sexta-feira, 17 de junho de 2011

Bendito

A primeira e última vez que acreditei em fim do mundo foi aos 14 anos, ingênuos 14 anos. Minha tia tornou-se seguidora fervorosa de um louco que vendeu a ideia de fim dos tempos, que tudo ia acabar, só os bons reinariam após o primeiro minuto do ano 2000, no céu, lógico, porque aqui só sobraria pó. Aos poucos uma verdadeira revolução se instalou na casa dela, as calças compridas femininas e as bermudas masculinas foram queimadas, borboletas e outros sinais da “nova era” foram exterminados, minhas bruxinhas, magos e outros seres mágicos que eu tinha em forma de bibelô de repente sumiram da minha estante quando eu voltei da escola. “Não pude fazer nada”, disse minha mãe, contando que minha tia apareceu com um conselheiro espiritual fazendo uma limpa no meu quarto. “Jogaram no mar”, minha mãe falou. Eu em prantos. O mar era longe. Enquanto isso o louco lá, reunindo em suas peregrinações milhares de católicos crentes (e com dinheiro), vendendo CDs e souvenirs a rodo, pregando uma falsa ideia a pessoas descrentes em si mesmas e desesperadamente carentes por outra coisa. Eu lembro que não acreditava em nada, minha tia me convencia e eu pensava “e se?”. “Mas eu não vou nem fazer 15 anos!”, eu dizia, pensando na festa que minha mãe tanto sonhava. Lembro-me ainda da minha tia dando dinheiro para eu, minha mãe e minha irmã irmos à costureira mandar fazer saias compridas. Fomos sozinhas e mandamos fazer várias. Calças.

E sabe? Essa torrente de lembranças me fez acreditar: não, eu nunca acreditei no fim do mundo. Embora às vezes eu seja descrente nesse mundo de intolerâncias e que só mesmo acabando tudo para recomeçar de um jeito que preste, eu balanço a cabeça e a ideia desanuvia. Não é preciso terminar nada de uma vez. É preciso terminar as pequenas coisas, os ódios gratuitos, os preconceitos, a violência violadora. É preciso começar (e recomeçar todo dia) o amor. Nada termina, tudo recomeça. Bendito clichê.