terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O milagre da multiplicação

Ó, leitor, respeitável público! Vós que me observais nu! Transcendente é o gozo ao ser ouvido, lido, sentido – qual a diferença?, é tudo comunhão.

Multiplicar-se. Qual o sentido de um ser vivo, se não este? Para isso acordamos, caçamos, comemos, amamos, lutamos, fugimos, fingimos. Nada fazemos, nada queremos além de espalhar nosso pólen no ar, bem aventuradas as flores. Mas não temos pétala. Polinizamos no cortejo, na cópula, contando histórias, construindo, ensinando, deixando memórias de uma existência frívola.

Ausentes as pétalas, uso palavras. Multiplico-me em letras. Vossa leitura me pulsa o sangue, preenche o vazio que, pudera, fosse ocupado pelo filho do amor que jamais tive.

Deixo palavras, filhas de minha esterilidade, ainda que fértil.