sábado, 26 de março de 2011

4x0

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PARTE 1

        - Então, é que vai chegar o técnico da tv lá em casa às 9h e eu estou muito bêbado para me manter acordardo. Vocês topam vir comigo? A gente fica lá por casa conversando... se não me engano tenho um vinho...
        O vinho. É um clássico. Se um cara te propõe um vinho pode ficar certa que é uma maneira elegante de propor sexo - se bem que esse discurso anda tão batido que nem sei se ainda sustenta tal nobreza ou se já se perdeu como um eufemismo barato. O que posso dizer é que, neste caso, eu estava já um tanto ébria de substâncias um pouco menos nobres para fazer julgamentos e não sei se aceitei ou neguei o convite verbalmente. Sei que continuei andando em direção ao carro de Sofia que nos levou à casa de Felipe.

        Ele estava encostado num quadrado de cimento que cobre a caixa de energia da cobertura do prédio onde se estendia uma festa desde a meia noite e pouquinho. O sol estava se abrindo e eu não fazia ideia de onde estava Sofia quando o vi ali encostado, com o olhar perdido, fumando sozinho como sempre. Fui lá.
        - Felipe, é Felipe seu nome não é? Você tá sempre sozinho. Onde estão seus amigos, rapaz?
        - Estão todos aqui. Todos esses aí. Só não estou com vontade de conversar com nenhum deles agora.
        Traços finos, estatura mediana, cabelos bem escuros e curtos e pele com aquela pitadinha latina de melanina. Mas calma, ele definitivamente não tinha uma beleza blockbuster. Conversando com Sofia concluímos que ele fazia um tipo filme de arte. Aquele cara que não vai ser fácil, vai discursar por entrelinhas e, quando finalmente você conseguir lhe arrancar algum conteúdo, vai falar de John Coltraine e Dostoievisk e vai soltando, displicentemente, filosofias de efeito enquanto, vez ou outra, te lança curtos olhares misteriosos. Acho que ele treina de frente ao espelho. 
        Apesar do fora, fiquei por ali mesmo. Eu não tinha mais nada para fazer.
        - Você me dá um cigarro?

        Quando Sofia finalmente apareceu, com aquela cara de "Por onde você andou?!" ainda estávamos ali parados, fumando os primeiros. Zero provocações.
        - Oi Felipe, tudo bom?
        Sofia já tinha ficado com ele alguma vez, em algum lugar, com algum nível alcóolico, esse tipo de coisa. Mas, dessa vez, ela estava bem sóbria.
        - Por onde andavas, menina?! Procurei tudo!
        - Tava por aqui. Por alí. Ah, sei não.
        Como esse início de conversa virou um virtuoso papo sobre instrumentos músicais, histórias da infância, gostos e desgostos, sempre borrifado por uma boa ironia intrínseca aos três interlocutores, não sei. Sei que quando concluímos que já era hora de ir para casa, perguntamos a Felipe onde ele morava e se queria uma carona.
        Foi no caminho para o carro que ele fez o convite. Então já estavamos os três abraçados, como amigos de longa data. Na hora vi Sofia me olhar interrogativa. Continuamos andando.

        O apartamento de Felipe era pequeno, claro e muito bem organizado. Enquanto ele foi buscar o vinho nos deparamos com uma imprensadíssima estante carregada de... Dostoievisks. Além de brasilidades clássicas, Machado, Euclides da Cunha, e alguma dramaturgia. Uma das paredes da sala ostentava uma gravura de Miles Davis. No ipod, ligado ao som, algo como Radiohead, Portishead, que deve ter sido o que a gente ficou ouvindo. Ele nos mostrou a casa, eu disse que estava pensando em comprar um apartamento, Sofia disse que o dinheiro que tinha guardado longos anos para isso acabou virando um carro mesmo, nos alojamos na varanda, Sofia na rede, eu num banquinho encostado na parede, ele numa das cadeiras retirada da pequena mesa de jantar, de frente pra gente. O clima era leve, a varanda dava para uma vista quase descampada de edifícios, uma rua bem arborizada, o amanhecer em slowmotion, a gente conversando sobre coisas da vida, uma ou outra coisa mais íntima, relacionamentos antigos, ambições, temores, o vinho era bom... até que ele começou a falar de Dostoievisk, e de como amava a narrativa de Euclides da Cunha, e que andava estudando Becket, e a nos lançar curtos olhares misteriosos, e eu provavelmente devo ter puxado o olhar ao redor, espiando se não havia nenhum Bertolucci dirigindo enquadramentos ou ensaiando o próximo "Corta! Cena 2: Cozinha".

        Fato é que eu estava morrendo de fome. Na geladeira só encontramos uns pães de queijo congelados, desembalados aos perdões dele por não ter feito compras e etc. Por trás da arrogância inicial ele era bastante educado e gentil. 
        Sofia pediu para ir ao banheiro. Felipe, entre a sequência panela e forno, e sem hesitar muito, me beijou. Quando Sofia voltou, eu fui ao banheiro. E quando eu voltei, Felipe também não tinha hesitado em relação a ela. Fui para sala e ele, sem me deixar brechas para elocubrações, me puxou a cintura e me beijou de novo. E Sofia apareceu. E, bom, ele teve que beijar ela também. E ficamos na sala, eu e Sofia mantendo uma conversa telepática sobre pão de queijo ou hora de ir embora e Felipe se esforçando deveras para dar conta de nós duas. Uns cinco minutos depois havíamos decidido: hora de ir embora.
        - Como assim? Mas e o pão de queijo? E o técnico da tv? Como assim vocês já vão!? Assim, tipo, já?!
        Como eu disse no início, não existe vinhos sem segundas intenções. Fomos embora antes que qualquer coisa se configurasse em qualquer outra coisa, afinal a sóbria Sofia andava com o coração um pouco enrolado demais para esse tipo de aventura.



PARTE 2

        No hall do prédio, Sofia precisou me abrir um pouco esse coração. Ela não sabia o que fazer, se isso que tinha acabado de acontecer era errado ou não, se ela estava num relacionamento ou não, e se ele descobriria isso tudo ou não, e ela queria muito que esses "ou nãos" tivessem a leveza baiana de Caetano, mas não tinham. Sentamos e eu também não sabia bem o que dizer, então dizia para ela não pensar muito nisso e deixar pra lá, focar no "daqui pra frente" e foi quando saiu um cara do elevador e falou:
        - Sofia? O que você está fazendo aqui?
        - É... então... a gente tava na casa de um amigo... então... a gente... tá indo pra casa... e, mas porque você está acordado tão cedo? Você mora aqui?!
        - Moro. Estou indo na farmácia. Estou um pouco nervoso porque meu casamento vai ser logo mais às 11h e...
        - 11h?! Casamento?! Você vai casar! Hoje?! Parabéns!!!!
        E foi assim que fomos levar João à farmácia, ele relatando toda a sua história, contando de como seria a cerimônia e convidando a gente, mas ele estava bem abalado. João era amigo de Sofia de faculdade e fazia muito tempo que eles não se viam. Desde essa época ele namorava essa mesma mulher que, em poucas horas, ele a estaria esperando em um altar.
        Quando chegamos de volta ao prédio, ele pediu à Sofia pra gente subir pois ele estava muito nervoso, inseguro com a roupa do casamento, inseguro com tudo, e Sofia, boa que é, disse:
        - Vamos Pam?
        Eu, a essa altura, tinha muita fome, muito alcóol cansado no corpo e já algum sono. Mas tudo bem. Coitado do rapaz. Subimos. Ao chegarmos, eu deu um peteleco na etiqueta e perguntei logo se ele não tinha algo para comer. Ele me deixou com a geladeira e levou Sofia para o quarto. Apartamento, claro, tão pequeno quanto o de Felipe, de lá da cozinha eu escutei qualquer coisa tipo um "não, você é louco? ela também não! o que deu em você? você vai casar daqui a menos de 4h!!!" e eu não acreditei. Saí da cozinha batendo palmas e saltos em direção ao quarto "Sofia, vamos, nessa! Vamos nessa!", peguei Sofia pelo braço,  ela pegou a bolsa e saímos pelas escadas mesmo, sem muita despedida.
        - Ele tentou me agarrar, Pam! Ele vai CASAR, Pam! Daqui a pouco! E tentou me agarrar! E queria te agarrar também! Será possível isso?! Eu conheço a namorada dele, poxa! 
        No começo isso era realmente uma indignação, mas a situação era tão inesperada que em poucos minutos virou sonoras gargalhadas. Naquela hora do hall pensavamos que a noite já tinha dado o que dar. Nem noite era mais fazia tempo. Sentimos pena do pobre João que vai casar desse jeito. E de sua futura esposa. E de Felipe que, bêbado que estava, provavelmente nem lembra  do pão de queijo no forno! Claro que fui eu quem lembrou do pão de queijo. Eu continuava morrendo de fome e naquela geladeira também não tinha nada.
        
        Quando chegamos ao apartamento de Felipe a porta estava aberta e ele tentava se manter acordado sentado no sofá, apoiando cotovelo nas pernas e cabeça nas mãos. Ele se assustou quando nos viu e, sim, ele realmente havia esquecido os pães de queijo no forno. Juro que foram os pães de queijo excessivamente crocantes mais deliciosos que já comi na minha vida.
        Felipe contou que o técnico da tv tinha chegado e tinha saído por qualquer motivo, mas que ia voltar, e ele estava esperando. A gente contou sobre o caso Noivo Nervoso e rimos muito e estavamos os três no sofá e ele mais uma vez, sem hesitação ou brecha e de novo, chegou com tudo e Sofia me olhou interrogativa de novo, acionando uma nova conversa telepática para um hora de ir embora. Felipe, dessa vez, não se assustou, ententeu a pausa e ficou esperando o elevador com a gente, especulando onde poderia ter ido o tal técnico que estava demorando tanto enquanto eu comia meus últimos pãezinhos. 

        Chegando ao térreo, João ligou, atordoadíssimo.
        - Por favor, Sofia, não conta para ninguém. Meu Deus, estou muito nervoso. Você não quer subir?
        Era inacreditável. Sofia o mandou tomar um banho frio e relaxar. Desejou sorte para o casamento e mandou um beijo para Luana, a futura esposa.
        Já no carro, demos uma última olhada para o baixo edifício daquela rua arborizada e aconchegante. Estavam lá, os dois, cada um em sua varanda, acenando uma despedida seja ela embreagada ou neurótica.  
        
        Quando acordei, já em casa, me perguntei como deve ter sido o resto do dia João/Felipe. 
        O João deve ter casado. Deve sim. E ninguém jamais vai desconficar de sua breve insegurança pré-cerimônia. Espera-se, é fato, que ela passe para o bem dele e, principalmente, da noiva.
        Sobre Felipe, ele me ligou há pouco. Disse que acordou às 15h, deitado na rede de algum lugar conhecido, mas que definitivamente não era o seu apartamento e não fazia ideia de como tinha ido parar ali. Sentia uma elevação na testa, além de uma puta dor de cabeça, que provavelmente se configurariam num hematoma no seguir das horas. Os eventualmente ébrios precisam se acostumar com alguns parênteses ocultos na vida. Fazer o quê? 
        Ah, a tv foi instalada com sucesso.