sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Amar uma pianista (play it again, Melissa) - Por Gilberto Amendola

Por Gilberto Amendola
Gosto quando passeia descompromissada pelas notas desse velho piano. Ela sempre acaba perdida em melodias sentimentais, retalhos de Mozart, Jobim e outros que não reconheço. É quando encosto minha mão em seu ombro, fecho os olhos e busco, na memória viva, a sensação da minha carne morta. Percebo o tremor percorrendo o corpo dela. Ela sabe quem está aqui. Ou desconfia. Ou teme. Ou sonha. Ou nada.
Queria te dar um beijo – mas seria uma mímica ridícula. Iria me diluir feito fumaça no momento desastrado em que encontrasse sua boca. Você me engoliria. Talvez construísse uma casa nas paredes do seu útero. Até o dia em que você me parisse, me inventasse outra vez. Adoro essa música. Não pare agora.
Melissa! Eu grito, mas nada acontece. Nem um som oco. Nada parecido com as canções, sinfonias e passarinhos que você costuma captar com seus ouvidos profissionais. Acho que tenho ciúme do piano. Tão imortal, tão grave, imponente e viril...
Lembro do dia em que te conheci. Nunca tinha entrado naquele bar, mas o lugar me parecia perfeito para escapar do temporal e matar o tempo. Me sentei no balcão e esperei pelo barman. “Cadê o barman?”, perguntei. Você se virou, lançou um sorriso cínico e me respondeu. “Sou eu. Sou o barman.”
Sei que é um clichê, mas no meu estado etéreo posso confessar que me apaixonei naquele instante. “Qual é o seu nome?” “Melissa? Igual a sandália?”. Você fechou a cara. Já tinha ouvido aquela piada uma centena de vezes. Eu era só mais um panaca naquele balcão.
Passei três horas testando sua habilidade com as bebidas. Tomei mojito, margherita, dry martini e outros drinks de sua autoria. Você foi com a minha cara. No meio da bebedeira, perguntei o que você fazia num lugar como aquele. Lembro da sua resposta: “Estou juntando dinheiro para comprar um piano”.
O que eu fiz? Menti. Disse que tinha herdado um da minha avó, que ninguém usava, que você precisava conhecer... Olhando em retrospectiva, essa cantada me faz corar, encher de vergonha esse pobre desencarnado. Mas você caiu direitinho. Se eu sugerisse, você iria para o meu apartamento naquela noite mesmo.
Me segurei. Não havia piano nenhum. Marcamos para o dia seguinte. Eu tinha menos de 12 horas para comprar um instrumento. Naquele meu estado de encantamento, nada me parecia impossível. Foi a coisa mais romântica que fiz em vida.
Rodei por quase todos os antiquários da cidade. Precisava de um piano que sustentasse minha mentira. Foi uma correria desumana, mas encontrei o que eu precisava. Sim, esse mesmo piano que você toca agora. Não pare. Sempre gostei dos seus improvisos. Tente não chorar, meu amor.
Gastei a economia de um ano inteiro – e ainda tive que deixar um extra para que me entregassem o piano um pouco depois do almoço, por volta das três da tarde. E foi o que aconteceu.
O que meu desespero romântico não podia prever era que esse gigante não passaria pelo elevador e muito menos poderia subir pela escada. Foi preciso içá-lo pelo lado de fora, operação que demorou horas, e que você chegou a tempo de assistir ao finalzinho.
Melissa , você ria feito uma criança, me chamou de mentiroso, louco, bateu no meu peito e me abraçou. Eu tinha feito a coisa mais incrível do mundo. Tinha mesmo.
Subimos ao meu apartamento. Você improvisou uma canção sentimental, igual a esse que você está tocando agora. Depois, fizemos amor embaixo do piano. Nos casamos em menos de trinta dias. Éramos felizes. Eu, você e o piano.
Não fosse um estúpido acidente de carro, eu ainda estaria ao seu lado, seria sua melhor plateia, seu fã incondicional.