sábado, 4 de fevereiro de 2012

O TEATRO KABUKI DOS AMANTES LIGEIROS

por Gilberto Amendola

Ela lava as mãos sem me olhar na cara. Me encosto na pia tentando encontrar outro ponto de atenção. Tem o barulho da água, o som da geladeira e mais nada. 
A regra é evitar o repertório melodramático, esquecer nossas raízes latinas e agir como se fossemos Sartre e Simone.
Ela acende um cigarro.Seguro meu impulso em denunciar um tão escandaloso clichê: o cigarro, a fumaça e a separação. 
Ela vai falar primeiro.Tenho medo de que venha com alguma citação que eu não possa decifrar. Ela não sabe, mas eu nunca terminei de ler Proust.
 – Então...
  Abro a geladeira para que ela não repare nos meus olhos que começaram a marejar.
 – Eu queria encontrar um jeito melhor de começar essa conversa... Você sabe...Eu sei. Tenho completa noção do que virá a seguir. Conheço todas as evasivas, as metáforas e a cadência da respiração alheia quando o que se quer dizer é “chega”, “basta”, “terminou” ou “estou saindo com o orientador do meu doutorado em semiótica aplicada à obra de Thomas Mann”.
Bato a porta da geladeira. Ela se assusta. Disfarço – como se aquilo não tivesse sido um sintoma de irritação.
O ímã que uso para prender panfletos de delivery (um suposto pedaço do muro de Berlim) cai no chão. Acho um assunto.
 – Margherita ou peperoni? – brinco, sem convicção. 
– Mais tarde – ela responde, iludindo-se com a minha capacidade de absorver um golpe como esse de forma civilizada. 
(...)
Quem vai sair de casa sou eu. Não por superioridade moral ou alguma bobagem do tipo.
 O apartamento é dela. A TV de plasma é dela; o micro-ondas é dela. Só o videogame é meu.
 É difícil me despedir desse lugar. Podia jogar tudo o que tenho dentro da mala em quinze minutos, mas faço tudo de forma estilizada e lenta, como se fosse um ator ensaiando o seu primeiro kabuki.
Nada mal para quem acaba de ter uma conversa ríspida sobre “confiança”, “consideração” e “chifre”. 
Não, somos educados demais para usar esse termo. Quem leva “chifre” é porteiro de prédio, doméstica, trabalhador braçal e afins. Tratamos disso como um desencontro infeliz, algo que duas pessoas sensíveis, humanistas e poliglotas podem superar.
(...)
Estava tentando fechar a mala – empurrando as roupas de forma atabalhoada para dentro –, quando me veio uma questão: “Mas justo com o almofadinha, arrogante e escroque do doutor em semiótica?” Pois é...Retrocedo no meu afã de mártir cristão quando recordo de duas ou três escapadas, dois ou três casinhos que nunca chamei de traição. Sexo casual e ligeiro.
(...)
Eu sempre imaginei esse momento com trilha sonora. Mas nosso gosto musical é tão pedante, tão cuidadosamente estudado para nos fazer parecer inteligentes. Quem vai querer ouvir Philip Glass numa hora dessas? Quem?
Vou ligar o rádio no AM e esperar alguma música de verdade, alguma coisa que rime amor e dor e flor – e tenha uma segunda voz cantando em falsete.
(...)
Amigos vão nos manter afastados. Se a Mariana for no casamento da Lívia, o Marco não vai; se o Marco for no aniversário do Léo, a Mariana não será convidada. Mas, com o tempo, a vigilância irá afrouxar. Vamos nos esbarrar na saída de um cinema ou em uma manifestação contra a presença da Polícia Militar na USP. 
(...)
No futuro, você vai me apresentar seu filhinho de cinco anos – talvez no mesmo dia em que eu estiver começando um relacionamento com uma aspirante a atriz e autora de poemas eróticos.