terça-feira, 7 de junho de 2011

"E O Mundo Não Se Acabou" ou "Nos Vemos em 2012"


A Mil chegará, de Dois Mil não passará”


 
   Quem nunca ouviu essas palavras saídas da boca da avó ou de alguma pessoa mais velha, que atire a primeira pedra.   A minha, por exemplo, vivia repetindo isso toda vez que dizia que o mundo estava perdido.  E quando a gente a inquiria, perguntando de onte tirara a informação, ela, cheia de propriedade, afirmava:  “Da Biblía, ué!”  Mentira.  Eu nunca li a Biblia de cabo a rabo, mas os que o fizeram, garantem que não há versículo nela que faça tal revelação.

   O fato é que o Apocalipse esteve para ocorrer diversas vezes ao longo da História.  Eu mesmo lembro do fim anunciado em 99.  Algumas semanas "atrás", o assunto voltou com todo gás, graças a um grupo religioso aí.  E, pra variar, o mundo continua no mesmo lugar.

   Existe uma música, do final dos anos 1930, chamada "E O Mundo Não Acabou", gravada originalmente por Carmem Miranda, que é, para mim, um dos retratos mais divertidos sobre o assunto.  Para quem não conhece o samba, taqui a letra:


" Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disto a minha gente lá em casa começou a rezar
Até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disto nesta noite lá no morro não se fez batucada

Acreditei nessa conversa mole

Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar
Beijei a boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou

Peguei um gajo com quem não me dava

E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele mais de quinhentão
Agora soube que o gajo anda
Dizendo coisa que não se passou
Ih, vai ter barulho e vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou "

    A canção teve diversas regravações - a mais célebre imortalizada por Marlene e, entre outras, uma bastante controversa, nos anos 90, na voz da  "Kid Abelha" Paula Toller que subverteu o trecho "peguei na mão de quem não conhecia" por "peguei no pau de quem não conhecia".  Mérito do grande Assis Valente, criador da música e pai de algumas das canções mais vivas no imaginário do brasileiro.  Tá, o tema é o fim do mundo, mas a biografia do Assis é tão curiosa que é digna de nota:  ainda moleque foi roubado dos pais. 
Já adulto, por conta de dívidas, tentou o suicídio  diversas vezes.  Numa delas se atirou do Corcovado, sendo salvo por uma árvore que amorteceu-lhe a queda. Também por dívidas, teve uma das produções mais profícuas de nossa música, chegando a compôr uma canção por dia (entre elas, o segundo Hino Nacional, "Aquarela do Brasil" e a canção natalina mais antinatalina de todos os tempos, "Já faz tempo que eu pedi, mas o meu Papai Noel não vem/ Com certeza já morreu ou então Felicidade é brinquedo que não tem")!  Morreu em 58, depois de ir ao escritório de direitos autorais atrás de algum trocado.  Senta num banco de praça, toma formicida e deixa um bilhete para a polícia e para o amigo Ary Barroso, que lhe pagasse o aluguel em atraso.  Até na hora final, foi poeta:  "Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo."
     
 

   Ah, só para não terminar fugindo completamente do tema, toma um link com as 242 datas que a Humanidade já marcou para o "grande dia".  Desde 44 a.C. que eles estão tentando.  A merda é que um dia, eles acertam.