sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Boa noite, São Paulo

Lembro que, no interior, a noite era o momento da vizinhança se reunir em frente às casas. A calçada que sediava o encontro indicava quem era o chefe de família mais popular da rua, que se sentava em uma cadeira, enquanto os outros o rodeavam sentados no chão. O lugar das crianças era num segundo círculo, mais distante. Era hora de contar anedotas, mentiras, falar mal de quem não estivesse lá e de vez em quando fazer uma fogueira. Tarde da noite, ouvíamos histórias de terror que teriam acontecido na imensidão escura das plantações de cana-de-açúcar, na beira da estrada ou em algum terreno baldio. O fantasma do homem esquartejado, a loira que morrera noiva e outras horripilâncias nos enchiam de medo e também de conforto por estarmos em grupo, protegidos. Era o momento de compartilhar a existência com os conterrâneos.

Hoje, na capital cinza, tenho como companhia apenas os carros que passam lá embaixo, na avenida. São dez e meia da noite e eles ainda fazem barulho e filas no semáforo. Em trinta minutos, pontualmente, eles se irão, deixando para trás apenas os colegas retardatários, solitários, e outros ários que trafegam na mão correta da avenida, mas na contramão da vida. Talvez levem uma garrafa de cerveja na mão, talvez um Miles Davis ou um triste sertanejo no rádio, talvez uma dor no coração. Ou quem sabe não sintam nada disso e seja apenas eu que os empresto agora meu sentimento doloroso e vazio.
...

Agora, a avenida despovoada acena que o dia acabou. Há somente algumas décadas, acabava quando o Sol se despedia no horizonte, hoje acaba assim. Mas não reclamo. Pior vai ser quando, em breve, ele acabará só eventualmente, quando uma pane inesperada derrubar a conexão internet ou a energia elétrica, interrompendo nosso dia permanente.

Boa noite, São Paulo.