quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Balde de Conchinhas

Esses dias eu fiz uma viagem nos moldes dos anos oitenta: praia, carro, família e badulaques.  Uma viagem como nos tempos que não existia a possibilidade de parcelar em dez vezes no cartão.  Viajávamos para a praia mais próxima e só. De preferência para alguma casa emprestada e levando uma caixa de mantimentos no bagageiro, junto com um isopor, guarda-sol  e cadeiras de praia. E se você está pensando em como cabia tudo isso em um carro, é porque seu pai não tinha uma Caravan.  Caso contrário você saberia que dava espaço até pra um dos filhos ir deitado junto das bagagens. E tinha briga pra ver quem viajaria lá!

Tirando o porta-malas colossal e a imprudência, tudo igual, até os desentendimentos.  Pra começar meu cunhado se perdeu no caminho. Lembra do tempo que não existia GPS e seu pai se recusava a pedir informação no posto?  Pois é. Duas horas a mais de estrada por conta da teimosia. No outro dia começou aquele lenga-lenga de família. Um quer ir pra um lugar, outro pra outro.  Meu cunhado, sempre ele, ficou infernizando para ir para a praia que ele ia quando era criança. Falou, falou, falou, falou tanto que fomos, caramba, ninguém mais aguentava ele choramingando na cabeça.  Chegamos lá e ele ficou visivelmente emocionado.  E bêbado. Não parava de falar de quando ele viaja com os pais e o irmão, e a casa que ficaram, e aquela vez do Banana Boat. Por sorte não tem mais esse brinquedo por lá. Viva o progresso
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Eu estava começando a achar que minha irmã tinha se casado com uma pessoa intelectualmente prejudicada quando chegou a vez passar o dia na minha praia de infância. Ah, como é bom, meu cunhado estava certo. Voltar há um lugar que você foi feliz na infância é mesmo de se encher os olhos.  E estava tudo igual. As barraquinhas, o queijo coalho, as conchinhas. Não conheci nenhuma outra praia que tivesse tantas conchinhas coloridas como aquela. Eu recolhia as mais bonitas e levava embora. E tinhas as bolachas-do-mar também, com aqueles "pezinhos". Eu levava também e deixava em um pote com água para que não morressem. Claro que não dava certo. Começava a cheirar mal e comprava uma briga com a minha mãe, que queria jogar fora e eu não aceitava.

Fiquei sentada na areia pensando em todas as coisas que eu gostava de fazer quando eu era criança e percebi que a eu continuo gostando das mesmas coisas. Menos nomes, graças a Deus, senão meus filhos se chamariam Sandro e Jéssica, que eram os nomes das minhas bonecas. Sorvete? Até provo outros, mas gosto mesmo é do sabor doce de leite, o mais próximo possível do sorvete do Seu Zé.  E tem ainda andar descalça, filhote de cachorro, pastel de salsicha, chupar laranja, piscina, andar de bicicleta. Posso até mudar, esquecer, mas quando volto a fazer alguma coisa que eu gostava de fazer quando criança, parece que o prazer é dobrado, como se eu recuperasse um pedaço de mim que alguém levou embora.  Foi aí que resolvi começar a colecionar conchas.