sábado, 24 de setembro de 2011

Anos depois

- Alô.
- Oi. Boa tarde, eu gostaria de falar com a Fabíola.
- Fabíola? Não tem nenhuma Fabíola aqui.
- Esse não é o telefone da Fabíola, fisioterapeuta?
- Não, este é o celular da Daniela.
- Ah, desculpa. Eu peguei esse número com uma amiga. Bom, desculpa.- Tudo bem.
- Tchau.
- Tchau.



- Alô.
- Oi. Sou eu de novo.
- Eu já falei que esse telefone não é da Fabíola.
- Não, eu sei. É que...você não sabe quem tá falando?
- Olha, eu não tenho tempo pra isso...
- Não, espera.
- ...
- Daniela, é o Paulo.
- Que Paulo?
- Ô, Dani. O Paulão!
- ...eu não conheço nenhum Paulão.
- O Caxias.
- Não!
- Eu mesmo, Dani!
- Paulão! Quanto tempo!
- Eu sei! Anos, né?
- Pelo menos uns cinco...
- Quatro. Teve a vez na casa do Caveira.
- É...nossa. É muito tempo, Paulo. Que coincidência estranha!
- Então...Acho que não foi coincidência, não.
- Ah, não?
- Não...Eu tô precisando fazer fisio por causa do meu joelho e a Márcia falou que conhecia uma mulher que podia me ajudar.
- Peraí. Qual Márcia?
- A Marcinha. Figueiras.
- A que estudou com a gente? Vocês ainda se falam?
- A gente se vê de vez em quando. Ela acabou casando com o Serginho.
- Eu lembro de ter encontrado ela numa festa ano passado. A gente trocou telefones, mas nunca se ligou.
- Então. Eu acho que ela me deu seu número de propósito.
- ...
- Dani?
- Oi. Tô aqui.
- Que foi?
- Nada.
- Achou ruim ela ter me dado seu telefone?
- Não. É que...
- O quê? Fala.
- Faz muito tempo, Paulo.
- Eu sei, Dani.
- Aconteceu muita coisa.
- É...inclusive quando a gente tava junto.
- Bastante coisa.
- Então.
- Eu casei, Paulo.
- ...
- Pronto, falei. Casei.
- Como casou, Daniela?
- O que aconteceu com "Dani"?
- Me responde. Como assim, você casou?
- Casei, ora. Você não quis mais nada comigo, casei.
- Não, Dani...
- Casei.
- Com quem?
- Ah, Paulo...
- Daniela.
- Hmm.
- Com quem?
- Com o Gerson.
- Ah, não.
- Foi.
- Eu que apresentei vocês!
- É.
- Puta que o pariu. Você não tem vergonha?
- Vergonha. Vergonha de quê? Você que terminou comigo, Paulo!
- Mas faz tempo isso. Ah, eu não acredito!
- Claro que faz tempo! E era pra eu fazer o quê? Ficar sozinha?
- Não, mas...Porra. o Gerson?
- O Gerson. E para de falar palavrão, que eu não gosto.
- Vá se foder.
- Idiota.
- Sou mesmo. Sou mesmo. Te liguei agora todo contente e você me dá uma dessas!
- Ah, e tudo gira ao seu redor, né? Se eu casei com o Gerson, foi só pra poder te falar isso, quando você eventualmente me ligasse, anos depois.
- Cadê ele? Eu quero falar com ele.
- Mané falar com ele.
- Nossa, Daniela. Eu arrebento ele. Eu mato.
- Mata? Faz-me rir. VOcê não mata nem mosca, Paulo. Nunca matou.
- Pois eu mato ele. Bota ele no telefone aí.
- Cala a boca. Não tem nada que falar com ninguém.
- Cadê esse merda? Eu juro, Daniela. Faço uma loucura.
- Faz então. Faz. Tô nem aí.
- Cacete.
- Para.
- ...
- Olha, vou desligar. Tenho mais o que fazer.
- Escuta. Espera. A Márcia passou seu número pra mim por uma causa.
- Foi. Porque ela sempre foi uma enxerida.
- Tá. Mas espera.
- Hmm.
- Ela deve querer que a gente se reencontre.
- Ai. Ainda com essas ideias de destino?
- Não. Me ouve.
- Se falar em alinhamento dos planetas eu desligo.
- Escuta, cacete.
- Para.
- Ela sempre gostou de você. E de mim. Lembra? A gente sempre tava junto.
- Porque você tinha carro, só. Aquela interesseira.
- Mas a gente se divertia.
- Se divertia, mas passou. E eu casei.
- Eu casei. Eu casei. Troca esse disco, Daniela. Já entendi, porra.
- Para de falar assim.
- E cadê ele? Cadê o merda do Gerson?
- Num interessa.
- Como não interessa? Hoje é sábado e ele não tá aí?
- Paulo.
- Cadê? Tá no jogo?
- Droga, Paulo. Eu separei dele.
- Como é que é?
- Separei. Divorciei. Tá contente agora?
- Separou. Separou por quê?
- Porque era um lixo. Idiota. Tá contente agora?
- ...
- Paulo!
- O que, Dani?
- Você tá sorrindo, né?
- ...
- Seu filho da puta.