quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Nem luz, nem câmera.

Eu gosto de sentar na praça e observar as pessoas. Não só com os olhos, eu gosto de analisar cada característica e montar a vida, o jeito, os costumes delas. Uso os olhos só como lente que capta, o cérebro faz a parte divertida.

Vi uma mulher que me chamou atenção. Usava roupas coloridas e meio maltrapilhas, mas não era mendiga. Andava bem devagar, como que fraca por alguma doença e pela idade, devia ter lá seus 55 anos. As pessoas muito pobres, com 55 anos, aparentam 70 ou mais. As rugas mostram, cada uma, um grande sofrimento.
De repente, atravessou a rua e comprou uma coxinha, às 7 da manhã. Provavelmente era a primeira coisa que comia no dia. O que ajudaria também explicar a aparência, alimentação ruim não prolonga a vida. Tinha um semblante triste, devia ser sozinha, imaginei que tivesse tido filhos que cresceram e foram viver suas vidas. Pra isso, ela teria que não ter sido uma boa mãe. Parecia realmente ser desleixada, descuidada. Difícil uma pessoa que não se cuida cuidar dos outros. Sua expressão, seus movimentos, me passaram alguma espécie de arrependimento, rancor, algum sentimento derivado de experiências difíceis. 

Pode até parecer preconceito, julgar as pessoas pelo que aparentam. Mas acho que é um exercício de percepção, ao mesmo tempo que tenho que lembrar que pode não ser nada do que eu imaginei. A vontade que dá é de ir lá e puxar qualquer assunto, pra ver o que dá pra colher, na esperança de confirmar pelo menos uma parte da pintura que fiz. Escrevo romances, comédias e dramas instantâneos, em milésimos de segundos, durante o tempo que uma pessoa passa por mim na rua. Interessante é imaginar quantas pessoas fazem a mesma coisa e de quantos filmes eu já fui protagonista. Cada um com sua lente, seu elenco, seu roteiro.

Só pra ilustrar, mas juro que não me inspirei nessa música, acabei de lembrar dela.


ME SENTO NA RUA

Me sento na rua em frente às horas
Como a qualquer hora, assim mesmo eu sou
Sou de qualquer jeito, nem tudo eu respeito
Pr'onde for o vento eu vou

Pano de mesa, pano de chão numa metrópole rasgada
Sou filho do nada costurada em meio-fio
Desfilando pela calçada
Todos num vão cheios de vazio
Divagando na estação, mas nem tão devagar
Saí com tanta pressa que larguei meu anjo da guarda por lá

(...)

Tô cercada de vizinhos e cada um sabe um lado meu
Todos, tantos, um só, nenhum
Fui me compondo, todos eu
Se você ainda quiser saber como eu sou, me encontrar
Pode me procurar

(Ana Carolina)