sábado, 26 de fevereiro de 2011

Percebendo

Essa semana chegou minha mesa! Me mudei faz pouco tempo não só de casa, mas de bairro, cidade, emprego... E essa vida nova, como em todos os inícios, veio cheia de vazios desde a rotina até meu quarto que nem cama tinha. Depois de duas semanas dormindo em colchão inflável, dormir em uma cama de verdade, espuma e molas, mesmo sendo dessas estreitinhas de solteiro, foi uma alegria e tanto. Mas meu coração bateu forte mesmo quando o caminhão das Casa Bahia deixou na portaria do meu prédio uma incrível mesa em L, estilo homeoffice, com tampo de vidro preto e pernas de metal.
Ela veio numa caixa que definitivamente não combinava com os 1,45x1,45m indicados no site. Mas além de toda beleza, tampo de vidro perfeito pra desenhar, o que mais fez brilhar meus olhos foi o precinho super camarada. Míseros 230,00 reais e uma mesa com pinta de escritório completo TokStok no meu quarto. 
Enquanto eu organizava pecinha por pecinha e tentava desvendar o enigma astes x pernas, reparei na caixa que eu acabara de abrir um selo Made in China. Sim sim, essa mesma China que em fevereiro do ano de 2011, ou seja, agora,  ultrapassou o Japão ocupando o posto de segunda maior economia mundial, ali do ladinho do Tio Sam.
É bem verdade que o Made in China trás consigo o arquétipo do "produto roubada com curtíssimo prazo de validade''. Mas estou aqui montando minha linda e baratíssima mesa e constatando sua excelente estrutura e qualidade de material. Está aí um incrível produto, chinês. Mantendo aquele mesmo velho precinho que desbanca toda a concorrência, seja qual for a nacionalidade.
Quando aderi ao clube retirantes Recife>São Paulo em busca de todo o blablabla ascensão profissional e etc e tal, deixei todo o conforto de roupa limpa, casa arrumada, comidinha na mesa e cafuné de mãe antes de dormir. Tudo isso para estar Onde as coisas acontecem.
É engraçado você ir deixando de ser turista numa cidade que você idolatrava de longe.
As pessoas aqui ganham bem, mas tudo é caro e longe. Av. Paulista não é só gente estilosa andando rápido durante a semana e fazendo coopper aos domingos. Domingo passado, por exemplo, eu estava por ali para um oficina de gravuras na Caixa Cultural. Como cheguei um pouco cedo, fiquei perambulando por aqui e por ali, vendo o que acontecia, e acontecia muita coisa esquisita que olhos apressados não percebem. Vi um senhor subindo a bermuda após fazer suas necessidades num jardinzinho de calçada. Vi uma senhora, residente de asfalto sob estrelas, lendo em voz alta enquanto balançava suas perninas, como se estivesse sozinha na sua casa memorizando sua fala para algum espetáculo teatral. Vi um homem, que deveria ter em torno de 30 anos, magérrimo, só de bermuda, surgindo em meio a vários sacos pretos de lixo bem cheios. Resolvi entrar em algum lugar, lanchonete, padaria, para manter o tempo lá. Na porta do local escolhido havia um mendigo deitado no chão, rodeado de batatas fritas da Mc Donald´s, cuja loja estava a nossa frente, do outro lado da rua. Entrei na padaria e fiquei por lá, tomei um suco de maracujá, matei tempo conversando por telefone. Quando sai havia uma equipe de paramédicos retirando o mendigo mc-fritas da calçada. Jamais vou saber o que aconteceu, nem se aquele homem ainda tinha vida. Fui para o meu curso e, enquanto via aquele artista argentino explicando sobre a antiquíssima e totalmente desnecessária e ultrapassada técnica de reprodução artesanal de imagens através de placas de bronze, pensava que, naquele exato momento, talvez eu fosse a pessoa mais fútil do mundo. Lembrei daquele filme de Bertolucci, Os Sonhadores, onde os personagens viviam um mundo de fantasia e referências artísticas, desfrutando liberdades dentro de um apartamento bem decorado, enquanto da porta para fora a cidade ardia. Não estou dizendo que antes desse passeio dominical eu desconhecia sobre miséria e mazelas humanas. Mas saber, assim, de longe, pelo G1 por exemplo, é diferente de dar-se conta. Você pode assistir na tv sobre as confusões na Líbia, inclusive ensaiar discursos engajadíssimos para, 5min depois, mudar para Warner e se acabar de rir com manjados episódios de Friends esquecendo toda aquela coisa distante de mundo árabe. Mas um pouco de esclarecimento social verídico, ali, na mesma calçada, faz a gente se sentir muito mal por se perceber alheio. E estar sozinho e longe de sua cidade, o que lhe deixa bem mais perceptivo e sensível, lhe faz reparar com mais cuidado as mesmas coisas que lhe rodeava no seu lugar de origem mas que você, tão acostumado com todo aquele cenário,  fechava o vidro do carro e seguia em frente.
É engraçado como a gente se mantém alheio a essas várias desconstruções sociais, ambientais, morais, normalmente por pura amarra à própria rotina. Ou por acomodação, pela facilidade em não reparar. E a gente faz coisas bestas que poderiam ser evitadas como deixar o ar-condicionado do quarto ligado o dia inteiro, deixar a água do chuveiro esquentando enquanto você escova os dentes, passar em velocidade com o carro pela faixa do canto em dias chuvosos, comprar uma mesa de uma das economias mais escrotas do mundo só porque o baixo custo da mão de obra + excesso de horas de trabalho fez com que ela coubesse certinho no seu orçamento, contribuindo para a ascensão do grandioso capital chinês, com toda sua corruptividade, amputada liberdade e nem um pouco justas leis trabalhistas, no cenário mundial. A gente nem percebe, a vida segue, a mesa está aqui apoiando meu laptop e amanhã será um novo dia pra mim e pra você.