terça-feira, 17 de abril de 2012

Por que não ser?

O Leminski disse uma vez que problemas têm família grande. Todos os domingos saem para passear os problemas com suas senhoras e os pequenos probleminhas. E nosso sonho, disse ainda, é ver todos os nossos problemas resolvidos por decreto.
E sabe, eu tenho uma amiga com quem divido meus problemas. Tem o amigo de tomar café, o de assistir filme, o de encher a cara e o de dividir problemas. Dividir problemas ocupa a maior parte do nosso tempo. É claro que não queremos apenas falar de problemas, buscamos na lamentação uma justificativa, uma busca pelo entendimento. Nós duas fazemos terapia, nós duas dividimos figurinhas sobre o que o terapeuta falou, como se trocássemos receitas (ainda bem que não são médicas!), como se trocássemos as vidas.
Mas sabe? Quer saber mesmo? Ontem eu coloquei uma saia longa, um casaco novo, um colar meio extravagante. Saí pra comprar um presente para uma outra amiga, encontrei uma terceira amiga e descobri que sou uma das poucas privilegiadas com seu convite. Percebi nela o encontro da felicidade, plena, fácil, assim, ao alcance das mãos. Não desejei a sua vida, não desejei a sua felicidade. Porque eu tenho esse sol e esse céu azul, eu tenho esse vestido mais curto e essas pernas arrepiadas com um friozinho gostoso. Eu tenho uma marmita me esperando na geladeira.
Eu tenho a possibilidade de um caminho. Ele pode ser difícil, tortuoso. Mas ele pode ser fácil, gostoso. É só inspirar pequenos ares de felicidade que ela te contagia. A felicidade pode ter o cheirinho de roupa lavada e o gosto da reconciliação. Pode ter meta, pode ter epifania, pode não ter nada demais e mesmo assim ser um bonito trajeto.
Pode não chegar a lugar nenhum, mas esse sol ainda vai aparecer outras vezes, dizendo que vale a pena colocar o vestido mais curto. Esse sol ainda vai brilhar no meu caminho. Podia ser difícil, mas hoje eu inspiro a esperança de uma felicidade fácil, ao alcance das mãos. Eu quero que ela permaneça comigo, mas saia de vez em quando dar umas voltinhas, quando os problemas vierem me visitar. Aí ela bate na porta e pede pra entrar. Fica me esperando enxugar as lágrimas, tomar um banho e falar com ela. Eu quero que a felicidade seja minha companheira derradeira.