terça-feira, 2 de outubro de 2012

O meu auge futebolístico (10-13 anos)

Como muitos de vocês já devem saber, este é o mês das crianças no Blog das 30 pessoas. Cada membro ficou com a responsabilidade de contar uma história dessa época preciosa e irresponsável de nossas vidas.

Quando olho pra minha infância, vejo sobretudo duas coisas: futebol e videogame. Gostaria de escrever sobre as duas coisas, mas para que o texto não fique enorme, vamos de futebol mesmo.

Estudei no Espaço Educação do Jardim 3 à quarta-série. Tive que mudar de colégio porque o Espaço não trabalha com quinta, sexta e as demais séries subsequentes. Isso seria ensino fundamental? Já nem sei mais. Todo dia eles mudam essas nomenclaturas. O campo de futebol era minúsculo e inclinado (quase uma ladeira) e quem acertasse a bola dentro da coordenação, mesmo em caso de gol, era expulso de campo. Quem jogasse a bola pra fora do colégio (o muro devia ter uns 3 metros) também era expulso de campo e só poderia jogar no dia seguinte. Jogávamos então um futebol extremamente meticuloso e acho que foi exatamente isso que fez com que eu desenvolvesse uma habilidade suficiente para chegar no GIMK, onde não conhecia ninguém, e ingressar no time titular da turma 58. As outras turmas eram a 50, 52, 54 e 56. O campeão e o vice da quinta série faziam um quadrangular final com o campeão e o vice da sexta série para definir o melhor das duas séries. O Thiago, que jogava bola comigo no Espaço, foi para o GIMK e também foi escalado para o time titular. Além dos times principais de cada turma, tinha também o time B e em alguns casos até time C. Fizemos um bom campeonato, mas acabamos em segundo lugar. No quadrangular final nós jogamos contra o primeiro da sexta série e tomamos uma goleada de 8 a 2. Parecia os Smurfs jogando contra Gargamel e seus amigos. Eles ganhavam todas as divididas e os chutes dos seus jogadores eram pelo menos dez vezes mais potentes que os nossos. Foram campeões do quadrangular sem fazer muito esforço.

Os jogos eram sempre no recreio e era interessante ver a rivalidade das turmas que ficavam em volta do campo na torcida desviando dos chutes ou tomando bolada. Você ia cobrar o lateral e tinha alguém te empurrando, falando alguma coisa no seu ouvido pra te desestabilizar e até tirar a bola do seu pé discretamente sem o árbitro ver. Aconteceu isso comigo uma vez. As turmas eram mesmo apaixoanadas pelos seus time principais. Os times B e C não recebiam muito crédito, até porque, não duravam muito tempo no campeonato. Muita gente preferia ficar no outro pátio para colocar o papo em dia ou jogar um basquete do que assistir às atuações medonhas dos times B e C. Era comum o nosso time voltar do recreio e ser aplaudido pelo resto da turma depois de uma vitória, o que era absolutamente sensacional.

Eu não queria apenas ser o campeão da sexta série. Queria ganhar o quadrangular final. Esse era o meu grande sonho no colégio. Os campeonatos da sétima e da oitava não tinham o mesmo glamour ou importância. Os jogos não eram na hora do recreio, eram disputados sem torcida fora do horário normal do colégio. Por conta disso, muitos jogadores importantes, que estavam fazendo aula de inglês ou coisa parecida, sequer disputavam os campeonatos dessas séries.

O time era praticamente o mesmo que foi vice no ano anterior. Estava no meu auge como futebolista. De lá pra cá, parece que todo mundo evoluiu e eu parei no tempo. Não tinha muita técnica com a bola nos pés, mas tinha uma incapacidade incomum para fazer gols. Não é uma questão de ser ou não ser modesto. Era uma questão de números. Eu era o artilheiro disparado e ponto. Era um atrás do outro, de todos os jeitos possíveis. Lembro muito bem de um jogo em que vencemos de 10 a 7 e eu marquei 8 gols. Tudo bem que havia outros jogadores mais técnicos que eu, mas até hoje não entendi porque só fui convocado uma vez para jogar pelo time do colégio. Falando nisso, jogamos a final contra um time que tinha 3 jogadores que eram do time do colégio. Eles eram os favoritos. No primeiro minuto de jogo marcaram logo um golaço. Mas fomos lá e vencemos. Eles jogaram melhor, mas a gente soube aproveitar as poucas chances e ganhamos por um placar apertado. Se não me engano foi 3 a 2.

Pegaríamos então o vice campeão da quinta série pra depois provavelmente fazer a final do quadrangular com o time que a gente havia acabado de vencer na final da sexta série. Acontece que no dia anterior ao jogo, eu tive uma crise de asma, algo muito comum na minha infância e adolescência. Não disse nada ao time. Fiquei em casa tomando remédios e fazendo nebulização com a esperança de que me recuperaria a tempo. Poucos minutos antes do início da partida, um dos jogadores me liga de um orelhão do colégio. "Cadê você, cara???". Disse que estava com muita asma. Ele disse pra eu jogar mesmo asmático, que a gente iria perder se eu não fosse. "Vocês vão enfrentar o segundo colocado da quinta série. Não tem erro. Vençam esse jogo que eu estarei curado para a grande final".

Naquela época não tinha celular, não tinha internet, não tinha nada. Queria saber como foi o jogo. Não aguentaria esperar até um deles chegar em casa. Liguei para o colégio. Um dos jogadores foi localizado.

- Porra, seu animal. Vai tomá no cu! Perdemos de 4 a 1. Nem volta mais ao colégio.

Estava tão triste que nem consegui dizer muita coisa. Desliguei o telefone e a asma piorou. Foi um dos piores dias da minha infância.