no banheiro senti um enorme beliscão na perna, uma dor aguda, um dos pequenos monstros se prendera nela com os dentes, e outros já se aproximavam com voracidade, fechei a porta na cabeça dele algumas vezes até que se soltasse, e pra minha sorte isso ocorreu antes que os outros alcançassem.

Enquanto eles golpeavam a porta, liguei o notebook e tentei por diversas vezes um sinal wi-fi, sem êxito. Aquela era a única chance de escapar, eles se amontoavam e provavelmente se revezavam nas tentativas de arrombar a pequena porta, outros socavam a parte de cima e também as laterais da cabine, um barulho ensurdecedor.

E aqui estou; fraco, perdendo muito sangue devido a ferida na altura da panturrilha, escrevendo essa que talvez seja minha derradeira carta. Mãe, pai, amo vocês, obrigado por tudo... Desculpem por todos os problemas, por não aceitar os conselhos, muitas vezes foi por pura rebeldia, ou por querer testar os limites. Parece que meu espírito aventureiro pregou uma enorme peça dessa vez. O pai sempre dizia, para parar com essas viagens exóticas não é?

Eu queria muito conhecer as Grutas do Diabo, mas acabei conhecendo seu quintal, sua morada. E fica bem aqui, na Rodovia Norte no quilometro 749. Setenta e quatro vezes no...



FIM