sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

3. a humanidade (Houaiss)

Pela primeira vez trabalho com algo que quero. Eu não estudei pra nada, não fiz faculdade por preguiça e por não saber o que estudar. Sendo assim não se pode exigir muito na hora de entregar currículo né? aliás, não é pra exigir nada. Nessas eu fui frentista, trabalhei com manutenção de máquinas Xerox, com alarme de caminhões, na linha de produção de uma fábrica de tintas, serralheria, no arquivo da Telefônica, de recenseador do IBGE, de fiscal de sala em concurso público, numa biblioteca, com boca de urna entregando panfleto e de ajudante de pedreiro aqui em casa numa época que eu estava sem emprego e meu tio precisava de ajuda. E a cada ano que passava o fato de eu não ambicionar uma carreira ia me incomodando mais. Junto com esse incômodo crescia uma das únicas certezas que eu tenho na vida, a de que se tem uma coisa que eu gosto de verdade, essa coisa é gente. Todos esses empregos que eu tive,  fossem eles chatos, legais, pesados ou leves, nunca importou. Quando lembro deles me vem na cabeça as pessoas que valeu ter conhecido. Aí um dia eu decidi fazer o curso de bombeiro civil. Não consegui emprego de bombeiro. Fiz o curso de auxiliar/técnico em enfermagem. Desde janeiro trabalho num hospital da minha cidade. Na emergência. Tô gostando bastante. Tem bastante gente lá. Doente. Doentes internados. Doentes trabalhando. Tem uma menina de uns 4 anos que é linda e vai lá todo dia receber quimioterápico. Ela vai morrer, é irreversível. A alegria dos funcionários. Lá tem também uma mulher que internou hoje com obesidade mórbida. Grávida. Amputou o pé ontem. Os funcionários que se alegram com a menininha mais eu fomos buscá-la com uma maca grande onde estava estacionado o carro que a trazia para levá-la até o leito. Os mesmos funcionários que se alegram com a menininha fizeram piadas escrotas assim que a deixamos no quarto. Gente. Gente que eu gosto. Gente como eu, imperfeita. Mas que ainda sim eu gosto, mesmo sem saber bem o porque.