segunda-feira, 6 de junho de 2011

O fim do mundo segundo Arthur Clarke

Observando as primeiras postagens aqui do blog nesse mês que tem o tema do “fim do mundo”, eu me dei conta que o pessoal do blog tentou dar um enfoque diferente nessa questão toda. Porque, afinal, tá todo mundo cheio de Roland Emmerich e seus apocalipses anabolizados. Ou não? Eu admito que os filmes do alemão (pros menos versados: Independence Day, O Dia Depois de Amanhã, 2012) são um prazer culpado dos bons. Mas não é nada que se compare a elegância, imaginação e capacidade de surpreender de um mestre. Porque, vamos sair da esfera do cinema um pouco e mergulhar o nariz em um bom livro. O nome: O Outro Lado do Céu, uma coletânea de contos incríveis do papa da ficção científica Arthur C. Clarke.
Conhecido pela frieza calculada (e genial) de seu 2001, feito ainda mais famoso pela tradução cinematográfica de Stanley Kubrick, a verdade é que a face sensível, humanitária e poética de Clarke permanece um pouco escondida para a maioria dos leitores e admiradores da boa ficção. Eu mesmo entrei em contato com ela por acaso: a cópia do livro supracitado estava empoeirando na escrivaninha do meu pai, e eu me surpreendi com o nome gravado na capa, resgatando-o de sua cruel sorte e devorando-o em uns poucos dias sem nada pra fazer nas férias pouco movimentadas daquele ano (que já não me lembro qual). Eu já havia lido um Ray Bradbury tirado da mesma estante abandonada, e tinha abandonado Isaac Asimov no meio de Eu, Robô. Devo dizer, a título de opinião, que o primeiro continua insuperável (O Caso de Amor de Laurel e Hardy é um conto para a vida toda) e o segundo continua deixado de lado.
Mas, vamos ao ponto: Arthur Clarke não é regular. Alguns contos são incríveis, outros simplesmente divertidos, uns poucos realmente que estouram a cabeça do leitor. E há Os Nove Trilhões de Nomes de Deus, que irrompe como a primeira seleção da coletânea de contos e encanta como poucas peças de narrativa foram capazes de encantar. O conto, que Clarke descreve na sua nota bibliográfica como “produto de uma tarde chuvosa em Nova Iorque”, fala sobre a natureza humana, a contradição do ato de acreditar e, sim senhores leitores, sobre o fim do mundo. Mas o fim do mundo de Clarke é essa coisa simples, esse mecanismo encaixado com tanta precisão e tamanha elegância que fica difícil não olhar para o livro em suas mãos, no fim da narrativa, e pensar “porque não?”.
Não vou estragar uma sacada tão boa quanto a de Clarke, nem roubar de vocês, leitores, o prazer de imergir nesse fim do mundo. Essa tradução que eu encontrei do original em inglês está bastante boa. O conto não é exatamente curto, mas vale a pena, eu posso prometer pra vocês. Vale a pena ler, absorver e lembrar sempre de olhar para cima de vez em quando. Há uma última vez para tudo, afinal. Boas estrelas esse mês, meus queridos! E até Julho (e as férias, e o inverno, e o tédio; todos eles um pouquinho fim e um pouquinho início do mundo próprio de cada um).